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Luiza Trajano: “Só com a sociedade civil organizada teremos mudanças”

Para CLAUDIA, a executiva fala sobre a energia que destina para o autocuidado, o convívio com a família e a missão de fazer política de forma coletiva

Por Ana Carolina Pinheiro Atualizado em 18 dez 2020, 11h01 - Publicado em 18 dez 2020, 09h00

No dia 5 de outubro, quando seria sabatinada pelos jornalistas do Roda Viva, na TV Cultura, Luiza Helena Trajano, 69 anos, presidente do conselho do Magazine Luiza e do Grupo Mulheres do Brasil, recorreu a um hábito criado há 29 anos para se concentrar melhor. Em um bilhete destinado a si mesma, anotou: “Me dê a capacidade de me comunicar bem, as palavras certas para explicar o que sou”. Embora não tenha periodicidade certa, o ritual é sagrado antes de situações em que Luiza se sente bruscamente exposta. “Não sigo uma religião, mas busco me conectar com o espiritual por meio da escrita, como se estivesse escrevendo uma entrega ou oração”, diz, mostrando um dos papéis para a câmera do computador, durante a conversa com CLAUDIA, realizada de sua casa. Acostumada a dar palestras e entrevistas em grandes eventos, preparar falas previamente é algo desnecessário para ela, que preza a espontaneidade.

Ainda assim, o Roda Viva teve um peso diferente. Em 18 de setembro deste ano, a rede varejista criada pela tia de Luiza e comandada hoje por seu filho anunciou um inédito programa de trainee apenas para candidatos negros. Celebrada por uma parcela da população, pelo movimento negro e outras figuras públicas, a decisão também foi alvo de críticas. Mesmo sem fundamento, a medida foi acusada de inconstitucional e de reproduzir racismo reverso, termo cunhado por negacionistas para descaracterizar a garantia prevista em lei de políticas afirmativas para erradicar desigualdades como a racial.

A polêmica fez Luiza se recordar do próprio despertar para a causa antirracista, que se deu em uma reunião de comitê de um banco, quando notou que todos ali eram brancos. “É algo que me emociona até agora. É duro descobrir em você o racismo estrutural. Sempre buscávamos ter mais negros no trainee, mas nunca conseguíamos. Desta vez, consultaram várias associações, inclusive jurídicas, e lançaram o processo. Não fui eu que criei”, diz sobre a ação, viabilizada pela parceria da empresa com a 99jobs e consultorias de organizações, como Indique uma Preta, Goldenberg, Instituto Identidades do Brasil (ID_BR), Faculdade Zumbi dos Palmares e o comitê de igualdade racial do Mulheres do Brasil.

“Nos primeiros dias, foi muita paulada; depois, veio um conforto. Quebramos um paradigma e pagamos um preço por isso. Aprendemos muito”, afirma. Para proporcionar um ambiente seguro e de potencialização aos 20 profissionais selecionados, Luiza fez questão de assegurar que haveria investimento na educação dos demais funcionários para aumentar o nível de consciência em relação aos rombos sociais deixados pelo racismo.

Aprendi desde muito cedo que a solução está comigo, não adianta buscar culpados

Luiza Helena Trajano

Cercada por uma bancada exclusivamente feminina de entrevistadoras, Luiza ainda teve que responder no Roda Viva sobre outra questão que a envolveu neste ano: a possível intenção do Magazine Luiza de comprar os Correios. Sem se abalar, ela respondeu que a empresa possui capital aberto. Logo, não poderia compartilhar esses interesses nem qualquer negociação. Ainda falou sobre a taxação de grandes fortunas, defendendo um modelo estruturado e acompanhado de incentivos fiscais para garantir uma real distribuição de renda.

Esta última questão entrou em pauta devido a um status conferido a Luiza pela revista Forbes. Ela seria a mulher mais rica do país, com patrimônio estimado em 24 bilhões de reais. Com o desemprego batendo o recorde – são 13,8 milhões de pessoas desocupadas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de setembro deste ano –, os bilionários brasileiros viram o patrimônio deles inflar ainda mais. Um levantamento da ONG Oxfam revelou que, de março a julho de 2020, os 42 bilionários do país apresentaram um salto em suas contas, passando de 123,1 bilhões para 157,1 bilhões de dólares.

