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O que querem os idosos?

A resposta para esta pergunta pode nos ajudar a envelhecer melhor. Após passar vinte e quatro horas com idosos em um residencial e outras nove em um centro-dia, nossa editora de comportamento Patrícia Zaidan mostra que a terceira idade está sem voz e sem visibilidade no país

Por Patrícia Zaidan Atualizado em 28 out 2016, 09h15 - Publicado em 21 out 2015, 13h29

Em uma festa agitada em São Paulo – dessas que amanhecem com o néon iluminando a pista, energéticos, DJs e música contagiante –, uma mulher atravessa o corredor de gente que está fumando na área lateral, ao ar livre, única passagem para se chegar ao banheiro. Ela pede licença, vai abrindo caminho no mar de pessoas. Madura, 58 anos, adora dançar. Tem espírito alternativo, estética hipster, braços tatuados. Mas eles estão cobertos pela manga longa da blusa de seda que lhe dá um ar chique e eleva a sua idade à beira dos 65. Uma garota se espanta com a estranha no ninho e dispara, alto, a sua surpresa: “Olha, uma senhorinha!!!!!” O corredor polonês se concentra naquela figura como se ela fosse um macaco raro pulando fora do galho. Só falta atirarem pipocas. Como assim? Por que essa mulher deveria estar em casa jogando baralho com seus iguais?

O Brasil não conhece seus velhos. Não sabe que são 26,3 milhões (13% da população), que muitos ainda trabalham, vivem mais (hoje, 75,4 anos, em média; em 2000, 69,8), detêm 20% do poder de compra (ante 5% registrados há duas décadas), com 30% deles gastando além do que despendiam antes da aposentadoria. Mas é o idoso o último a opinar sobre qualquer assunto, na família e na sociedade. Essa falta de direito de se expressar fica evidente na reportagem que leva CLAUDIA a uma dupla jornada: nove horas no Centro Público de Atendimento ao Idoso, em Jundiaí (SP), serviço que cuida dos velhos enquanto suas famílias trabalham; e outra, de 24 horas, no Lar Sant’Ana, no Alto de Pinheiros, na capital paulista, onde a mensalidade varia de 11,5 mil reais a 14 mil reais. As duas estruturas figuram como oásis: a região de Jundiaí tem 52 mil cidadãos com mais de 60 anos para as 30 vagas desse único centro-dia. No Lar, da Liga Solidária, vivem 97 pessoas em confortáveis apartamentos; e elas praticam atividades físicas e de desenvolvimento da autonomia. No nosso enorme país, residenciais como esse ou com menor requinte não passam muito de mil. Chamados Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI), eles baniram do vocabulário o assombroso termo asilo. Mas são moradias coletivas.

A decisão de ir para um local assim quase nunca é baseada no desejo pessoal. “Vim porque é melhor para os meus filhos. Não achava justo preocupá-los”, diz Cecília Penteado Cardoso de Almeida, 96 anos, quatro filhos, ocupante do apê 247, decorado por ela com vasos e fotos e onde ficam seu computador e uma TV coberta com um xale. É uma amante do rádio e detesta televisão. “Desde que fiquei viúva, há cinco anos, tinha sempre um filho acordando no meio da noite, angustiado, e pensando: ‘Mamãe está sozinha; mamãe vai cair; mamãe não tem com quem contar’. Ora, quem quer ser esse peso morto na família?” Ela se considera moderna e entende que as coisas mudaram. “Hoje, o velho não mora mais com uma das filhas, vai para um lar. Elas trabalham muito, vivem ocupadíssimas.” No atual contexto, Cecília criou uma etiqueta: “Em visita na casa de filho, mantenho a cerimônia. Minhas noras são duas joias, mas vou, janto e volto”. Para ela, assim está ótimo. “Não ouço mais: ‘Quem vai ficar com mamãe?’ Essa pergunta me matava.” Cilu, como é chamada, tem a seu favor um espírito de menina. “Olho para a janela, vejo uma árvore linda que dei de presente para a minha filha. Tudo simbólico”, explica. “Foi essa forma de fantasiar, ao longo da vida, que me trouxe lúcida e íntegra até aqui.” Quando decidiu que desmancharia a casa, chamou os filhos e netos. “Cada um colou uma etiqueta com seu nome nos objetos que queria herdar. Acabou tudo rápido.” E ela se mudou para o Lar, onde já viviam os irmãos Fernando, que aos 100 anos ainda sai para trabalhar, e Glorinha, 95 anos, mulher de ideias instigantes. “Aqui temos aulas e palestras sobre tudo. Mas gostaria de ver os velhos levando as próprias discussões. A gente podia se organizar, fazer teatro…” Voltando a Cilu: ela lembra que “não doeu nada”, abrir mão dos pertences. “Entrei na casa de uma neta, vi meu sofá, meu piano, meu tapete e fiquei feliz. A família tem carinho com as minhas memórias.” Os registros que fez do clã em filmes Super 8 e fotos ficaram com dois netos. “Falo mais sobre eles que sobre os bisnetos, reparou? Bisnetos são parentes distantes. Você nunca os vê, já nascem na escolinha.”

