Demissão de técnica faz jogadoras deixarem seleção brasileira

“Acredito que ela foi demitida por gostar das coisas corretas e brigar pela a modalidade dentro da CBF. Ela lutava por nós", diz a zagueira Andreia Rosa

Após dez meses no comando da Seleção Feminina de futebol, a técnica Emily Lima, 37 anos, a primeira mulher na liderança do time, foi demitida pela diretoria da Comissão Brasileira de Futebol (CBF). A demissão repentina da treinadora motivou a saída de outras cinco membros da seleção.

A atacante Cristiane Rozeira, 32 anos, as laterais Maurine Dornele, 31 anos, e Rosana Augusto, 35 anos, a volante Fran Alberto, 27 anos, e a zagueira Andreia Rosa, 33 anos, decidiram deixar a Seleção Brasileira de futebol como uma forma de protestar contra a decisão da CBF de demitir Emily. Até então técnica da equipe que tinha 60% de aproveitamento nos amistosos que disputou nos últimos 10 meses.

A primeira atleta a anunciar a saída da seleção foi a atacante, por meio de um vídeo publicado em suas redes sociais. Nele, Cristiane conta que não via outra alternativa diante do cenário imposto pela CBF e que essa foi a decisão mais difícil a ser tomada na carreira, uma vez que sonhava em jogar suas últimas Copa América, Olimpíada e Copa do Mundo.

Meu sonho era colocar uma medalha de ouro no peito, levantar um troféu de campeã mundial e ajudar a modalidade alguma maneira (…) Se eu não pude fazer isso nesses 17 anos como atleta, espero poder contribuir como ex-atleta”, diz.

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Depois, foi a vez de Fran expor sua insatisfação com a demissão repentina de Emily e com a recontratação da antiga comissão técnica. “Quero agradecer a todas as pessoas que torceram e torcem pelo meu trabalho. E torço para que, quem for ficar [na Seleção], colha bons frutos, se é que é possível ainda.”

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A indignação das duas atletas foi compartilhada por Rosana, que também se pronunciou sobre o desprezo da CBF em relação ao apelo das jogadoras para que treinadora permanecesse no cargo. “Sinto que as atletas não têm voz, e querer expor um ponto de vista mexe com a vaidade e ego de muitos”, disse a lateral que atual pelo Corinthians em seus perfis nas redes sociais.

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Boa tarde pessoal! Foram 18 anos representando a seleção brasileira com muito orgulho e amor! Hoje, assim como a Cristiane e a Franciele, torno público o desejo de não defender mais as cores da selecao brasileira. Diante das circunstâncias e adversidades dos últimos acontecimentos, sinto que as atletas não têm voz, e querer expor um ponto de vista, mexe com a vaidade e ego de muitos. Muito se pede para que as atletas se manifestem e reivindiquem. E sim, acho que deveríamos fazer isso, mesmo depois de uma tentativa fracassada como no pedido de permanência da comissão da Emily. Mas em contrapartida, entendo que muitas meninas ali, junto com os seus familiares têm um sonho. E protestando algo, têm medo que esse sonho seja abortando abruptamente, por não saberem a força que teriam juntas. Sempre me posicionei, por vezes, somente internamente, outras em público. Me posicionava, porque sempre pensava no que eu poderia ganhar e não perder. Sim. Sofri retaliação, e o sonho ficou no modo abstrato. Mas deixei de ser conivente com o "errado"! E é por isso, que estou abdicando mais uma vez de um sonho. Não temos força e nem voz. E isso, um dia cansa! Fica aqui o meu desejo para que pessoas que amam e tratam a modalidade com carinho e respeito, ocupem cargos de expressão dentro do futebol feminino brasileiro, e que as atletas ganhem corpo e voz, na briga incessante pela modalidade. Um grande abraço a todos!!!

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Para Andreia, a quarta baixa da equipe, também não foi diferente. “Estive na seleção por 7 anos e vi muitas coisas acontecerem. E muitas vezes não tivemos força ou coragem de falar pelo medo de não sermos mais convocadas. Hoje, com meu peito aberto, venho falar que precisamos colocar pessoas que sonham e acreditam no futebol feminino e não simplesmente que estão lá por estar.” A zagueira ainda contou à CLAUDIA que decidiu se “manifestar em busca de igualdade de direitos, respeito e uma melhor estrutura para o futebol feminino para as gerações futuras”.

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Maurine, por enquanto é a última atleta a deixar a Seleção. Sua decisão foi tomada por muitos motivos. Uma das razões foi o cansaço e a saída da ex-treinadora – uma “pessoa que trabalhava bastante e que eu gostava bastante de seu trabalho”, como descreveu em vídeo publicado em seu Instagram.

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União espontânea

A CLAUDIA, as laterais Rosana e Maurine contam que nada foi planejado entre as atletas. “Simplesmente compartilhamos da mesma ideia diante das circunstâncias que foram colocadas para nós”, diz Rosana, atleta que atua pelo Corinthians e que há 18 anos defendia a camisa verde-amarela. “Não foi nada combinado. Cada uma foi saindo porque não se sentia bem“, completa Maurine.

A circunstância a que Rosana se refere, além de toda falta de investimento na modalidade, é a impossibilidade de conclusão do ciclo com Emily Lima. Maurine concorda. “A seleção tem novidade sempre e, por isso, nunca dá tempo para continuar um trabalho”, comenta a jogadora do Santos, que lamenta o pouco tempo de trabalho da ex-treinadora.

“Acredito que a Emily foi demitida porque ela gostava das coisas corretas e brigava pela a modalidade dentro da CBF, ela lutava por nós. A CBF não gosta de ninguém que bata de frente, da mesma forma isso aconteceu com o Renê Simões”, falou Andreia à CLAUDIA. “Talvez também pelo fato de ser mulher, a primeira mulher na seleção brasileira em 30 anos desde que a modalidade começou a disputar jogos e campeonatos oficiais”, conjectura a zagueira.

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Prioridade ao futebol feminino

Com o ciclo de Emily quebrado, quem reassume o cargo é o técnico Oswaldo Fumeiro Alvarez, o Vadão. O treinador é velho conhecido da seleção. Ele treinou a equipe entre abril de 2014 e novembro de 2016 – quando foi demitido por decisão do presidente da CBF Marco Polo Del Nero.

O retorno do técnico junto a antiga comissão provocou questionamentos. “Agora, volta uma comissão que já teve oportunidade. Ficamos sem entender o porquê, então, de não dar mais tempo para a comissão de Emily”, indagou Rosana. “Todas as outras comissões que passaram [pela seleção] tiveram um tempo muito grande de trabalho. Tiveram um ciclo todo. Essa sequer teve oportunidade. Por que era mulher?“, pergunta Cristiane em seu vídeo.

Para Rosana, é importante lembrar que o futebol feminino como um todo precisa ser pensado e priorizado por aqueles que o comandam. “A seleção passa, as pessoas que a compõe passam, o que não passa é a modalidade.”