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Você já ouviu falar na síndrome do coração partido?

Ligada ao estresse, doença rara afeta principalmente mulheres no período pós-menopausa

Por Gabriela Teixeira (colaboradora) - Atualizado em 31 ago 2020, 09h46 - Publicado em 31 ago 2020, 11h00

Parece coisa de romance, mas a síndrome do coração partido, ainda que rara, é bem real. Também chamada de Cardiomiopatia de Takotsubo – nome dado pelos pesquisadores japoneses que primeiro a estudaram em 1990 –, esta condição é caracterizada por uma dilatação do ventrículo esquerdo do coração, geralmente desencadeada por uma descarga de adrenalina causada por estresse emocional ou físico muito grande, como a perda súbita de um ente querido ou outra fatalidade. Em ocasiões mais raras, a síndrome também pode ser causada por um excesso de felicidade.

Ao dilatar, o ventrículo assume um formato muito semelhante ao vaso japonês takotsubo, utilizado na pesca de polvos. Daí o nome da síndrome. Foto: Cardiopapers/Reprodução

“O coração fica fraco, não consegue bombear o sangue para o corpo e o paciente apresenta um quadro de insuficiência cardíaca”, explica a médica Salete Nacif, cardiologista do Hospital do Coração (HCor). Ela conta que, na fase aguda da síndrome, seus sintomas são muito parecidos aos de um infarto do miocárdio: fortes dores no peito, falta de ar, fraqueza generalizada. “Até mesmo as alterações em exames como eletrocardiograma e de enzimas cardíacas são semelhantes.” Como então diferenciar um quadro de Takotsubo de um infarto?

“A verdade está na ponta do cateter”, diz Evandro Tonico Mesquita, médico coordenador da Universidade do Coração da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). “É ele que mostrará se as artérias coronárias estão entupidas ou abertas e livres de lesão.” Se entupidas, trata-se de infarto. Se livres, Takotsubo. Uma vez feito o diagnóstico, Mesquita explica que é possível controlar os sintomas com remédios que possam diminuir o estresse do coração, como bloqueadores alfa e beta-adrenérgicos. “Ainda existe muita imprecisão sobre medicamentos cientificamente comprovados que possam tratar a Takotsubo. Em casos muito extremos, pode até ser preciso colocar temporariamente um suporte mecânico circulatório no coração, enquanto se espera que o órgão se recupere.”

Geralmente, os sintomas da cardiomiopatia desaparecem em poucos dias, ainda que, segundo Mesquita, em 10 ou 15% dos pacientes, a condição pode ser recorrente perante um novo gatilho. O número se aproxima dos casos de mortalidade: de acordo com registros da SBC, cerca de 10% dos pacientes acometidos pela síndrome podem vir a falecer. “Ainda existe muito a ser entendido sobre o mecanismo complexo dessa síndrome”, conta Nacif. “Não é todo mundo que leva um susto muito grande e desencadeia a cardiomiopatia. Então deve existir alguma característica genética que facilita essa resposta do coração. Mas o que faz o paciente evoluir desfavoravelmente para óbito é a falta de suporte adequado para a insuficiência cardíaca na fase aguda.”

Também é comum que as mulheres estejam mais propensas a sofrer com a síndrome. A cardiologista e presidente da regional de Campinas da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) Carla Patrícia da Silva e Prado explica que “de cada 10 pacientes com diagnóstico de Takotsubo, 9 são mulheres. Particularmente, aquelas ao redor dos 68 anos, após a menopausa.” De acordo com ela, a partir dos 50 anos, as mulheres estão cinco vezes mais propensas a sofrer com a síndrome que mulheres mais jovens e dez vezes mais que os homens, “o que sugere um fator hormonal associado.” Curiosamente, um estudo norte-americano realizado entre março e abril deste ano sobre o aumento dos casos de Takotsubo durante a pandemia da Covid-19 demonstrou que a maioria dos acometidos no contexto do coronavírus eram homens.

“Foi observado também o dobro de casos do ano anterior. Como as pessoas não estavam infectadas pela Covid, provavelmente os estresses psicoemocionais e econômicos da pandemia podem ter sido os deflagradores da condição”, diz Mesquita. Cá no Brasil, a SBC também está realizando um estudo inédito sobre a síndrome, com o objetivo de mapear a doença no país, permitindo assim uma melhora de diagnósticos, tratamentos mais eficazes e mais políticas públicas de prevenção. “Em agosto, já publicamos um registro relativo a pacientes do Rio de Janeiro. Agora estamos catalogando pacientes em múltiplos hospitais públicos e privados do Brasil inteiro. Teremos dados muito interessantes, formando um registro nacional de uma doença pouco estudada, ainda pouco entendida”, revela o médico. A previsão é que os resultados sejam publicados em 2021.

Mas e a prevenção?

Tal qual o tratamento, os meios de se prevenir da síndrome do coração partido são um tanto genéricos: ter uma alimentação saudável, fazer atividades físicas regularmente, evitar o tabagismo. “Se possível, ter cuidado na hora de levar uma notícia negativa para uma pessoa, especialmente as que são mais vulneráveis, como as mulheres no período de pós-menopausa”, orienta Mesquita.

“A procura rápida do serviço de saúde por parte dos indivíduos que apresentam os sintomas, aliado ao pronto diagnóstico médico com início imediato do tratamento pode ser a chave para o reestabelecimento das funções do órgão e um melhor prognóstico”, explica Prado. E Mesquita complementa: “Nesse período de pandemia, em que as pessoas estão com medo de ir para o hospital, é importante reforçar a importância de uma avaliação médica adequada, pois só mesmo ela pode separar um quadro de Takotsubo do quadro de infarto do miocárdio.”

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