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“Não é sobre máscara, é racismo”, diz Ana Paula, delegada expulsa da Zara

Segundo investigações, funcionários eram orientados a alertar sobre presença de pessoas negras ou com 'roupas simples' no estabelecimento

Por Ana Carolina Pinheiro Atualizado em 21 out 2021, 14h56 - Publicado em 20 out 2021, 20h07

Após uma denúncia de racismo na loja de departamento Zara, em Fortaleza, um código secreto foi descoberto pela Polícia Civil do Ceará. A orientação do código era para que funcionários ficassem atentos às pessoas negras ou com roupas “simples” dentro do estabelecimento no Shopping Iguatemi.

A divulgação da perseguição aos clientes, infelizmente comum na rotina de pessoas negras, tornou-se ainda mais alarmante pelo modo sistematizado em que era executada.

A investigação foi realizada a partir do episódio sofrido pela delegada Ana Paula Barroso no dia 14 de setembro. A vítima, que é negra, estava com a máscara abaixada, tomando sorvete, e foi impedida de entrar na loja pelo gerente Bruno Felipe Simões, que foi indiciado pelo crime de racismo.

“Nas imagens, dá pra ver um festival de pessoas brancas sem máscara. Mas jogo a pergunta para os negacionistas do racismo, por que só eu, uma mulher negra, sou expulsa da loja?”, diz a delegada em entrevista a CLAUDIA.

Por meio do código “Zara Zerou”, os funcionários eram orientados a seguir os clientes dentro dos critérios segregadores da loja. Segundo o delegado-geral da Polícia Civil do Ceará, Sérgio Pereira, o ocorrido não é novidade no estabelecimento, inclusive em unidades fora do país.

“Testemunhas que trabalharam no local alegam que eram orientadas a identificar essas pessoas com estereótipos fora do padrão da loja. A partir dali, ela era tratada como uma pessoa nociva, que deveria ser acompanhada de perto. Isso geralmente ocorria com pessoas com roupas mais simplórias e ‘pessoas de cor'”, disse a autoridade para o UOL.

A delegada Arlete Silveira, diretora do Departamento de Defesa de Grupos Vulneráveis, informou que uma pessoa vista pela loja como “fora do perfil de seus consumidores” era “como se deixasse de ser uma consumidora e se tornasse suspeita.”

“A única coisa que me colocava em situação de suspeita, na visão deles, era a minha cor. E ainda tem quem diga que essa distinção gritante de tratamento é mimimi”, questiona Ana Paula. Segundo ela, a cautela foi a responsável por não dar voz de prisão no momento em que foi abordada pelo gerente.

Zara
Loja da Zara em Madrid, na Espanha. Foto: Cristina Arias/Getty Images

Bruno informou a Ana Paula que a proibição para entrada na loja era por “questão de segurança” do shopping. Pelas câmeras do shopping, é possível ver que a máscara de Ana Paula só ficou abaixada enquanto ela tomava o sorvete.

“Eu não tinha elementos para comparar o atendimento dado a uma pessoa branca, por isso me retirei e fui pedir informação aos seguranças”, lembra a vítima, que no dia seguinte descobriu que uma colega de trabalho branca entrou na mesma loja comendo e não foi abordada em nenhum momento.

Para Ana Paula, os profissionais do shopping informaram que não havia nenhuma orientação de barrar clientes sem a máscara enquanto se alimentavam. Quando repetiram a mesma informação ao gerente, Bruno se desculpou com Ana, alegando que não era racista e “que tinha até amigos negros e homossexuais.”

Como diz a música, ‘paz sem voz não é paz é medo’. E esse medo vivenciei quando precisei me expor para fugir da impunidade, o que desgasta a minha saúde mental, mas vou resistir

Ana Paula Barroso
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Após diversos pedidos para ter acesso às câmeras da loja, a Zara atendeu ao mandado judicial e disponibilizou a movimentação do espaço dos dias que antecederam e sucederam o caso envolvendo Ana Paula.

