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Dá para conviver com negacionistas?

As relações com familiares e amigos que negam fatos científicos e espalham fake news andam tensas. Especialistas indicam como não romper vínculos

Por Maria Clara Serpa - Atualizado em 5 ago 2020, 21h11 - Publicado em 6 jun 2020, 09h00

Você pode se considerar muito sortuda se não apareceram nas suas redes sociais ou até por mensagens pessoas espalhando teorias da conspiração e fake news sobre a pandemia do novo coronavírus. Para quem vem se deparando com isso e não quer romper vínculos, recomendamos calma e a leitura das dicas a seguir

 

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Eles não são exatamente uma novidade entre nós. Há algum tempo aparecem grupos contra vacinas, rejeitando as teorias de aquecimento global ou dizendo que a Terra é plana e negando qualquer evidência científica que prove o contrário. Agora, enquanto lutamos contra a pandemia da Covid-19 surge um novo tipo de negacionista – o que tem absoluta certeza da criação do vírus em laboratório ou que duvida da sua letalidade e se junta a buzinaços em protesto às medidas de isolamento social.
Desta vez, talvez pela situação extrema que enfrentamos, os seguidores dessas ideias ganham algum destaque, provocando em seus familiares e amigos o sentimento de vergonha alheia. Tudo bem se você faz parte dessa turma – a segunda, claro. Teorias da conspiração, fake news e especulações andam se espalhando pelas redes sociais e, mesmo que você seja contra tudo isso, nada impede que pingue no seu WhatsApp uma mensagem daquela prima defendendo algo sem fundamento.

Na verdade, esse tipo de raciocínio é bem mais comum do que se imagina. Ele conquista adeptos quando há falta de confiança nas instituições e, consequentemente, na ciência ou medo da realidade. “A ciência é elitizada, e o brasileiro, em geral, não tem formação científica. Além disso, a rotina difícil de algumas famílias também pode abrir espaço para o negacionismo. Não ter uma casa ou não poder fazer o isolamento social por exigências do trabalho provoca questionamentos e possibilita que a negação se espalhe”, explica Tatiana Roque, professora de matemática, história das ciências e filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Já para governantes, pode ser uma ferramenta de poder. “Além de estar intimamente ligado às fake news, esse negacionismo também tem um fundo de egoísmo. É claro que existem pessoas que repetem esse tipo de absurdo por falta de conhecimento, mas não é o caso da maioria. Na minha visão, o que faz alguém rejeitar algo tão evidente é o fato de ter em mente que aquela verdade não a beneficiará ou o medo de perder poder e apoiadores”, afirma a psicóloga Mônica Soutello, de São Paulo.

No período turbulento em que vivemos, é cada vez mais difícil não entrar em conflito com quem espalha desinformação ou nega fatos. Mas o confronto constante também pode ser exaustivo. E nem sempre é uma boa ideia se deixar levar pela emoção e romper a relação com a mãe, por exemplo. Especialistas indicam o melhor caminho para conviver (mesmo que isso signifique se distanciar um pouco).

Analise a relação

A cunhada da comunicóloga Luana*, de São Paulo, optou por não vacinar os filhos. Em um primeiro momento, Luana tentou convencê-la de que deixar as crianças desprotegidas era um absurdo, mas, sem perceber mudanças no comportamento, resolveu evitar maiores discussões. “É difícil, especialmente porque isso interfere na saúde dos meus sobrinhos, já que, além de não vacinar, ela opta por remédios homeopáticos mesmo em casos de infecção grave. Como notei que ela não está aberta a conversas, preferi manter o bom relacionamento familiar, ainda que com ressalvas”, conta ela. Antes de sair por aí discutindo com negacionistas, faça uma reflexão. Na maior parte das vezes, essas pessoas não estão dispostas a ouvir argumentos diferentes dos delas. Então o diálogo pode não levar a lugar algum e ser extremamente desgastante. “Não existe uma regra aplicável a todos, mas tente determinar quanto a relação é importante para você. Se for um familiar com quem é necessário o contato, talvez valha mais a pena tentar um diálogo. Mas, se o negacionista é um conhecido ou amigo com quem você sempre discute pela diferença de ideias, avalie se não é melhor evitar a irritação e o assunto”, afirma o psicólogo Ronaldo Pilati, de Brasília, autor do livro Ciência e Pseudociência: Por Que Acreditamos Apenas naquilo Que Queremos Acreditar (Contexto).