“Quando vi, me assustei. Primeiro, porque nunca pensei em conquistar esse título. Depois, mais importante, porque não tenho tudo isso. O dinheiro, para mim, não é fim, mas meio”, afirma Luiza, acrescentando que não se sentiu culpada nem considerou um peso a definição da publicação. O cenário que ela enxerga – e que lhe garante essa segurança – é o fato de ter estancado as demissões de funcionários do Magalu durante a pandemia, assim como a imersão que fez nas demandas das pequenas empresas que trabalham com a gigante na tentativa de reduzir os impactos da recessão no segmento. Em parceria com o Sebrae, a rede varejista criou uma plataforma para pequenas e médias empresas usarem o marketplace da rede de varejo e incrementarem as vendas.

“Considero um ato de coragem ter ido e conseguido mostrar quem eu sou; não só a presidente do conselho do Magazine, uma mulher poderosa, mas a Luiza, que é ser humano, erra e acerta. Nunca meto o pau nos outros, mas tenho meu ponto de vista e não deixei de responder nada. Desde muito cedo, entendi que a solução está comigo, não adianta buscar culpados”, pontua a respeito do Roda Viva.

A inteligência emocional de Luiza, herdada da mãe, dona Jacira Trajano, que faleceu muito jovem, é trabalhada de acordo com a necessidade. “Eu precisava fazer terapia quando era menina, hoje não mais”, explica. Para ela, que é filha única, o isolamento nunca foi sinônimo de solidão e estagnação. “Sento aqui às 8 horas da manhã e tem dia que vou até as 10 da noite. Fiz mais de 400 lives, 80 entrevistas entre rádio, TV e podcast. Foi tanta coisa que o tempo passou. Resolvi me reinventar, aprender, entrei em todos esses processos de tecnologia; foi uma luta danada”, revela.

Seu empenho em migrar para o cenário digital é reconhecido pela empresária Chieko Aoki, que é amiga de Luiza. “Quando ela gosta de alguma coisa, leva para os amigos e familiares. Ela me mandou um jogo de luzes para fazer chamadas de vídeos”, lembra, rindo. Antes de estacionar em frente às telas, Luiza se dedica ao cuidado do corpo e da mente com a prática de ginástica e pilates.

Luiza Helena Trajano
Ilustrações: @drawingzila. Foto: Larissa Isis/CLAUDIA

Saúde – a dela e a dos seus entes queridos – é uma coisa que realmente preocupa Luiza. O novo coronavírus infectou pessoas próximas, levando-a a perder o pouco sono que tem. “Graças a Deus, não morreu ninguém da minha família, mas alguns tiveram que ir para o hospital. Não foi fácil. Um amigo, menino forte, ficou cinco dias internado”, lamenta. Respeitando as medidas sanitárias e passando por testes frequentes, a família Trajano organizou um rodízio para visitar a matriarca, tia Luiza, fundadora da rede varejista, que se encontra aos cuidados da sobrinha. “Hoje, ela está com um pouco de demência, coisa que apareceu da noite para o dia. Ela não reconhece ninguém”, diz Luiza Helena, que ganhou o nome em homenagem à tia, que não teve filhos.

Antes da doença, a tia Luiza fazia questão de passear pelas lojas de Franca e conversar com os funcionários. “Como ela não gosta de usar máscara, redobramos os cuidados. O gênio forte continua, sempre foi mandona”, conta Luiza, referindo-se à característica que também atribui a si mesma. Além de partilhar a paixão pelo empreendedorismo, as duas construíram uma relação de mãe e filha.

As economias da tia Luiza e do marido, Pelegrino Donato, foram suficientes para, em 1957, eles conquistarem o próprio negócio, a loja de “presentes finos” e vidraçaria A Cristaleira. Desde o início do empreendimento, a empresária pretendia dar oportunidade de emprego para toda a família e fazia questão de estar perto dos clientes. Até descarregava produtos do caminhão. “Mesmo sem saber o que era racismo estrutural, naquela época ela já questionava o fato de não haver negros trabalhando nas lojas. Era impressionante. Aprendi muita coisa com ela, principalmente que honestidade nunca foi símbolo de vantagem, mas, sim, uma obrigação”, orgulha-se Luiza. Com esses valores, A Cristaleira se expandiu e ganhou novos endereços, para além das ruas de Franca, tornando-se o consolidado Magazine Luiza. O nome foi decidido em um concurso com a participação dos clientes.

