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Casais que se conheceram virtualmente contam sobre seus finais felizes

Relações amorosas iniciadas virtualmente tendem a ser duradouras, inter-raciais e diversificadas, como apontam novas pesquisas

Por Kátia Melo Atualizado em 28 jun 2018, 12h45 - Publicado em 28 jun 2018, 12h27

Talvez a maior parte das leitoras nunca tenha ouvido falar em footing, mas era assim que se paquerava nos anos 1950. As moças desfilavam para cima e para baixo em avenidas e praças, exibindo seus esbeltos corpos marcados por cinturas finas, até que o pretendente enviasse sinais de interesse, como uma piscadela. As mais tímidas não se arriscavam a pegar na mão no primeiro encontro, pelo menos até que se instalassem em poltronas confortáveis no escurinho do cinema.

Nas últimas seis décadas, o namoro passou por várias mudanças provocadas, principalmente, pelo surgimento da pílula anticoncepcional, em 1960, e sua consequente revolução sexual. Na sequência, a discussão sobre o assunto ganhou mais espaço após a ícone-mor dos movimentos feministas, a escritora francesa Simone de Beauvoir, questionar o tabu da virgindade. Nos anos 1980, esse processo sofreu um revés com a aparição da aids, doença então cercada por inúmeros preconceitos, que freavam a libido.

Com a entrada na era virtual, nos idos de 1990, surgiram os primeiros sites de relacionamento. Eles estabeleceram uma nova onda comportamental, com vocabulário próprio, em que o verbo “ficar”, por exemplo, definia o caráter das relações, mais efêmeras.

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A invenção do Tinder, em 2012, e de outros aplicativos similares, como OK Cupido, causou rebuliço ainda maior na forma de os casais se relacionarem. E vai aumentar com a chegada do Dating, do Facebook, em breve. Hoje o Tinder já agrega mais de 50 milhões de usuários, sendo que um quinto deles se encontra no Brasil.

Pesquisadores americanos que se debruçam sobre o tema há algumas dezenas de anos comprovaram o que todo mundo imaginava: a internet está mudando novamente a natureza do namoro. Os casais que se conhecem na rede tendem a estabelecer relações mais duradouras, estáveis e sinceras. Além disso, nos contatos virtuais as pessoas parecem mais abertas a encontrar parceiros que provavelmente não fariam parte de seus círculos habituais, conferindo maior diversidade aos relacionamentos.

HONESTIDADE

Com as inúmeras possibilidades de encontros nessa aritmética virtual, surgem algumas incertezas na busca por um par romântico, principalmente em relação à honestidade. “Será que o cara está me enrolando? Será que ele está saindo com outra pessoa pelo mesmo aplicativo? Será que é sincero sobre sua vida pessoal?”

Ornella Grillo, empresária, 24 anos, confessa que deu a famosa vasculhada no Google pelo nome de Gabriel Oriani, 28 anos, analista de pesquisa, quando o conheceu pelo Tinder, há dois anos. Acessou fotos e informações sobre ele no Instagram e no Facebook para tentar saber algo a mais sobre o rapaz antes de ir em frente com as conversas. “Eu fucei tudo”, conta. Pelas fotos e postagens, concluiu ela, era alguém ligado à família. Mesmo assim, Ornella resolveu deixar com o pai o endereço do restaurante em que iria se encontrar pela primeira vez com Gabriel.

Segundo ela, tomaram um vinho e não foram além dos beijos iniciais. Ornella sentiu nele confiança. “Ele foi muito tranquilo”, diz. Deu tão certo que hoje o pai, separado da mãe de Ornella desde que ela era pequena, paquera pelo Tinder.

Ornella Grillo e Gabriel Oriani Raquel Espírito Santo/CLAUDIA

Diferentemente do que se poderia concluir apressadamente, os casais que dão match – período em que se apresentam e trocam mensagens antes de colocarem olhos nos olhos presencialmente – costumam ser sinceros, como revela pesquisa recém-divulgada pelos professores americanos de comunicação Jeffrey Hancock, da Universidade de Stanford, e Dave Markowitz, da Universidade de Oregon.

