Os cuidados com a gestação tardia

Cada vez mais comum, a gestação para mulheres que já passaram dos 35 anos exige alguns cuidados especiais para transcorrer tranquilamente. Saiba o que os especialistas recomendam e curta o barrigão.

 

Com a maior participação feminina no mercado de trabalho e maior escolarização, o cenário das famílias e da maternidade mudou.
Foto: Getty Images

Nem os médicos sabem mais qual a idade limite para engravidar: os tratamentos evoluíram de tal forma que até para uma mulher com mais de 50 anos é possível gerar uma criança saudável e dar à luz sem maiores complicações. Claro que casos extremos ganham ares de ficção científica, mas hoje em dia a maternidade tardia é comum, como atesta o ginecologista e obstetra Renato Gil Nisenbaum, de São Paulo. “Ao redor de 20% das minhas pacientes gestantes têm mais de 35 anos.”

Ainda que a mulher com 35 anos tenha mais dificuldade na fertilização, pela queda na qualidade dos óvulos, são aquelas que engravidam só a partir dos 40 que passam a integrar o grupo de riscos gestacionais. Se levássemos em conta apenas o que o nosso corpo diz, as gestações deveriam acontecer entre 20 e 30 anos, quando ele está mais bem preparado para gerar um bebê. “Antes dos 20 anos, alguns órgãos e os ossos da pelve podem não estar totalmente desenvolvidos. Já depois dos 30, a fertilidade diminui progressivamente e surgem as doenças clínicas que podem complicar a gravidez”, diz Daniel Rolnik, diretor da divisão clínica de obstetrícia do Hospital da Clínicas.

Ainda que biologicamente o nosso corpo esteja preparado, quando jovens as mulheres estão estudando, entrando no mercado de trabalho e é cada vez mais difícil encontrar alguma que pretenda ser mãe nessa fase da vida. Com a maior participação feminina no mercado de trabalho e maior escolarização, o cenário das famílias e da maternidade mudou – assim como o estilo de vida delas. Embora muitas cuidem do corpo, algumas chegam aos 35, 40 anos com problemas de saúde que podem atrapalhar a fertilização. “A questão está na mulher sedentária e obesa. Nesses casos, é preciso um acompanhamento maior do obstetra, com um pré-natal bem detalhado para detectar as complicações precocemente”, afirma Tânia Schupp, ginecologista e obstetra com doutorado em gestações tardias pela Universidade de São Paulo.

Segundo Rolnik, a produção de hormônios para a fertilidade ainda pode ser alterada pelo stress, afetando o ciclo menstrual e as chances de engravidar. Há ainda o perigo de doenças cardíacas nessa idade, agravadas pelo sedentarismo, tabagismo e uso de anticoncepcionais orais. O cardiologista Luiz Bortolotto, diretor do InCor-USP e coordenador do Hospital Oswaldo Cruz, afirma que, geralmente, a hipertensão arterial e a doença coronariana aparecem depois da menopausa, mas esses fatores fazem com que as mulheres a partir dos 35 corram mais riscos.
Ainda que hipertensão, diabetes e sobrepeso, aliados à má qualidade dos óvulos depois dos 40 anos, sejam agravantes, todos esses fatores não impedem que a gestação seja tranquila e o bebê, saudável. Como as mulheres mais velhas planejam a gravidez com mais cuidado, é possível tomar algumas atitudes antes para aproveitar os nove meses com o barrigão.

Primeiros passos

Na gestação planejada, a mulher deve procurar o obstetra de seis a três meses antes de começar a tentar engravidar. É importante que a saúde dela esteja em dia: o primeiro exame que deve ser feito é o de sangue, coma análise completa do colesterol, tireoide, glicemia, anemia e sorologia para doenças infecciosas – como tétano e rubéola – que podem afetar o feto mas são prevenidas com vacina. É fundamental tomar ácido fólico por no mínimo três meses antes de engravidar e até o terceiro mês de gestação. “Essa simples atitude diminui consideravelmente o risco de defeitos no fechamento do tubo neural (anencefalia e espinha bífida)”, explica Nisenbaum.