Duas paixões

Aos 12 anos, Luiza começou a trabalhar na loja da família para ganhar o próprio dinheiro. Queria comprar presentes de Natal para todos. A conexão com as vendas foi imediata. Com sua fala simples e envolvente, ela carrega a bagagem de vendedora até hoje para emplacar ideias. Lapidou o tino do comando nas faculdades de administração, que acredita ser uma preparação necessária, independentemente da área de atuação, e de direito, ambas concluídas no final da década de 1960. Durante os estudos, conheceu Erasmo Fernandes Rodrigues, com quem se casou em 1974, depois de oito anos de namoro. O primogênito, Frederico, nasceu dois anos depois do enlace – na mesma época, Luiza se tornou sócia da empresa dos tios. Em seguida, vieram Ana Luiza e a caçula, Luciana.

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É complicado para uma mulher conseguir tudo isso se não tiver apoio em casa. Meu marido sempre vibrou pelo meu sucesso

Luiza Helena Trajano
Luiza Helena Trajano
Ilustrações: @drawingzila. Foto: Larissa Isis/CLAUDIA

O marido de Luiza também era empreendedor, mas do segmento de postos de gasolina. Os dois nunca cogitaram uma fusão do pessoal com o profissional. Essa era uma preocupação da família Trajano, que acordou, com anuência de todos os membros, que nenhum agregado pode trabalhar na empresa. Mesmo assim, a ascensão meteórica da esposa não foi vista como uma ameaça pelo companheiro, algo que Luiza considera como crucial para o seu crescimento. “É muito complicado para uma mulher conseguir tudo isso se não tiver apoio em casa. Meu marido nunca competiu comigo, sempre vibrou pelo meu sucesso”, lembra.

A parceria terminou repentinamente, em fevereiro de 2009. Após uma festa, Erasmo, Luiza e os filhos chegaram em casa e decidiram entrar na piscina. O empresário foi ao banheiro, passou mal e faleceu. “Do que mais senti falta, além de estar junto, foi de compartilhar a criação dos filhos, porque é a única pessoa que divide com você a responsabilidade. Eu sempre falo: ‘Mesmo que o parceiro não preste para nada e você não goste dele, torça para estar vivo porque pelo menos terá alguém com quem desabafar’ ”, conta.

Tempos depois, Luiza ofereceu sua empatia a Chieko, que também viveu o luto. As duas se conheceram em 2005, em um encontro de executivos – Chieko é presidente da rede Blue Tree Hotel –, e acabaram criando um laço de amizade. “Ela tem um jeito afetivo e trata todo mundo como se fosse um amigo de infância”, define. O marido de Chieko morreu em 2012, quando morava no Japão. Foi cremado lá, mas foi realizada uma missa em homenagem a ele aqui no Brasil. “Os japoneses têm o costume de ajudar no funeral entregando um envelope com dinheiro durante a cerimônia. Como Luiza sabia que eu não queria aceitar, ficou o tempo todo na porta agradecendo e negando as ofertas. Sabe essas coisas que você nem espera?”, conta a executiva.

A perda as aproximou ainda mais, e Chieko ganhou um quarto na casa de Trajano. “É quase um casamento. Cada uma tem seu ponto de vista, só que conversamos, não discutimos. A presença é um conforto, mas respeitamos nossos limites”, explica Chieko. Ela brinca que o segredo para lidar tão bem com a relação vem dos anos de convivência com o marido, que era virginiano, como Luiza.

Entre os filhos, é forte a lembrança da mãe equilibrando a vida pessoal com a profissional. Os três cresceram entre os funcionários e se acostumaram com o ritmo acelerado da empresa. “Mesmo com tantos compromissos, minha mãe buscava a gente na escola e almoçávamos todos juntos em casa. No interior, tem uma comunidade que se apoia; então não sentíamos a ausência dela”, conta Ana Luiza, que morou com os pais até os 15 anos, quando se mudou para estudar fora.

Ana, que atualmente é chef de cozinha e está na França, conta que a mãe cobrava, na educação deles, ter compromissos com tudo o que assumiam para conquistar segurança e liberdade em suas carreiras posteriormente. Já os netos Rafael, Pedro, Enrico, Antoine, Maya e Benjamim curtem uma versão mais descontraída da avó Luiza. “Poucas pessoas conhecem seu lado aventureiro. Ela anda de jet ski muito bem, pilota barco e lancha, é uma amante dos esportes náuticos”, revela Ana Luiza.