De acordo com os estudiosos, apenas 7% dos participantes de sites de namoro se embrenham em mentira. E a maior parte das lorotas – do tipo “já estou indo”, quando a pessoa ainda nem está pronta para sair, ou “você é fofo”, quando não é exatamente o que a internauta pensa sobre o rapaz – é considerada inofensiva.

Para chegar a esses resultados sobre a honestidade dos pares, os professores coletaram mais de 3 mil mensagens enviadas por 200 pessoas durante o match. Eles concluíram que, em geral, as mentirinhas acontecem de maneira educada, para despistar o/a pretendente na hora de engatar uma conversa ou sair dela.

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As paqueras virtuais tornaram-se tão habituais nos Estados Unidos que um terço dos casamentos na sociedade americana provém desses encontros. No Brasil, a tendência não é diferente. Uma das razões do sucesso desses aplicativos é que se tornou muito mais simples e prático encontrar alguém pelo computador, o que pode se fazer até vestida com pijama e de pantufas.

Começar a namorar numa balada requer tempo e disposição. Isso não estava nos planos de Andrea Gouveia, empresária, 44 anos, quando, há dois anos, conheceu o atual marido, Everaldo Reys, 44. “Faltavam pique e paciência para me arrumar para sair. Além disso, eu não tinha com quem deixar as crianças”, diz, referindo-se aos filhos Rafael, hoje com 14 anos, e Luisa, 10.

Na época, Andrea, separada havia seis meses, optara pelo Tinder para se aventurar em um romance. Dona de uma marca de vestuário infantil, a empresária saiu direto de uma feira de roupas para ver pela primeira vez Everaldo, que também vinha do trabalho. “Combinamos de tomar uma cerveja num bar e ficamos conversando quatro horas seguidas. Rolou superbem. A impressão era de que já nos conhecíamos fazia muito tempo”, conta ela. Bastaram apenas seis meses para que fossem morar juntos.

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Andrea Gouveia e Everaldo Reys Raquel Espírito Santo/CLAUDIA

ESTABILIDADE

Os estudiosos Josue Ortega, da Universidade de Essex, na Inglaterra, e Philipp Hergovich, da Universidade de Viena, na Áustria, trazem dados curiosos sobre os sites de namoro. A pesquisa aponta algumas evidências de que casais que se conhecem online têm menos probabilidade de separação do que aqueles que adotam os caminhos tradicionais. Ou seja, os sites de paquera podem levar a uma relação estável.

Sandra Thomazinho da Cunha, 54 anos, dentista, concorda integralmente com essa tese. Ela está há 15 anos com o americano John Rogus, 64. Nunca tinha usado nenhum aplicativo para namorar até que sua psicóloga, depois de dois anos de separação, deu um empurrãozinho para que Sandra navegasse em sites de relacionamento.

A terapeuta fez uma lista de dicas. Disse que o primeiro encontro deveria ser sempre em lugar público e sugeriu que não marcasse um almoço porque, se o pretendente fosse chato, ficava mais difícil se livrar dele. Também lembrou que detalhes aparentemente dispensáveis, como conhecer virtualmente os amigos e a família do cara, auxiliam a identificar um possível charlatão.

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Na época, o aplicativo mais usado era o Par Perfeito. Foi John quem deu o primeiro passo, chamando Sandra no chat. A conversa durou alguns dias, e a dentista notou que na ficha de John estava escrito que ele era do Nordeste. Na primeira ligação, veio o estranhamento. Ela lembra rindo: “Levei um susto quando ele falou. Parecia que eu estava conversando com Henry Sobel (o rabino americano de forte sotaque, embora tenha vivido anos em São Paulo)”.