Getty Images/Getty Images

 

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Classifique a natureza do negacionismo

O pensamento do negacionista põe os outros em risco? Essa pergunta é fundamental antes de tomar qualquer atitude. “Será que tentar mudar a opinião dessa pessoa realmente fará alguma diferença para aqueles que vivem ao redor dela? Um terraplanista, por exemplo, possivelmente não causará nenhum dano a quem convive com ele. Já alguém que rejeita dados relacionados à pandemia pode estar colocando a saúde de todos em xeque. Um diálogo com alguém do segundo grupo pode valer mais a pena”, explica Mônica.

 

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Não bata de frente

Durante o último mês, a estudante Julia*, de São Paulo, perdeu a conta de quantas vezes discutiu com a família, que ignorava as regras do isolamento social. “Como é da minha personalidade, eu não conseguia ficar quieta e só aceitar. Porém, a cada tentativa de convencimento, entrávamos em uma briga enorme, que tinha efeitos nocivos apenas sobre mim. Eu ficava nervosa e ansiosa. Eles continuavam quebrando a quarentena normalmente. Foi quando decidi mudar de postura”, conta. O recomendado, segundo Ronaldo, é mesmo evitar bater de frente. Isso pode causar mais irritação e revolta para ambas as partes. “Por mais difícil que seja, busque ouvir o outro lado e expor os seus argumentos de forma clara e didática. Observe também se não há nada a levar em conta no discurso do outro. No caso das relações familiares, as discussões podem ser mais sérias porque, em geral, há mais fatores envolvidos, como outros sentimentos, rancores e problemas”, explica o psicólogo.

“Se for um familiar, talvez valha mais a pena tentar um diálogo. Mas, se o negacionista é um conhecido, avalie se não é melhor evitar a irritação e o assunto”

Ronaldo Pilati, psicólogo

Informe-se

Se decidir investir no diálogo, leia, busque informações e prepare argumentos científicos antes da conversa. Essas medidas são muito importantes na hora de rebater qualquer fake news. Tente ser o mais possível didática e deixe de lado termos difíceis e técnicos. Procure fontes confiáveis, como artigos, mas vale também, para se fazer entender mais facilmente, pesquisar em canais no YouTube e sites dedicados a disseminar o conhecimento científico à população em geral. “Não caia na armadilha de só usar textos acadêmicos que, por sua complexidade de compreensão, acabam excluindo algumas pessoas. Também não parta de argumentos elitistas nem queira impor que a ciência é uma verdade absoluta, porque ela não é e pode ser questionada, desde que da maneira correta, seguindo os métodos”, diz Tatiana.

 

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Lembre-se: vai acabar

Muitas vezes, essas questões que aparecem nas brigas familiares têm a ver com ideais políticos. “Quando as lideranças são contraditórias, radicais e defendem absurdos como maneira de se manter no poder, certos fatos que não deveriam ser confundidos com opinião, como é o caso desta pandemia, que está matando milhares de pessoas, se tornam alvo de politização, o que é completamente errado”, explica Mônica. Vários assuntos da sociedade viraram um fla-flu, e com a pandemia não é diferente. Foi o que Júlia compreendeu após alguns atritos. “Como eu e minha família nos desentendemos bastante na época das eleições, porque temos orientações políticas diversas, percebi que tudo o que conversávamos tomava esse rumo e invalidávamos automaticamente o argumento um do outro”, diz a estudante. Por isso, nas conversas com negacionistas, evite ao máximo usar exemplos de políticos ou lideranças ao defender um determinado ponto de vista para não cair em uma disputa ideológica.

Getty Images/Getty Images

Em último caso, busque ajuda profissional

“As pessoas que se submetem a processos terapêuticos estão em contato com elas mesmas e, consequentemente, refletem mais sobre todos os momentos, inclusive sobre este que estamos vivendo. Assim, conseguem lidar melhor com o que estamos passando”, afirma Mônica. Ronaldo concorda e completa: “Em uma situação deletéria, em que há necessidade de conviver, mas o assunto de discordância sempre vem à tona e causa desentendimentos, procurar a ajuda de um profissional, seja um psicólogo, terapeuta ou psiquiatra, pode ser a última tentativa de tornar a situação mais sustentável”.

*Nome trocado a pedido da entrevistada

 

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