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Conheça histórias de casais que superaram o divórcio e se tornaram amigos

Eles conseguiram vencer a dor, transformar sentimentos e ressignificar suas relações

Por Manuela Aquino - Atualizado em 17 fev 2020, 10h46 - Publicado em 21 dez 2019, 08h00

A surpresa é quase sempre inevitável quando a gente fala de um casal que se separou, mas mantém uma boa relação. “Sério que passam o Natal juntos?”, um ouvinte desconfiado pode perguntar. Apesar da incredulidade, essa situação é bastante provável quando o divórcio acontece sem brigas pesadas e a mágoa não é profunda.

“Se a separação for traumática, com divórcio litigioso, por exemplo, torna-se mais difícil e complexo reaver a relação. Ficam muitas questões mal resolvidas. Porém, se o respeito for preservado, é possível vislumbrar essa nova configuração do relacionamento e enxergar o outro não como parceiro, mas como alguém que marcou sua história e que você admira”, afirma a psicóloga Denise Figueiredo, sócia-diretora do Instituto do Casal, em São Paulo.

Especialmente quando há filhos envolvidos, muitos ex-casais precisam manter contato. Por isso, buscar uma convivência mais pacífica traz vários benefícios – lembre-se de que, mesmo depois da separação, o pai dos seus filhos segue sendo parte da família.

 

 

Talvez a amizade não nasça de uma hora para a outra, e tudo bem. Você vai ver nas páginas a seguir que a paz é real e possível, mesmo que o tempo para chegar lá seja diferente para cada uma das partes. As pessoas têm processos individuais para digerir a separação, que é dolorosa e difícil – seja pelo amor que acabou, seja pela frustração de não ter conseguido manter algo que foi seu sonho, seja pela preocupação com os filhos.

“O divórcio mexe com nossas dores do passado, como o apego à história construída. Então, não precisa ter pressa. Com o tempo, há uma readaptação da relação e pode surgir outro tipo de conexão, mas será necessário estabelecer limites, pois a partir daí cada um terá seu caminho”, explica a psicóloga Cláudia Puntel, professora e supervisora da pós-graduação em Gestalt-Terapia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Isso quer dizer que, mesmo com uma nova configuração familiar, as conversas e discussões continuarão, pois, além das questões com os filhos, podem aparecer outras pessoas na área, como os novos companheiros. Nessa fase, os ex-casais devem ficar atentos para que o combinado não azede. “Ainda que o pacote esteja pronto, a chegada de um terceiro vai impactar. Para que todos se sintam seguros, é interessante que haja uma conversa entre os três envolvidos Nesse caso, tudo precisa estar muito claro”, afirma Denise. Para mostrar que, com jeitinho e muito papo, tudo se encaixa, três ex-casais que se separaram da melhor maneira possível contam como conseguiram se tornar amigos.

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Juliana Ali e Marco Bezzi

Juliana e Marco
Nino Andrés/CLAUDIA

A artista plástica Juliana Ali, 42 anos, e o youtuber do canal Galãs Feios, Marco Bezzi, 45 anos, formam aquele tipo de ex-casal que a gente até duvida que existe. Eles são melhores amigos, confidentes e dão conselhos amorosos um para o outro. Para chegar a esta etapa, passaram um ano distantes, mas nunca brigaram nem tiveram desentendimentos pesados. Juliana e Marco começaram a namorar em 2001 e no ano seguinte foram morar juntos. Tiveram o Teodoro, hoje com 11 anos. Separaram-se oito anos depois.

Seis meses após o término, Juliana começou a namorar o designer Fernando Saraiva, 37 anos, e Marco ficou incomodado – essa foi a única questão mais delicada com que eles tiveram que lidar depois da separação. Juliana e Fernando tiveram uma filha, Carmen, 4 anos, que acabou virando a grande paixão de Marco. Isso uniu ainda mais a família. Para brindar a relação, ele, que namora a atriz Danielli Guerreiro, 38 anos, foi chamado para ser padrinho da pequena. “Hoje, estamos há mais tempo separados do que ficamos juntos e nunca fomos tão próximos. Eu nunca gostei tanto dele como agora. Ele se transformou em um pai sensacional, em um amigo incrível”, diz Juliana.

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CLAUDIA: Como foi a decisão da separação?

Juliana: A gente estava muito mal fazia mais de um ano e nós dois sabíamos disso. Terminamos depois de um Réveillon. Tínhamos decidido não passar a data juntos de tão bodeados um do outro. Imagine um casal que não quer passar o Ano-Novo juntos. Sinal de que está tudo errado. Eu já tinha me despedido do nosso casamento a essa altura.

