Voto de silêncio

Às vezes, parar de falar pode ser bom para sossegar a mente. Nossa colunista Liliane Prata conta como foi fechar a boca por 12 horas

No início do ano, a amiga de uma amiga estava passando por um período de muito estresse quando ouviu falar de um retiro de silêncio. A ideia de ficar calada por três dias em um sítio acompanhada por desconhecidos que também queriam ficar calados por três dias em um sítio teria lhe soado estranha em qualquer outro momento de sua vida – mas, naquela fase agitada, a proposta caiu como um bálsamo. E lá foi ela dar um tempo de São Paulo e das palavras. Na volta, garantiu à minha amiga: “Fiquei tão aliviada com aquela paz que, em determinado momento, chorei de alegria e de alívio”.

Semana passada, participando de uma feira literária em Búzios, voltei a ouvir falar do silêncio voluntário: agora era uma escritora me contando que, quando criança, observava o voto de silêncio das tias no interior de Minas – um dia por mês, elas decidiam guardar os pensamentos para si e não trocar ideias com o restante da família. “Eu achava aquilo tão bonito, minhas tias lavando roupa, cozinhando e às vezes tomando café e olhando da janela, recolhidas dentro delas mesmas”.

Dei um Google. Segundo a Wikipedia, Pitágoras costumava impor uma estrita regra de silêncio aos seus discípulos. Diversas ordens, como os beneditinos, mantinham o chamado voto de silêncio entre as regras essenciais. Resolvi experimentar. Eu não estava passando por uma fase especialmente estressante, mas fiquei curiosa para viver a experiência da mudez voluntária.

Voltei para São Paulo em uma quarta-feira e resolvi que domingo seria o dia ideal, já que aos sábados eu sempre faço muita coisa e, no meio de semana, trabalho na redação de CLAUDIA e minhas chefes – e colegas, e assessores de imprensa que mandam e-mails, e os entrevistados do dia – não caberiam muito harmoniosamente nos meus planos de ficar sem falar. Ainda mais que o meu voto incluiria WhatsApp e e-mail. Afinal, pensei: a tradição seguida pelos beneditinos não combinava com responder mensagens de 10 em 10 minutos. Hmmm, além disso, à noite, eu queria pedir uma pizza com meu marido e fazer comentários sobre o episódio a que assistiríamos de Mad Men. Resolvido: eu deixaria o celular desligado durante meu voto de silêncio – e o encerraria a tempo de jantar pizza e ver Mad Men.

No sábado, avisei meu marido e minha filha, de quatro anos, que eu iria experimentar essa prática no dia seguinte. Ele entendeu sem maiores questionamentos. A maior preocupação dela foi se eu estaria apta a “dar beijinho e fazer brigadeiro”.

Apesar de ansiedade não combinar com votos de silêncio, acho que fiquei ansiosa, porque de sábado para domingo sonhei que, sem querer, eu tinha falado no dia “proibido”. Acordei meio passada com meu sonho: puxa vida, que escarcéu do meu inconsciente por apenas doze horas sem falar. Quando eu morava sozinha, já devo ter passado várias horas seguidas sem falar, não? 

Na verdade, não. Sempre gostei de ficar sozinha, mas, cá entre nós, gosto tanto que falo sozinha. Se não tem ningiém em casa, já começo a pensar em voz alta. Se tem gente, entre um momento recolhido e outro, converso. Então, para mim, aquela seria uma experiência bem nova.

Começar meu domingo em silêncio foi agradável. E o que dizer da vida off-line? O que dizer de não ter nenhuma das minhas ações interrompidas pelo apito do celular? Estava tão tranquilo ficar sem falar e sem usar a internet que resolvi fazer aquele voto todo domingo. E, além disso, eu juntaria o voto com um pouco de meditações com visualizações e outras meditações focadas na respiração. E, além disso, eu aproveitaria para refletir sobre as coisas que eu precisaria fazer ao longo da semana e, além disso… “Calma, Liliane, você está há apenas uma hora sem falar”, eu pensei. Eu não queria fazer planos, nem julgar a experiência de cinco em cinco minutos, nem elaborar descrições mentais a todo o instante.

De que adianta o silêncio da boca se a mente está super barulhenta? O voto só faz sentido se o silêncio servir como ponto de partida para uma interiorização, uma paz mental, seja agachada, meditando, seja dando um beijo ou fazendo brigadeiro. Vou sossegar, pensei.

E sosseguei, mesmo. Foi estranho segurar minha filha sem falar nada quando ela escorregou no Pão de Açúcar, assim como foi esquisito ficar muda enquanto meu marido e ela falavam sem parar na fila para o caixa, mas enfim, nada de mais. Almocei calada, fiz o brigadeiro calada. Normalmente, comento sozinha, na cozinha: “Hmm, o ponto não tá bom”, “Nooossa, que quente”, “Puutz, que delícia”. Foi diferente só mexer e sentir o cheirinho doce. Aproveitei a tarde para ler bastante e passar vários momentos tomando chá sentada, sem fazer nada e sem interromper meu nada de tempos em tempos para checar o Facebook – foi bem interessante me sentir em, digamos, 2002 de novo. Várias vezes, surpreendi minha mente quietinha, sem pensar, depois do entusiasmo do início do dia, coitada. Mas nem sei se tinha sido efeito da bronca que ela tinha levado de mim pela manhã. Parece que o silêncio da boca acabou dando uma aquietada na cabeça, mesmo. Também aproveitei para me sentar e fazer a meditação tradicional, com foco na respiração, e isso ajudou o processo.

Faltando uma hora para o meu silêncio acabar, me peguei antecipando as conclusões da experiência. Eu tinha prestado muito mais atenção às frases do meu marido e da minha filha, já que eu não iria completá-las ou fazer adendos nem nada. Também reparei mais na qualidade, digamos, do que eu pensava – que tipo de imagens, lembranças e planos invadiam minha mente como “pano de fundo” quando ela estava mais tranquila. E, a melhor parte – tive muitas ideias. Sem fazer esforço algum: elas simplesmente aproveitaram o silêncio para aparecer.

“Liliane, para de concluir, só fica em silêncio, isso”, pensei na minha última horinha. E então desfrutei o fim da experiência com a técnica do mindfulness – só prestando atenção ao meu entorno, sem julgamentos do tipo “Gosto/não gosto, quero/não quero”. Sempre descanso bastante quando consigo usar essa técnica, em silêncio ou não.   

Oito da noite: fim da experiência. Abri a boca para falar “Boa noite, filha!” e achei fofo quando ela disse que tinha sentido falta da minha voz. Depois que ela dormiu, liguei o celular: 129 mensagens no WhatsApp. Ignorei os grupos que sempre ignoro e mandei áudios felizes para as outras pessoas e grupos. Daí eu e o meu marido pedimos pizza e fui ver o episódio de Mad Men tão feliz por poder falar que acabei nem falando muito. No fim, senti que descansei mais naquele domingo do que nos meus domingos normais. Da próxima vez que me sentir exausta, não sei se vou fazer outro voto de silêncio, mas acho que vou simplesmente tentar parar de falar um pouquinho. Aliás, estejamos cansados ou não, é um hábito bem saudável, este: falar um pouco menos, ouvir e refletir um pouco mais. Se der para comer brigadeiro nos intervalos, melhor ainda.

Liliane Prata é editora de CLAUDIA e escreve esta coluna aqui no site toda quarta-feira. Clique aqui para falar com ela!