É muito importante que a mulher busque controlar qualquer resultado alterado nos exames. “Diabéticas que engravidem com a doença mal controlada apresentam risco muito maior de ter filhos com malformações. Além disso, a formação da placenta e, portanto, o crescimento do feto dependem de um bom controle da pressão arterial no início da gravidez emmulheres hipertensas”, conta.
O cigarro está proibido nessa fase, assim como o uso de medicamentos: eles devem ser restritos aos casos de necessidade, com acompanhamento médico. Em mulheres com alguma cardiopatia,

deve-se analisar o caso antes da gestação. Medicamentos para hipertensão ou insuficiência cardíaca não devem ser usados durante a gravidez por causarem alterações no desenvolvimento do feto. Ter um estilo de vida saudável, fazer exercícios físicos e se alimentar bem também ajuda. “Se a mulher é saudável, a gravidez vai bem. O problema está naquelas que não se cuidam. Essas devem fazer um acompanhamento rígido, um bom pré-natal para detectar os problemas precocemente, antes que eles interfiram na saúde da mãe e do bebê”, afirma Tânia.

Acompanhamento

Os dois grandes vilões das gestações tardias são diabetes e hipertensão, muitas vezes causadas pelo sobrepeso da mãe e pelo histórico de saúde dela. Ainda que a rotina não precise ser alterada, a mulher deve mudar algumas atitudes e buscar ser mais saudável. Fazer exercícios moderados e cuidar da alimentação ajudará no controle do peso antes e depois da gestação. A variação dos quilos ganhos não muda com a idade da mulher, só depende de seu peso inicial. Por isso, a importância de emagrecer antes de pensar em engravidar. Para aquelas com Índice de Massa Corpórea entre 20 e 25, considerado um peso normal, a média de ganho de peso deve ser de 1,5 quilo por mês – ou seja, de 9 a 13 quilos durante toda a gravidez.

Manter o peso é o primeiro passo para controlar a diabetes preexistente e o surgimento da gestacional. Ainda que, no primeiro caso, a mulher mude sua alimentação e consiga controlar melhor as taxas de açúcar no sangue, o acompanhamento médico e os medicamentos devem ser mantidos. No segundo caso, o problema costuma sumir depois do parto, mas um estudo da Associação Americana de Diabetes afirma que os riscos de essa mulher desenvolver diabetes tipo 2 depois de alguns anos da gestação são muito grandes. Mesmo as que são saudáveis têm mais probabilidade de ter a doença durante a gestação pelo aumento de peso durante os nove meses.

A visita ao obstetra não muda com a idade da mãe: mensal durante as primeiras 28 semanas, quinzenal entre 28 e 36 semanas e semanal daí até o parto. Outro especialista que deve entrar na rotina da futura mãe é o cardiologista, principalmente se o histórico familiar envolve problemas cardíacos.

Para as hipertensas, o último trimestre costuma ser o mais perigoso: é nessa fase que podem ocorrer a eclâmpsia e a pré-eclâmpsia. Ainda sem causa definida, essas doenças fazem com que a pressão da mulher aumente muito e ela perca grande quantidade de proteína na urina. Na pré-eclâmpsia, o tratamento exige repouso absoluto e medicação específica para o controle da pressão. Já a eclâmpsia faz com que a mulher sinta dores de cabeça, tonturas, dor abdominal e convulsões. Engravidar não causa nenhum problema ao coração, mas o aumento do trabalho do músculo cardíaco pode agravar doenças preexistentes. Com a idade, a probabilidade de essas doenças trazerem mais riscos à mulher e ao bebê aumentam, exigindo um acompanhamento mais rigoroso da parceria entre obstetra e cardiologista. Independentemente da idade, a gestação planejada deve ter como aliada a boa saúde da mulher. Manter-se em dia com os exames de rotina e não se deixar levar pelo stress do trabalho é fundamental para que mãe e bebê aproveitem a gestação da melhor forma possível. Nisenbaum lembra que muitas mulheres com mais idade usam de sua maturidade para manter bons hábitos e boa saúde mental. “Estas poderão ter uma gravidez maravilhosa.”

Vai adiar?

A primeira pergunta a se fazer é: “Com que idade estou pensando em engravidar?” Para as que pensam em gestar ao redor dos 40, Renato Gil Nisembaum recomenda congelar óvulos ainda jovens. “Isso torna a gestação muito mais segura, pois os óvulos congelados se comportam como jovens, diminuindo o risco de síndromes e alterações cromossômicas no futuro embrião.”