Marco: Não fazíamos nada mais juntos. Eu tinha meus amigos e só queria ficar com eles.

Juliana e Marco
Nino Andrés/CLAUDIA

CLAUDIA: A convivência logo depois foi boa?

Marco: Mais ou menos. Quando eu saí de casa, achei que a gente ia voltar. Meu filho tinha 1 ano e meio; pensei que seria melhor só dar um tempo, que nossa relação iria se ajeitar. Mas ainda bem que não voltamos, pois foi melhor para todo mundo. Fiquei com raiva quando ela arrumou um namorado. Tive aquela reação típica do machão que quer ter a posse. Essa bobagem toda. Quem segurou a onda foi ela. Por mim, no começo, teríamos brigas horrorosas. Fui morar sozinho, depois na casa do meu pai. Daí bateu uma derrota. Mas continuei convivendo com meu filho.

Juliana: Ele não deixou o Teo em nenhum momento. Nunca faltou emocionalmente, financeiramente nem quando não estávamos tão bem.

CLAUDIA: Quando passou essa fase?

Juliana: Ele estava com raiva e jogava na minha cara que eu já tinha arrumado outro. Falava: “Quem é esse homem na sua casa?”. Mas nunca xingou nem foi mal-educado.

Marco: Teve um acontecimento que foi importante pra mim. Eu estava saindo com meus amigos, bebendo muito. Um dia, entrei em uma briga e quebrei a cara. Machuquei o nariz, a boca, fui parar no hospital. Nesse dia, pensei: “Estou fazendo coisas muito erradas”. Foi uma surra didática, me deu um sacode. Além disso, passei a perceber o jeito como o Fernando tratava o Teo. Eles se davam muito bem.

Juliana: O que ajudou também foi o Marco ter arrumado uma namorada. Aquilo aproximou a gente, pois começamos a trocar conselhos e a ter uma verdadeira amizade, a falar dos nossos relacionamentos.

Juliana e Marco
Nino Andrés/CLAUDIA

CLAUDIA: Quando todo mundo ficou unido e virou uma nova família?

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Juliana: Aos poucos, com mais convivência, fomos criando laços. Há uns três anos, o Marco teve uma crise de depressão que durou muito tempo. Eu lutei bastante ao lado dele e o Fernando também abraçou a causa. Isso nos deixou mais próximos. E teve, claro, o nascimento da Carmen.

Marco: Quando a Carmen nasceu foi demais! O Teo dormiu comigo e fomos conhecê-la juntos. Assim que a vi, bateu uma paixão. Sou louco por ela. Tenho que me controlar na frente do meu filho para ele não perceber.

Juliana: A Carmen dorme na casa do Marco. Ele leva os dois para passear. Quando o Fenando e eu queremos sair para ter um momento só nosso, o Marco fica de babá. Ele foi até morar perto da gente, no bairro vizinho, para podermos estar juntos e formar essa rede. Ele pode ir na minha casa a hora que quiser, pegar o Teo quando quiser. A gente procura fazer tudo de acordo com a vontade de cada um.

Pais de pet

Ana Elisa e Marco Aurélio

Ana Elisa e Marco Aurélio
Nino Andrés/CLAUDIA

Até os amigos mais próximos estranham a sintonia entre a atriz Ana Elisa Mattos, 34 anos, e Marco Aurélio Campos, 44 anos, ator e diretor de dublagem. Como eles podem se dar tão bem depois do término do relacionamento sem nem ter filhos para dar um empurrãozinho na amizade? “As pessoas têm necessidade de ver cada um ir para seu canto, é uma cobrança social. Mas o Marco é meu porto seguro, e eu sou o dele”, diz Ana.

Eles começaram a namorar em 2009 e poucos meses depois já estavam morando juntos. O que os fez romper os laços, depois de quase oito anos, foi perceber que as expectativas de cada um eram diferentes em relação ao momento de vida. Não houve briga, mas muita conversa sincera. Quando resolveram viver em casas separadas continuaram, na mesma intensidade, com as conversas por telefone e encontros. Também passaram a dividir a guarda compartilhada da vira-lata Pirata. Além da amizade, acumularam mais um elo; desta vez, profissional. São sócios em projetos ligados ao teatro e outras produções artísticas.

CLAUDIA: A separação foi tranquila?

Ana: Tranquila nunca é, ainda mais depois de sete anos e meio juntos.

Marco: Mas fomos bem parceiros do começo ao fim.

