Aprenda como ajudar sua filha a descontruir estereótipos do comportamento feminino

Ensinar a uma menina que sua beleza não está somente na aparência aumenta sua autoestima e contribui para a equidade de gênero

Se você tem uma filha, experimente perguntar se ela gosta do que vê no espelho. É bastante provável que a resposta seja um categórico “não”, especialmente se ela tem mais de 11 anos. De acordo com o estudo Girls’ Attitudes Survey (“Pesquisa sobre atitude das meninas”), feito no Reino Unido em 2014, 45% das garotas entre 11 e 21 anos têm vergonha da própria aparência – e nove em cada dez querem mudar algo em seu aspecto físico. Para boa parte delas, felicidade está associada a beleza e magreza.

Impossível ignorar que, ainda em 2016, os mais celebrados modelos de sucesso feminino não estão no esporte nem na ciência, tampouco na tecnologia. Ainda são as cantoras, atrizes, modelos e celebridades de internet, com pouquíssima diversidade de tipo físico, que dominam a atenção das garotas. Basta olhar alguns dos perfis online com mais seguidores no Instagram: no de Kylie Jenner, 18 anos, 48 milhões de fãs e nenhuma aptidão definida, os likes giram em torno da melhor selfie, dos truques para afinar a cintura ou aumentar os lábios.

Elas não são as únicas influenciadas. Apesar de saberem que há muitos tamanhos e formas de corpo considerados saudáveis, os pais podem cair na armadilha de criar expectativas não realistas a respeito da imagem da filha. Afinal, ela será mais feliz ao se sentir aceita. E os comportamentos que uma menina repetidamente observa em casa são tão poderosos quanto as imagens com as quais é bombardeada. Principalmente os de sua mãe. Essa interferência pode acontecer de forma sutil – se, por exemplo, a mãe vive de dieta, reclamando de gordurinhas extras ou do frizz no cabelo – ou mais escancarada – caso da mãe que alisa o cabelo da criança sem ela pedir ou passa a controlar o que ela come com rigidez. “A filha absorve o que a mãe, sua maior referência durante a infância, demonstra”, explica Maria Claudia Lordello, psicóloga da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Cabe observar que entre as adultas o nível de insatisfação com a própria imagem é extremamente alto: 96% das mulheres do mundo não se consideram bonitas, de acordo com o levantamento The Real Truth about Beauty (“A verdade sobre a beleza”), realizado pela multinacional Unilever entre 2010 e 2013.

Uma baixa na autoconfiança não é exatamente fácil de recuperar. Um estudo realizado por pesquisadores das Universidades de Harvard e da Califórnia, em parceria com a Associação Americana de Mulheres Universitárias, mostrou que, entre a infância e a adolescência, as garotas apresentam queda de 31% de autoestima, enquanto nos garotos o declínio fica em 21%. Além da aprovação da própria figura, entram no jogo o medo de não ser notada ou de não ser aceita. Falhar em algum desses itens pode ter graves consequências. “A adolescente pode ser levada à falta de vontade de realizar coisas, de se relacionar com pessoas e de resolver problemas”, alerta a psicóloga Beatriz Acampora, professora da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, e autora do livro Autoestima: Práticas para Transformar as Pessoas.

Construindo confiança
Investir no amor-próprio das meninas desde a mais tenra idade tem se mostrado tão essencial quanto prepará-las para o vestibular. “Uma relação afetiva permite que construam a noção de si mesmas e um senso de valor positivo”, ressalta Beatriz. E esse vínculo é construído lentamente, por meio do cuidado diário. “Conforme vão crescendo, vão se sentindo importantes para alguém e, posteriormente, para si próprias”, afirma Catarina Marques, pediatra, psicóloga e terapeuta familiar, de Florianópolis. Nesse processo, é fundamental manter a coerência entre o discurso e as ações. “Pais que se aceitam, que se gostam e se cuidam, encorajam e autorizam, implicitamente, seus filhos a fazer o mesmo”, considera Catarina.

Nessa fase, vale ajudar a garota a desconstruir os padrões. Uma das maneiras de conseguir isso é apontar mulheres bem-sucedidas em áreas pouco convencionais, como esportes de aventura. Ou chamar a atenção para a descoberta feita por uma cientista do sexo feminino. Também vale julgar as realizações de suas meninas por valores como competência, esforço, coragem. “Evite que os conceitos de ‘feio’ e ‘bonito’ se restrinjam apenas à estética”, sugere Maria Claudia.

À medida que crescem, as adolescentes passam a buscar referências longe da rede familiar e os amigos se tornam protagonistas. “Nessa troca, é comum querer imitar, falar igual e ter a vida de outra pessoa. No começo, isso é bom e ajuda a estruturar a personalidade”, avisa Rose Villela, psicóloga e sexóloga da Unifesp. É essencial que, nesse período, os pais respeitem o corte de cabelo radical, a forma de vestir, a nova linguagem (ainda que não concordem com eles). Permitir que ela conheça e explore diferentes estilos e personalidades é parte significativa do desenvolvimento. É claro que se pode interferir, por exemplo, se a menina apresentar insegurança, acreditando que não é magra ou bonita o suficiente, que não é tão inteligente ou que não possui as mesmas habilidades das amigas. “Vale uma conversa, na qual deve ser acentuada a importância da diferença. Cada uma tem características próprias, que devem ser identificadas e valorizadas”, aconselha Maria Claudia.

No dia a dia, essas qualidades podem ser exercitadas. “Atribua tarefas que a façam se sentir responsável e importante e que trabalhem as principais aptidões dela”, diz Denise Para Diniz, terapeuta comportamental e coordenadora do setor de gerenciamento do stress e qualidade de vida da Unifesp. Entre as funções que ela pode exercer estão calcular os gastos mensais da família, criar receitas novas para o jantar ou planejar a próxima viagem. “O estímulo para superar desafios faz uma garota se perceber capaz”, destaca Beatriz. E ainda soma pontos para que ela se sinta valorizada por suas ações e por ser quem é – não importa o gênero.
 

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