Frederico foi o único filho a ingressar na linha de sucessão dos negócios da família. “Nunca falei pro Fred trabalhar no Magazine Luiza. Não tinha essa expectativa, principalmente por ele ter construído uma carreira de oito anos fora da empresa. Só que, em 2001, ele quis mudar o site e, agora, já tem quatro anos que está na presidência”, explica Luiza, que desde então passou a construir outra relação com o filho, a de parceiros de trabalho. “A gente sempre procurou manter a empresa profissional, mesmo sendo familiar. Não é fácil. Entramos em confronto, mas não levamos para o pessoal”, define ela, que tem um combinado de nunca dormir “de mal” com o filho.

Poder em mãos

Em 2014, durante uma entrevista a Marília Gabriela, a executiva rebateu a afirmação de que havia certa meiguice em seu comportamento. “Sou muito brava, firme e não abro mão dos meus ideais”, afirmou. Mesmo hoje, analisando sua trajetória, ela acredita que essa forma orgânica de se expressar serviu como proteção ao silenciamento e a outros desdobramentos do machismo, tão presentes na sua vivência profissional, isolada do ponto de vista de gênero. “Detecto rapidamente essas situações, mas claro que enfrentei preconceito, ainda mais quando era jovem e tinha que me impor. Garanto, porém, que não tive nenhum problema grave”, afirma.

Da experiência como vendedora à liderança corporativa, o sotaque e a escolha simples e assertiva das palavras entraram em um processo natural de lapidação. “Eu tenho uma intenção, mas comunicação não é o que eu falo, e sim o que o outro entende. Trabalhei com todo tipo de cliente e aprendi a ter empatia. Fui aceitando o feedback para evoluir. Até hoje pergunto o que posso fazer melhor”, diz, explicando que é um processo contínuo.

Mesmo com vivências distintas, a sensibilidade de Luiza para com o próximo é sempre aguçada. Rejane Santos, líder comunitária de Paraisópolis, segunda maior comunidade de São Paulo, conhece bem o assistencialismo na periferia e sabe que muita gente chega com vontade de ajudar, mas some pouco tempo depois. No primeiro encontro com Luiza, a ideia utópica de resolução de todos os problemas passou longe. “Já vi articulações com empresários e organizações que mereciam ser esquecidas, mas outras são eternas, como a que tivemos com Luiza. Ela quer buscar a solução junto. Não é de fora pra dentro, mas de dentro pra fora”, diz Rejane, que, em 2013, recebeu da executiva um convite para participar de um encontro de lideranças femininas com a então presidente do Brasil, Dilma Rousseff.

O evento, que incluiu mais 39 profissionais das áreas de direito, mercado financeiro e educação, entre outras, marcou a fundação do Grupo Mulheres do Brasil, rede suprapartidária que tem como foco o protagonismo feminino na construção de um país melhor. Para Rejane, integrar esse coletivo, que articula força entre os três poderes, empresas e a sociedade, assegurando direitos e potencializando oportunidades, é uma forma de demarcar as multiplicidades de existências. “Garantir o espaço de fala é afirmar que toda a comunidade é pertencente. A minha participação mostra que outras mulheres podem romper estigmas. Nem tudo é dinheiro, as relações também são muito valiosas, e Luiza tem me proporcionado isso de forma ímpar”, aponta. No momento, já são mais de 72 mil mulheres que atuam em 19 frentes, como políticas públicas, empreendedorismo, sustentabilidade, igualdade racial e de pessoas com deficiência.

Nas recentes eleições municipais, o grupo reuniu candidatas a vereadoras e prefeitas que assumissem o compromisso com a saúde e a educação, além do combate à violência contra a mulher e a luta contra discriminações. “Mulheres podem ser políticas, sim; precisam de nós para mudar o que está aí”, defende a empresária, que foge dos rótulos de esquerda e direita. Para o próximo ano, Luiza espera transformações. “Meu desejo é ver o SUS, que é o maior sistema político de saúde do mundo, funcionando plenamente”, aponta.

No início deste mês, ela organizou um fórum com o Grupo Mulheres do Brasil para valorizar, reconhecer e defender o SUS diante da sociedade. Sobre se aventurar na política, a executiva comenta: “Não falo dessa água não bebo porque tenho medo, mas nunca achei que eu poderia fazer a diferença sozinha. Acredito que, só com a sociedade civil organizada, conseguiremos ter mudanças”. Sem cogitar uma pausa na trajetória profissional e social, Luiza estimula a esperança por dias melhores com uma condição: que o plano de mudar seja prático, com mangas arregaçadas, e não fique apenas no campo da inspiração.

  • O que falta para termos mais mulheres eleitas na política

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