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As esperanças e os desafios de ser uma jovem ativista pelo clima no Brasil

Nayara Almeida, de 22 anos, entrou no ativismo inspirada em Greta Thunberg e conta a CLAUDIA sua experiência na luta contra as mudanças climáticas

Por Colaborou: Gabriela Maraccini - Atualizado em 22 abr 2020, 16h35 - Publicado em 22 abr 2020, 16h13

Quem acompanhou minimamente os noticiários no ano passado ouviu falar no nome de Greta Thunberg algumas vezes. A jovem ativista sueca de 17 anos dispensa apresentações e, como vários outros assuntos aqui no Brasil e no mundo, divide opiniões.

No entanto, é inegável que Greta inspira milhares de jovens ao redor do globo, inclusive no nosso país. Exemplo disso é a Nayara Almeida, ativista pelo clima de 22 anos.

Formada em Biologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Nayara começou a se interessar pelas pautas do meio ambiente ainda criança, ao ver o amor de seus avós por pássaros e ver o quão bem o contato com a natureza fazia a eles. Mas foi no Ensino Médio que ela passou a ter certeza do que queria fazer.

Impactada por uma palestra sobre conservação, feita por um professor da UFRJ em sua escola e que mostrava espécies que estavam correndo perigo de entrar em extinção devido às mudanças climáticas, a jovem tomou sua decisão: “Eu queria trabalhar com alguma coisa que, ao deitar no travesseiro a noite, eu tivesse a plena certeza de que fiz algo bom para o mundo”, conta ela a CLAUDIA, por telefone.

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Nessa sexta feira 13 trago uma notícia assustadora pra vocês: as mudanças climáticas já acontecem no Brasil e por falta de ação dos tomadores de decisão ela compromete vidas. E trago ainda outro info: ela mata mais que o corona vírus. No Brasil só esse ano mais de 150 pessoas MORRERAM por conta das chuvas extremas e inúmeras pessoas já ficaram desabrigadas. O #coronavirus tem 98 casos confirmados e nenhuma morte no nosso país. Precisamos falar sobre o colapso climático como a gente fala do Corona vírus, antes que seja tarde demais. #climatestrikeonline #climatestrike #grevepeloclima #coronavirus

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Durante a graduação, após estudar mais sobre mudanças climáticas e conhecer o trabalho de diferentes organizações não-governamentais (ONGs), percebeu que sua vontade não era atuar no laboratório, e, sim, estar na linha de frente da luta contra as mudanças climáticas.

Em 2018, Nayara passou a fazer parte do Engajamundo, organização de liderança jovem feita para jovens, pautada em mudanças ambientais e sociais do Brasil e do mundo. Foi lá que ela conheceu o movimento de Greta, Fridays for Future, em que a sueca e outros jovens se mobilizam todas as sextas-feiras para realizarem uma greve pelo clima. “Eu vi que ela começou isso sozinha e pensei ‘caramba, quem é essa menina?’ Fui vendo o movimento dela e pensei ‘cara, podíamos começar isso no Brasil'”, relembra.

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Foi quando ela encontrou um garoto de Juazeiro do Norte que, por meio de um grupo no WhatsApp, estava convocando jovens para participarem da greve pelo clima no dia 15 de março de 2019. Depois do ato, as pessoas que se interessaram pela causa e queriam continuar engajando jovens para as greves formaram o que hoje é chamado de Fridays for Future Brasil – ou Greve pelo Clima Brasil. O grupo seguiu convocando greves e participou, inclusive, da Greve Mundial pelo Clima, que ocorreu no dia 20 de setembro do ano passado e teve grande repercussão da mídia.

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Das cidades aos povos da floresta. Estamos acordados. É estamos prontos pra estar nas ruas dizendo que não descansaremos enquanto nossos governantes entenderem a emergência climática e pararem de negar ou fazer promessas, e começarem a agir. Os jovens e a florestas juntxs, em pé. #GreveGlobalPeloClima #20S #FridaysForFutureBrasil #ClimateStrike

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“No Rio, nós fazíamos muitos movimentos para falar com as pessoas e entender o que elas achavam sobre mudança climática e víamos que elas pensavam coisas muito surreais, que elas realmente não sabiam o que estava de fato acontecendo. Então, nosso objetivo é ir às ruas com cartazes ou ir às redes sociais e fazer com que a mensagem sobre a gravidade da mudança climática seja espalhada”, explica.

E, agora, mesmo com o isolamento social causado pela pandemia do coronavírus, Nayara e outros jovens ativistas seguem se mobilizando pelas redes sociais.

A dificuldade de ocupar espaços e a vulnerabilidade

Porém, nem tudo, no ativismo, são flores. Há ainda muitos entraves e obstáculos a serem enfrentados, principalmente por quem é jovem ativista. “Estarmos inseridos nos espaços, às vezes, é muito difícil. As pessoas falam muito que ‘o jovem é o amanhã’, que é preciso dar espaço para ele, mas onde esse espaço é dado para nós? É muito pouco ainda, apesar de nós estarmos, aos pouquinhos, conquistando esses lugares”, desabafa Nayara.

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Um desses espaços conquistados foi a Conferência da ONU sobre o Clima, a COP25, que aconteceu em Madri, na Espanha, em dezembro do ano passado. Nayara foi uma das selecionadas pelo Engajamundo para participar do evento e, apesar de ter sido uma experiência enriquecedora e que fomentou ainda mais seu ativismo, ela entende que outros jovens também precisam estar presentes nesse espaço.

“Para mim, foi uma daquelas coisas que nunca imaginamos que vamos fazer parte, porque quando olhamos para uma conferência de clima da ONU, a primeira coisa que pensamos é que quem vai falar são os homens brancos mais velhos, ou seja, pessoas extremamente privilegiadas e que, futuramente, nem vão estar aqui. Então, é preciso ter renovação nesse espaço e é estranho que a juventude e a população mais vulnerável não esteja ali fazendo parte dessas decisões”, opina a ativista.

Outra pedra no caminho do ativismo no Brasil é a vulnerabilidade que esses jovens ficam sujeitos quando mostram seus rostos nas ruas e redes sociais, dando voz a um tema que ainda é muito negado no país, principalmente pelo próprio governo.

“Se não fizermos isso [mostrar o rosto e se manifestar], as pessoas não vão saber sobre as mudanças climáticas, não vão entender o porquê de estarmos nos mobilizando e o porquê isso é necessário. E com esse novo governo, de fato, nós ficamos muito aflitos justamente por não sabermos como as pessoas vão reagir a isso e como nós vamos ser recebidos”, relata Nayara.

Esperança no futuro

Ao ser perguntada como enxerga as questões climáticas daqui alguns anos, Nayara responde que tem esperança de que os setores da sociedade, os tomadores de decisão e os empresários se unam para reduzir as emissões de gases para, assim, frear o aumento da temperatura global.

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“Há sim essa esperança, mas não podemos olhar para ela como se não olhássemos os fatos como eles são. As emissões continuam acontecendo. Se olharmos para a Amazônia, vemos que a grilagem ainda é extremamente forte, que as queimadas ainda são completamente preocupantes porque elas queimam a biodiversidade, queimam histórias e queimam processos evolutivos gigantescos”, reitera a jovem.

Para ela, é preciso continuar pressionando para que haja, de fato, a cooperação do governo, de empresários e, principalmente, a mudança de hábitos pessoais que, muitas vezes, agridem fortemente o meio ambiente.

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