A curiosidade foi desfeita num café de shopping. John se referia à região Nordeste dos Estados Unidos, onde nasceu – ele é do estado da Pensilvânia. Já nas primeiras saídas, ele conheceu a filha de Sandra, Flávia, então com 5 anos. “Era dia de eleição e deixei a Flávia no colo do John para ir votar. Ela passou mal e vomitou na camisa branca dele”, recorda. Foi a primeira prova de amor pela menina. John se apaixonou de pronto, assumindo completamente a paternidade. Desde esse dia, Flávia, hoje com 20 anos, o chama de pai.

Sandra da Cunha e John Rogus Renata Espírito Santo/CLAUDIA

DIVERSIDADE

Para Ailton Amélio da Silva, doutor em psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP, que estuda relacionamentos amorosos há décadas, os sites de namoro e os aplicativos causaram uma verdadeira revolução nas relações. “Não existia em nossa história essa facilidade de acesso a pessoas disponíveis. Aumentou a diversidade. Nesse sentido, é maravilhoso poder potencializar as chances de localizar alguém que não se encontraria na vida real”, diz ele.

Mas, diante de tantas facilidades, o professor alerta para o fato de que nem todas as pessoas se apresentam de forma verdadeira nos aplicativos, o que pode ser perigoso. Outra questão importante para que os matches aconteçam, segundo ele, é saber se colocar já logo de início nas conversas para que os encontros não sejam decepcionantes.

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Tatit Brandão, arte-educadora e bissexual, foi casada durante dez anos com o pai de sua filha, Nana, 15. No ano passado, dois meses após o término de uma relação com uma mulher, ela resolveu entrar nos aplicativos para se distrair. Uma das primeiras candidatas a desapontou. “Ela falou por duas horas sem parar, não deixando espaço para mim, e no final do monólogo ainda quis me beijar”, conta.

Mas Tatit não desanimou. Algum tempo depois, ela se interessou pelo relato no aplicativo de Laura Bariffaldi, psicanalista de 37 anos, em que descrevia sua personalidade e preferências. “Senti que tínhamos muitas afinidades”, diz. Conversaram pelo chat durante três semanas até marcarem um cinema para se conhecerem num final de domingo. Foram assistir ao filme As Duas Irenes, de Fabio Meira. Ironicamente, cada qual se identificou com uma das protagonistas, uma mais tímida e a outra mais extrovertida. Passaram dez horas juntas para não se separarem mais. Tatit e Laura constituíram uma nova família, da qual fazem parte a filha de Tatit, Nana, e os gatos Serafin e Zé.

Lorena Bósio e Lucas Moreira Raquel Espírito Santo/CLAUDIA

Assim como Tatit, após o término de um longo relacionamento, em 2014, Lorena Baroni Bósio, editora de arte da revista CLAUDIA, 27 anos, resolveu teclar no Tinder. Lorena, que anda com dificuldade em razão de uma deficiência genética conhecida como ataxia familiar (perda do controle dos movimentos musculares voluntários, que, no caso dela, afeta as pernas), decidiu se apresentar no aplicativo exatamente como é.

Para quem se interessava por ela, enviava um vídeo de sua participação numa campanha para o Dia Internacional do Deficiente. “Minha condição nunca atrapalhou minhas relações, mas, naquele momento, senti um pouco de insegurança”, afirma. Lucas Moreira, 28 anos, designer de produtos, viu o vídeo, mostrou aos amigos e marcou o encontro.

“Minha dificuldade para andar jamais foi o foco da nossa relação. Tanto é que ele até se esquece disso e, às vezes, sai andando na frente”, diz ela, rindo. Depois de alguns meses de namoro, Lorena conheceu a família de Lucas e se encantou por ela. “A mãe dele é incrível. Eu me senti muito acolhida por todos eles.” Três anos juntos, e o sonho de Lorena de casar-se será concretizado, em mais uma demonstração de que casais que se conhecem virtualmente podem ter uma vida muito feliz. A união com Lucas está marcada para o próximo mês de outubro. Tim-tim para os noivos!

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