El Niño pode pesar mais sobre as mulheres: da sobrecarga à perda de renda
Eventos climáticos extremos podem ampliar a sobrecarga doméstica, reduzir a renda e agravar desigualdades que atingem mulheres de forma desproporcional
O El Niño pode mudar a rotina das mulheres. Ondas de calor, temporais, enchentes e períodos de estiagem costumam afetar o abastecimento de água e energia, a mobilidade e a oferta de alimentos, além de pressionar os preços. Essas situações também podem aumentar as tarefas domésticas e de cuidado, muitas vezes, administradas pelas mulheres.
Trabalho do cuidado, violência doméstica e falta nas escolas podem aumentar
A divisão do trabalho doméstico e dos cuidados ainda é desigual no Brasil. Em 2022, as mulheres dedicaram, em média, 21,3 horas por semana a essas atividades, enquanto os homens gastaram 11,7 horas, segundo o IBGE. Em situações extremas provocadas ou agravadas pelo El Niño, a demanda pode aumentar sem que haja uma redistribuição das tarefas.
“Se falta água e luz, alguém precisa garantir a alimentação da família. Se uma pessoa adoece durante uma onda de calor ou depois de uma enchente, alguém cuida. Se a casa alaga, alguém limpa, reorganiza a alimentação, as roupas, a rotina da família. Historicamente, esse ‘alguém’ tem sido uma mulher”, diz Aline Matulja, engenheira ambiental e membro do Comitê do Pacto Global da ONU.
Exemplo disso está nas escolas. Nas cidades afetadas por eventos extremos, o cancelamento das aulas pode ser necessário para proteger crianças e funcionários. “Quando a escola fecha, observo que são as mulheres que, na maioria das famílias, precisam reorganizar a vida e faltar ao trabalho para que a criança possa ficar em casa”, diz Aline.
Mesmo quando as aulas são mantidas, as garotas podem ser afetadas. “Meninas podem ser chamadas a ajudar mais nas tarefas domésticas e no cuidado dos meninos e idosos, comprometendo sua frequência escolar”, explica Andrée de Ridder Vieira, presidente do Instituto Supereco e coordenadora do Comitê de ESG e Sustentabilidade da OBME.
A violência contra a mulher também pode aumentar durante eventos climáticos extremos. Relatórios internacionais e estudos recentes apontam que a cada elevação de 1°C na temperatura global, há um acréscimo de quase 5% nos casos de violência por parceiros íntimos. “As mulheres ficam expostas a ambientes inseguros, insalubres e com maior possibilidade de sofrerem violência, exploração e abuso”, diz Andrée.
Consequências econômicas do El Niño na vida das mulheres
Os eventos climáticos extremos ainda são capazes de afetar a renda das mulheres. As que trabalham na agricultura familiar, na economia informal ou em atividades dependentes das condições climáticas estão entre as mais vulneráveis, segundo Ana Beatriz Prudente Alckmin, embaixadora do MeToo Brasil para mudanças climáticas e diretora de Educação da B’nai B’rith São Paulo. “Podem perder renda e ter mais dificuldade para reconstruir seus meios de subsistência.”
Desastres também dificultam o acesso a produtos de higiene menstrual e a serviços de saúde sexual e reprodutiva, sobretudo em situações de deslocamento, abrigamento ou ruptura da organização das comunidades. “O fenômeno climático pode ser o mesmo para todos, mas seus impactos não são socialmente neutros”, explica Ana.
O calor extremo e outros eventos climáticos ainda ampliam os riscos para gestantes, mulheres no pós-parto e idosas. Entre os problemas estão a insegurança alimentar, o aumento de doenças transmitidas por mosquitos e a interrupção ou dificuldade de acesso aos serviços de saúde. “Quanto mais frequentes se tornam esses eventos, menos excepcional essa situação passa a ser.”
A emergência climática torna eleva a desigualdade
A desigualdade também se aprofunda quando considerados fatores como raça, renda e local de moradia. “Uma mulher com renda, uma rede de apoio e uma casa segura vive um evento extremo de maneira muito diferente de uma mulher negra, chefe de família, moradora de uma área vulnerável e dependente da renda daquele dia”, pontua Aline.
Segundo ela, quem historicamente teve menos acesso à renda, à terra, à moradia segura e à infraestrutura também está mais exposto aos impactos da crise climática.
“A mudança climática não cria a desigualdade de gênero, mas funciona como um multiplicador dessa desigualdade. São sobretudo as mulheres que oferecem, gratuitamente, o tempo e o trabalho necessários para que a família continue funcionando”, diz Ana.
“Sem políticas de adaptação climática que incluam serviços públicos de cuidado, saúde, saneamento, proteção social e divisão equitativa das responsabilidades domésticas, a crise ambiental também aprofundará a pobreza de tempo, o esgotamento físico e emocional e a perda de autonomia econômica das mulheres”, finaliza Ana.
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