“Ironicamente, uma moça branca sem máscara foi atendida pelo gerente no mesmo dia que entrei na loja”, comenta a delegada, que é diretora-adjunta do Departamento de Defesa de Grupos Vulneráveis.

“Há um desgaste com tudo isso, mas também vejo como um propósito de ser com uma diretora negra que luta pela criação da primeira delegacia no Ceará voltada para os crimes de motivação racial, de intolerância religiosa e contra grupos LGBTQIA+. De certa forma, isso mostra a importância do nosso trabalho, só que também tem um preço alto porque é a minha exposição. Precisei passar por cima de feridas, mas não podia me calar a partir do momento que nos descredibilizam”, ressalta.

O caso do George Floyd e do homem negro agredido no metrô de SP, infelizmente, mostram que situações revolucionárias acontecem depois de episódios de violência escancarada.

Ana Paula Barroso

Na visão da delegada, o caso aponta a necessidade de ações com lojistas e shoppings para que esse tipo de política nociva de atendimento seja revista. “A polícia trabalha de forma integrativa e informativa. Por mais que um funcionário esteja atrelado a normas da empresa, ele pode responder criminalmente por cometer o ato. A loja também é responsável pela ação dos seus representantes”, explica Ana.

Racismo x Injúria Racial

O sociólogo Tadeu Augusto Matheus, que também é coordenador executivo da Universidade Livre de Sociologia e Comunicação Afro-brasileira (UNAFRO) e da Nova Frente Negra Brasileira e membro do grupo de Estudos Latino Americano sobre Cultura e Comunicação da USP, defende que o caso mostra o perigo da ausência de políticas públicas.

“Assim como a delegada, mulheres e homens negros são vítimas desse racismo estrutural, porque não há nenhum tipo de projeto que possa desconstruir esse olhar totalmente opressor”, pontua para CLAUDIA.

O escritor também ressalta a importância da tipificação do crime como racismo e não injúria racial. Previsto na Lei n. 7.716/1989, o racismo é caracterizado por uma ofensa coletiva, nesse caso contra a população negra como um todo, e é inafiançável e imprescritível.

“Quando o crime é enquadrado como injúria, a pessoa paga uma multa de mil reais, é solta e continua praticando o racismo. Como diz a intelectual Cida Bento, o pacto narcísico dos brancos garante que eles saiam ilesos das investigações”, afirma Tadeu, que entende o mecanismo como uma “válvula de escape da lei”.

O sociólogo ainda defende que a Justiça seja comprometida com a apuração dos casos independente do status e grau de instrução da vítima. “A delegada Ana Paula Barroso tinha embasamento técnico para identificar a tipificação do crime, mas pessoas que não atuam nessa área podem ter mais dificuldade para garantir o seu direito. O papel das autoridades é garantir essa proteção e, consequentemente, aumentar o debate na sociedade”, conclui o mestrando em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo (USP).

Posicionamento da Zara

Por meio de uma nota enviada ao UOL, a Zara informou que “o decreto governamental em vigor estabelece a obrigatoriedade do uso de máscaras em ambientes públicos. Qualquer outra interpretação não somente se afasta da realidade como também não reflete a política da empresa (….) Zara é uma empresa que não tolera nenhum tipo de discriminação e para a qual a diversidade, a multiculturalidade e o respeito são valores inerentes e inseparáveis da cultura corporativa. A Zara rechaça qualquer forma de racismo, que deve ser combatido com a máxima seriedade em todos os aspectos.”

Para Ana Paula, a questão “nunca foi sobre máscara, sempre foi racismo. Isso ficou provado com a revelação do código ‘Zara Zerou’. O racismo pode ser sutil e sorrateiro, mas não deixa de ser um ato discriminatório e preconceituoso. O que está em jogo são pessoas que foram, são e ainda vão ser vítimas do racismo. Infelizmente é uma conduta que não conseguimos erradicar, mas, a partir do momento que a discussão é fomentada, ajudamos pessoas menos esclarecidas a se proteger das violações”, conclui.

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