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A vida secreta dos “seguidores perfeitos” do isolamento social

Os posts no Instagram defendendo a quarentena não significam que as pessoas estejam, de fato, respeitando o isolamento

Por Colaborou: Maria Clara Serpa - Atualizado em 27 Maio 2020, 17h40 - Publicado em 27 Maio 2020, 14h30

Maria* não fala com o irmão, com quem divide sua casa, há pelo menos um mês. A briga aconteceu porque ele quebra as regras de isolamento social para visitar a namorada – ou então a recebe dentro de casa. Maria, que faz parte do grupo de risco, discorda dessas atitudes. “O pior para mim é a hipocrisia dele, que quase todos os dias posta mensagens no Instagram defendendo o isolamento e pedindo para as pessoas ficarem em casa”, conta a estudante. Seu irmão faz parte de um grupo de pessoas que cresce cada vez mais nas redes sociais, os “falsos respeitadores do isolamento social”.

Quantas pessoas você vê compartilhando mensagens como as do irmão de Maria no feed do seu Instagram? Já parou para pensar que estas mesmas pessoas podem, na verdade, não estar levando a quarentena tão a sério assim? Isso não significa, necessariamente, que elas não se importem com a situação ou desacreditam da gravidade da pandemia. Muitas delas, inclusive, mantiveram o isolamento por algum tempo, mas acabaram cedendo às tentações.

Segundo alguns especialistas, parte dessas pessoas pode estar enfrentando a “fadiga da quarentena”. Mais de dois meses depois do início das medidas de isolamento social no Brasil, fica mais difícil seguir isolado, especialmente ao ver outros países relaxando a quarentena ou presenciar certas pessoas pouco se importando com a situação. “As pessoas pensavam que, com o tempo, ficaria mais fácil ficar em casa, mas, na verdade, é justamente o oposto. As mudanças que estamos vivendo não são mudanças prazerosas, então é mais difícil mantê-las por muito tempo. Por isso muitas pessoas estão ‘afrouxando’ seus próprios parâmetros”, explicou a psicóloga Tatiany Honório Aoki, que também é professora do curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Julgamentos

João* faz parte dessa porcentagem da população. Ele relata que, em um primeiro momento, se dedicou ao isolamento e ficou em casa. Mas, como mora sozinho, foi ficando cada vez mais difícil manter-se sem contato humano. “Eu sei que todo mundo fala que a tecnologia ajuda, que podemos conversar com os amigos por vídeo, mas nada disso funcionava mais pra mim. A solidão começou a bater cada vez mais forte, até que um dia fui me encontrar com um amigo na casa dele. Como os dois estávamos em isolamento não achei que seria tão ruim, fui e voltei de carro e não entrei em contato com mais ninguém. Venho fazendo isso nos últimos finais de semana”, conta o empresário.

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Ainda que esteja saindo de casa, João continua a publicar mensagens de apoio à quarentena, como um “seguidor perfeito” das recomendações. Isso porque, em uma das primeiras vezes que saiu, publicou uma foto de duas garrafas de cerveja nos stories do Instagram e recebeu muitas respostas de amigos e familiares indignados. “Todo mundo começou a querer me dar lição de moral, falar que eu não tinha juízo ou que estava sendo egoísta. Mas a verdade é que ninguém sabe o contexto. Eu gostaria de estar cumprindo a quarentena completamente, mas chegou em um ponto que é impossível. Eu preciso de contato humano, senão vou enlouquecer”, diz.

As “novas” redes sociais

Viver no período de pandemia é complexo e a situação consegue se tornar ainda mais difícil ao presenciar essa mudança de “regras de convivência” nas redes sociais. Uma vitrine onde, antes, era quase obrigatório mostrar apenas o melhor lado da vida e tentar sempre parecer feliz, com uma vida social intensa e a vida amorosa perfeita. Hoje pede exatamente o oposto.

Westend61/Getty Images

É difícil, de uma hora para a outra, deixar de publicar aquilo que estávamos acostumados. “Apesar de serem um bom passatempo, as redes sociais podem piorar a saúde mental, especialmente nesse momento, porque mostram vidas perfeitas. Às vezes, a pessoa está tentando ao máximo seguir o isolamento, mas tem que sair de casa por algum motivo essencial, e então vê milhares de publicações julgando e mostrando a quarentena perfeita, passa a se comparar e se sentir ainda pior. Isso pode ser frustrante, por isso precisamos ter em mente que cada um tem uma maneira de lidar com esse período de sofrimento”, explica Tatiany.

