Quando a monogamia vira ressentimento

Uma mulher foi traída. A outra também. Em comum, a sensação de que tinham sido fiéis por tanto tempo "à toa". Nossa editora e colunista Liliane Prata comenta o assunto

Aconteceu com uma ex-colega de trabalho. O marido dela sofreu um acidente de carro e ficou em coma no hospital. Ela e os três filhos, claro, ficaram inconsoláveis. Ela passou os primeiros dias enfurnada na sala de espera, aguardando uma notícia que fosse. Aí começou a acontecer uma coisa estranha. Uma mulher, surgida não se sabia de onde, apareceu no hospital chorando, querendo saber do acidentado. No dia seguinte, outra mulher apareceu. Alguns dias depois, mais uma.

Eram três mulheres aparentemente muito próximas do marido dela. Três mulheres que ela estava vendo pela primeira vez.

O marido acordou duas semanas depois. A esposa, antes desesperada para que isso acontecesse, agora estava desesperada para saber que mulheres, afinal, eram aquelas. Ele não convenceu muito ao responder que eram “amigas próximas”. Ela insistiu. Então, provavelmente contando com alguma condescendência, dado que se encontrava na cama de um hospital com uma longa recuperação pela frente, ele confessou: as três eram suas amantes. Há anos. Uma atmosfera meio Mad Men.

Minha ex-colega não se compadeceu, não. Pediu o divórcio ali mesmo. Os filhos ficaram contra o pai, que chorou e implorou perdão em vão, e agora chego ao meu ponto: ela ficou, além de muito brava, triste e decepcionada… Muito arrependida de ter sido fiel àquele homem por décadas à toa. “Por que não fiquei com o Caio, que me dava tanta bola, por quê!?”, ela me perguntou, chorando de ódio – agora não do ex-marido, mas de si mesma.

Lembrei esse caso, acontecido há muitos anos, por causa do livro 32 – Um homem para cada ano que passei com você. A autora teve um único homem na vida: o marido. E descobriu, perplexa, que, durante o casamento, ele mantinha quatro amantes. Por isso, ela resolveu, além de se separar, fazer sexo com um homem para cada ano de casada. E lançou o livro contando como foi ficar com cada um daqueles trinta e dois homens.

Nos dois episódios (do primeiro, posso falar com certeza, do segundo, é apenas a sensação que tive ao ler uma entrevista com a autora), a mulher traída sentiu que foi fiel “para nada”. O acordo era claro (ou melhor, implícito): ser monogâmico. Enquanto elas se mantiveram longe das tentações, o cara estava lá, fazendo a festa. Sentimento mais que humano se sentir injustiçada. Mas fico pensando: é (só) por uma questão de justiça que alguém resolve ser fiel?

As relações humanas não são incondicionais: envolvem troca. Você dá amor e quer receber amor. É gentil e reclama quando vem grosseria. Faz renúncias pelo outro e quer que ele faça por você. Senão, não vale, concorda? Mas, quando o assunto é monogamia, percebo que muita gente cumpre a cartilha direitinho, se mantém na linha, sem olhar para o lado… E vai nutrindo um ressentimento em relação àquilo. Às experiências que quis viver e não viveu. Ao relacionamento que “impede” a pessoa de fazer o que quer.

Essas duas mulheres amavam seus maridos. Mas não sejamos infantis: por mais que amemos alguém, esse alguém não pode suprir todos os nossos desejos afetivos e sexuais. Nada mais gostoso do que uma relação longa, quando é harmônica. Mas, dentro dessa relação longa, impossível termos o frio na barriga do primeiro beijo, por exemplo. Sou do tipo que acha que sexo com intimidade fica ainda melhor. Mas é inegável que a primeira vez com alguém tem um sabor diferente. E aí, o que fazer?

Vai de cada um a maneira de lidar com esse impasse clássico. É sempre bom lembrar que as pessoas, homens e mulheres, têm temperamentos (e libidos) diferentes. Para alguns, é mais fácil se manter na linha. Para outros, mais complicado.

Acho genuíno ter uma relação aberta. Acho genuíno ser fiel por décadas. Acho genuíno mentir eventualmente. Acho bonito quando os parceiros conversam abertamente sobre esse assunto. Acho triste quando as relações se desenrolam superficialmente e no piloto automático. Acho triste quando a mentira e o desrespeito viram a regra. E acho triste quando a decisão de ser fiel é envolta por mágoa e rancor.

Repare: tem gente que não trai, mas segue entristecido, sem vida, no seu relacionamento monogâmico e mal-humorado. Tem gente que não trai, mas sente inveja dos que traem. Tem gente que não trai, mas desconta essa insatisfação no casamento. Como se o outro fosse responsável por você não estar fazendo o que queria fazer. Aí, a monogamia vira ressentimento.

Tem uma frase do Confúcio que eu adoro: “Aonde quer que você vá, vá com o seu coração”. As relações humanas envolvem, sim, a troca. Mas, na minha opinião, os envolvidos precisam querer fazer essa troca. Porque uma coisa é abrir mão de algo e se sentir feliz e bem-resolvido com essa decisão. Os filhos fazem muito isso com a gente: abro mão de ver esse filme agora porque minha filha quer que eu brinque com ela – e então me vejo abrindo mão de algo que eu queria fazer, mas me sentindo tranquila com isso. Em paz. O que não dá é abrir mão e ficar fazendo cara feia.

Sim, pode ser que você seja fiel “à toa”. Que descubra lá na frente que seu marido não cumpriu a parte dele do acordo tácito. Mas, independentemente do amanhã, você se sente bem hoje, cumprindo a sua? É algo que respeita sua personalidade e suas crenças? Ou, pelo contrário, é algo que não faz sentido para você? É algo que faz bem ou mal para você e para a harmonia do seu relacionamento?

Para mim, são essas perguntas que fazem sentido e precisam de reflexão. Assim como não dá para trair só para ser moderna, não dá para ser fiel só porque isso é “o certo”. É preciso se conhecer e se respeitar. Sim, relações envolvem troca. Mas troca alguma deve sacrificar quem a gente é e como a gente enxerga a vida.

Liliane Prata é editora de CLAUDIA e escreve esta coluna toda quarta-feira. Para falar com ela, clique aqui

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