Ana: Acho que, quando o relacionamento é saudável, é possível ter uma relação pós-término saudável também. Não sei se isso pode acontecer quando a separação é desconfortável ou com trauma. A decisão partiu dele. O ano de 2016 foi difícil. Marco teve muitas crises em relação ao casamento. Eu queria sempre conversar, mas ele ainda não conseguia elaborar e explicar o que estava acontecendo. Fomos tentando, tentando… Até que eu tive um problema em uma vértebra na coluna e senti umas pontadas no ouvido. Procurei um quiroprático e descobri que estava tudo bem fisicamente, mas não com meu lado emocional. Voltei para casa e disse: “Tudo bem que você não consegue conversar, mas no meu corpo ninguém mexe”. Choramos muito e eu saí de casa.

Marco: Na época, nós tentamos um casamento em casas separadas, mas não rolou. Um dia, fomos ao bar com amigos. Na volta, conversamos no metrô e eu disse que a amava, mas uma voz me dizia que eu precisava viver outras coisas. Ela respondeu: “Vai, não preciso de ninguém comigo que queira viver outras coisas”.

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Ana Elisa e Marco Aurélio
Nino Andrés/CLAUDIA

CLAUDIA: Como fizeram para construir a amizade que vocês têm hoje?

Ana: Os casais se separam e saem um da vida do outro. A gente tinha em algum lugar no nosso coração que não queríamos isso. O ciclo do casamento tinha acabado, mas não nosso companheirismo. Em alguns momentos estivemos próximos; em outros mais distantes para entender a nova rotina e vida de cada um. Mas frequentamos muito um o lugar do outro. Eu tenho as chaves da casa dele e vice-versa. Até mesmo por causa da Pirata.

Marco: Nunca nos distanciamos, nem deixamos de nos falar. A separação foi no dia 28 de dezembro e passamos a virada de ano juntos com amigos. Já tínhamos combinado e foi tudo bem. Na verdade, foi menos ruim do que a gente pensou. Tinha um monte de crianças, rolou uma guerra de bexigas de água. Rimos e tudo ficou mais leve, a energia mudou.

Ana: Resolvemos passar a virada de ano como se fosse uma despedida. Só que, no fim de janeiro, minha mãe faleceu, e o Marco esteve superpresente. Ela morreu sem saber que estávamos separados. Para mim, foi uma mudança de vida muito brusca.

CLAUDIA: Como reagem a outros relacionamentos? Rola ciúme?

Ana: Temos muitos amigos em comum e já aconteceu de estarmos no mesmo ambiente, e ele com outra pessoa. Eu fiz questão de incluí-la, dizer que estava tudo bem. Mas ele já deu chilique.

Marco: Não dei chilique, tomei um susto! No final de uma peça que ela estava fazendo, fui cumprimentá-la. Ela veio em minha direção, passou reto por mim e beijou o cara com quem estava ficando. Eu não sabia de nada e fui embora. Senti que todo mundo sabia, menos eu. Só achei que ela devia avisar para não pegar de surpresa.

Ana: Não tem que ligar para falar com quem está ficando agora, três anos depois. Se for namoro, a gente fala, mas ficando, não.

CLAUDIA: Como vocês decidiram a guarda compartilhada da cachorra?

Ana: Foi simples. A Pirata foi resgatada por nós dois em 2015. Está com a gente há quatros anos. Ninguém ia abrir mão dela. Ela passa metade do mês comigo e a outra metade com ele.

Marco: Tinha que ser assim. A Pirata é tanto minha quanto dela, ama os dois, fica bem nas duas casas. É uma cachorra muito bacana. Até achei que essa nova dinâmica pudesse mexer com ela, mas não.

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Dois avôs e uma avó

Kaká de Lyma e Sônia da Rocha

Kaká e Sônia
Nino Andrés/CLAUDIA

Era a década de 1980 e o ator Kaká de Lyma, hoje com 57 anos, nascido no Ceará, tentava a carreira em São Paulo. Fazia shows na noite paulistana quando conheceu a recepcionista Sônia da Rocha, modelo na época, que agora tem 70 anos. Um amigo em comum apresentou os dois, mas não aconteceu nada. Acabaram se reencontrando ao acaso na rua e, em outra ocasião, em uma boate, também sem combinar. “Começamos a dançar e nos beijamos. Namoramos três meses e casamos”, conta Kaká.

O casal ficou dois anos juntos e teve Tainan, 30. Cerca de um ano depois, o ator conheceu o funcionário público aposentado Pedro Abílio, 56 anos, com quem vive há 27 anos. Kaká, Sonia e Pedro são muito amigos. Estão sempre juntos nas festas de aniversário, no Natal e em outras reuniões familiares. Kaká até empresta roupas que usa em espetáculos para Sônia. Os três se uniram mais ainda com a chegada do neto, Bento, 6 meses, filho de Tainan.