O sentimento de culpa que as redes sociais causam pode chegar até àqueles que estão cumprindo o isolamento. Assistir a stories e vídeos de pessoas sendo extremamente produtivas, trabalhando mais, lendo vários livros, estudando, pode ser perigoso para a saúde mental. Aline*, que sofre com depressão há alguns anos, viu os sintomas da doença voltarem lentamente nas primeiras semanas de isolamento. “Nós não estávamos ouvindo falar tanto de autocuidado no começo. Tudo que eu via na internet eram milhares de cursos online, amigos aproveitando o tempo livre para se exercitar, trabalhando 10 horas por dia, estudando a terceira língua, e eu mal conseguia trabalhar direito. Isso foi me deixando tão culpada e me sentindo tão mal que precisei sair de casa para encontrar minha família”, conta a engenheira.

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Aline não publicou nada nas redes sociais desde então, mas alguns conhecidos ficaram sabendo que ela saiu de casa para visitar a família. Então, ela percebeu que conhecidos e amigos passaram a publicar “indiretas” e memes sobre os “furadores de quarentena”. “Cheguei a ler até um que dizia ‘visitar a família também é desrespeitar isolamento’. Era claramente para mim. Fiquei muito triste e ainda mais frustrada, me dava vergonha estar passando por aquilo. Com acompanhamento, percebi que na verdade não havia feito nada de tão errado, simplesmente mudei o meu local de isolamento porque era necessário. O problema das redes sociais é que elas não mostram o que está por trás daquela foto ou vídeo. A pessoa que você julga por estar ‘furando’ a quarentena pode estar passando por problemas de saúde física ou mental e você não sabe. É muito difícil”, diz Aline.

Futuro

Não se sabe por quanto tempo teremos que ficar isolados, mas, uma coisa é certa: ainda teremos que lidar com o coronavírus por algum tempo. Isso significa que a vida “normal” demorará a voltar – alguns especialistas até dizem que a vida nunca voltará a ser como antes – e então é necessário encarar que a saúde mental das pessoas sairá prejudicada dessa. Alguns países que estão voltando a reabrir, como a Itália, já conseguem observar danos severos no psicológico da população. Um estudo mostra que 8 em cada 10 italianos precisou buscar ajuda psicológica ou psiquiátrica durante e após o lockdown, seja devido à solidão, ao julgamento nas redes sociais ou à crise econômica.

Justin Paget/Getty Images

O mesmo deve acontecer nos outros países do mundo, por isso precisamos ficar atentos.”Já observamos uma maior procura da psicoterapia, mudanças no padrão de sono, ansiedade por não ter controle da situação e até reflexos físicos, como aumento da dor de cabeça”, conta a psicóloga Tatiany. A situação tende a piorar no pós-pandemia, já que teremos que nos adaptar a uma nova realidade, o que é difícil para o ser humano. Seria ideal que o governo se atentasse a isso e incluísse acompanhamento psicológico gratuito nas medidas pós-pandemia, como alguns países estão fazendo.

No atual momento, o isolamento social é a única maneira de controlar a proliferação do vírus. A medida é essencial e quem tem a oportunidade deve ficar em casa o máximo possível. A intenção aqui é apenas mostrar que as redes sociais não são verdade absoluta e que pessoas mostram apenas um lado de suas vidas na internet, além de que, em alguns casos, o contexto é fundamental para entender os motivos que levaram alguém a sair de casa.

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O ideal agora – além de se manter seguro na medida do possível – é seguir um dia de cada vez. Pense bem antes de discutir nas redes sociais, em qualquer uma das situações. Será que vale a pena questionar um conhecido sobre seus hábitos de isolamento se você não sabe o que está se passando na vida dele? Ou então, será que é necessário se explicar para uma pessoa que você não vê há cinco anos sobre o porquê de você estar fora de casa? Para Tatiany, não. “O questionamento e o desgaste, muito provavelmente, não gerará mudança no outro. Temos que escolher as batalhas que queremos lutar, e essa é uma batalha que já começa perdida. Nesse momento, é melhor evitar mais sofrimento”, finaliza.

*Nome foi mudado a pedido da personagem

Todas as mulheres podem (e devem) assumir postura antirracista

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