CLAUDIA: Como foi o período logo após a separação, com um filho de 2 anos?

Sônia: Tirei um mês de férias e fui para Porto Seguro (BA) com o Tainan, pois eu amava aquele lugar. Entreguei o apartamento em que morávamos e fui fazer artesanato, me divertir um pouco. Vivi um tempo por lá. Na volta, fiquei com minha mãe em uma cidade perto de São Paulo. Era para ser provisório, mas estou com ela até hoje.

Kaká: Eu continuei em São Paulo, e a gente se via por causa do Tainan. Por ele, fomos responsáveis e mantivemos contato constante. Claro que tinha aquele sentimento da separação, mas, mesmo assim, a gente ainda transou umas duas vezes, não foi?

Sônia: Foi. Era uma mistura de sentimentos. Às vezes, nos víamos e acabávamos chorando. Não deu certo o relacionamento, mas sempre tivemos respeito.

Kaká e Sônia
Nino Andrés/CLAUDIA

CLAUDIA: Como foi quando você começou a namorar o Pedro?

Kaká: Eu já tinha me relacionado com outro homens antes do casamento. Comecei a namorar o Pedro um ano depois da separação. Um dia, a Sônia nos encontrou num ônibus. Na hora em que eu a vi, deu um frio na barriga. Ela me cutucou e disse: “Oi, querido”. Apresentei os dois.

Sônia: Mas eu já sabia do Pedro. Uma vez, fui buscar o Tainan no metrô do lado da casa deles e houve um desencontro. Fui até onde os dois moravam, pois estava muito frio. Pedro abriu a porta para mim. Falei para ele que precisava esperar o Tainan e o Kaká lá, por causa do frio. Conversamos numa boa. Com o tempo, passamos a ficar todos mais próximos. Eu gosto muito dele; é fofo, a gente se dá superbem.

CLAUDIA: Todo ano vocês fazem uma festa de pré-Natal para se encontrarem. Quando começaram?

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Kaká: A gente se encontrava no final do ano, ia para um barzinho ou restaurante e trocava presentes. Mas sentimos, até pela convivência na escola, a cobrança de passar o Natal com a família. Então começamos a organizar essa festa para reunir todo mundo.

Sônia: Quando nosso filho era pequeno, ficava um fim de ano comigo e outro com ele. Depois, começamos a passar os três juntos, com o Pedro e toda a família. Também comemoramos nossos aniversários assim. Este ano, a festa do Kaká foi à fantasia. Fui vestida de periguete e ele de pirata, mas pirata mulher. Fizemos um vídeo para guardar para nosso neto ver quando crescer (risos).

Kaká: O Natal deste ano será especial, vai ser o primeiro com nosso neto, Bento, que, no fim das contas, tem dois avôs e uma avó.

Kaká e Sônia
Nino Andrés/CLAUDIA

No papel

Como funciona o processo de separação de maneira formal e de acordo com a lei

É claro que é importante investir na amizade com o ex-parceiro, mas, independentemente da relação, há burocracia necessária por trás de uma separação. Para regularizar o estado civil, o casal tem que entrar com uma ação de divórcio. Só assim será possível, por exemplo, casar de novo em cartório. Se o divórcio for consensual e tudo estiver de acordo entre os dois, como a guarda dos filhos, pensão ou mesmo divisão de bens, o processo deve durar de 30 a 90 dias. Para que ande mais rápido, melhor investir na contratação de um advogado de família, que pode até ser o mesmo para os dois.

“No caso do divórico litigioso, exigirá mais tempo. Deverão ser respeitadas as formalidades, com prazos de defesa e audiências, o que poderá levar alguns meses ou até anos”, diz o advogado Ricardo Calderon, coordenador e professor do curso de pós-graduação da Academia Brasileira de Direito Constitucional, em Curitiba.

Segundo o especialista, os direitos e deveres de cada um após a separação referem-se à obrigação com os filhos e às questões de interesse do casal, como troca de nome e partilha dos bens. Para este último, estabelecido no casamento civil, há cinco modalidades, como a comunhão parcial e a universal de bens. Na primeira, tudo o que foi adquirido pelo casal será dividido entre os dois; na outra, vale para o que foi adquirido antes e ao longo do casamento. “Na união estável, também é possível fazer os mesmos regimes do casamento e as partes devem estipular por escrito um regime de bens”, afirma o advogado.

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