Última saída

A luz do quarto de Cilu ainda está acesa. Já é madrugada. Ela relê Antologia Poética, de Carlos Drummond de Andrade, à beira do rádio. Menos de 1% dos idosos brasileiros encontra vagas em uma ILPI. No Canadá, são 6%; na Espanha, 5%. “Nem todos precisam morar em uma instituição. Essa deve ser a última alternativa”, afirma Vanessa Idargo Mutchnik, terapeuta ocupacional e mestre em gerontologia. “Numa ILPI, com padrões e horários inegociáveis e onde o idoso é comandado em tudo, há perda de identidade e de cognição.” Para Thânia Rodrigues Ferreira, 57 anos, secretária, deixar a mãe em uma casa de repouso em Mongaguá, no litoral paulista, foi, de fato, a única saída. Aos 77 anos, Walda Rodrigues havia se jogado na linha do trem e, depois, na piscina da casa de Thânia. Repetia que não queria morar com a filha, que não gostava de depender de alguém. Andava agressiva, vivia emburrada, consumia as atenções de Thânia. “Para não deixá-la sozinha, eu a levava para o meu emprego, mas a situação foi ficando insustentável. Pedi demissão.” Ela trancava as portas de casa enquanto tomava um banho rápido, fazia supermercado correndo antes de o marido sair para o trabalho, abriu mão da vida pessoal. “Eu estava estressada, e ela não parava de pedir por uma casa de repouso.” A decisão foi dura. “Senti culpa por não ter contornado a situação”, afirma. Acabou, porém, aliviada ao notar, nas visitas diárias, que a mãe está mais calma. “Ela até fez amizades e a nossa relação melhorou”, revela.

Pode ser bom para o idoso quando o ambiente é instigador, reconhece Vanessa. “Mas a maioria das instituições não foca na socialização, e sim na saúde. Se o cidadão foi medicado, tomou banho e comeu, está resolvido o problema”, critica. “Devemos ao velho a oportunidade de ter um projeto de vida, de aprender, trabalhar, estudar.” No modelo que ela defende, o centro-dia, o inscrito se sente incluído, desenvolve habilidades. “E volta com assuntos para comentar com a família, que o havia posto de lado.” Diante do baixo número de equipamentos, ela comenta: “Hoje, estamos apenas apagando o incêndio”. E lembra que quem tem 80 anos sofre mais. Pertence à primeira geração que conquistou a longevidade e pegou o país despreparado. Já os de 60, 65 têm conseguido se impor, abrindo espaços a marretadas, principalmente no mercado de trabalho, que torce o nariz para quem tem cabelos brancos.

“O envelhecer é resultado do avanço tecnológico, que aumentou o bem-estar e a saúde. E tem futuro”, diz Marília Berzins, mestre em gerontologia social e presidente da ONG Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento (Olhe). “Para isso, basta desconstruir o modelo que associa o velho à incapacidade e à improdutividade.” Um bom começo é perguntar aos garotos de 6 ou 7 anos o que vão ser quando ficarem idosos. Se eles desejarem algo para o tempo que virá, muda-se a cultura. Outra coisa é fazer o empresariado enxergar a oportunidade de negócio. “O velho participa do PIB”, diz Marília, que tem ouvido muitas recusas ao buscar financiadores para projetos da Olhe. “O idoso mudou, rompeu o portão de casa. Ele está em todos os lugares, fala de homossexualidade, como o casal Fernanda Montenegro e Nathália Timberg na novela Babilônia.”

Dos que não ultrapassaram o portão, 25%, conforme uma pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, necessitam de algum tipo de cuidado – que, em geral, a família não consegue suprir. Por outro lado, o panorama é alentador: 75% poderiam ter autonomia, gerir a própria vida e morrer bem. Nos casos em que dependem de ajuda, o Estado deve ser o provedor, conforme a Política Nacional do Idoso, de 1994, e o Estatuto do Idoso, de 2003. “Há, porém, um longo abismo entre os instrumentos legais e a realidade”, afirma Marília. “O Brasil acredita que é um país de jovens e não criou políticas públicas, como preparar cuidadores que atendam o velho na casa onde vive sozinho.” O profissional vai com ele às atividades físicas, às compras, ao cabeleireiro, à igreja. A Prefeitura de São Paulo já oferece esse serviço a 2,5 mil paulistanos, um contingente ainda muito pequeno.

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A morte

Cecília anda lépida a caminho do refeitório para o café da manhã. É exuberante até ao falar naquele tema árido que todos evitamos. “Acho que está na minha hora de morrer. Fiz tudo que precisava, a família caminha bem, estou tão realizada que já posso partir”, discursa, eloquente. “Trato disso com naturalidade com os filhos; digo que tenho meu amor para rever do outro lado. Estamos preparados, embora eles queiram que eu me demore um pouco mais.”

Os outros entrevistados também mantêm a morte na vizinhança. “Vi seis filhos morrerem. Então, ela não me espanta mais”, afirma Marina Reghini Dini, 84 anos, quatro filhos. Todos os meses, ela paga 280 reais para um conhecido levá-la de carro até o centro-dia. Viúva, vive sozinha. “Não é uma escolha. Não me sinto bem, mas até um cachorro gostaria de ter companhia.” Ex-faxineira, ela explica a solitude com abnegação: “Eu sou idosa, estou mais sensível e nervosa. Uma pulga vira cavalo. E isso ninguém quer”. Os filhos não se ofereceram para acolhê-la. “Eu entendo. Uma filha já sofreu muito. Por que teria que passar por mais isso? A outra mora num sobrado; seria difícil para eu subir e tomar banho. E os filhos têm suas mulheres.” Apoiada em uma bengala, com problemas de circulação, artrose e as pernas inchadas, diz o que mais a entristece. “O desprezo na relação do novo com o velho. Não tem nada que me doa mais.” Exemplos? Sua colega Nair Souza Lima, 86 anos, cita um: “Sou alegre. Se falo ou brinco além da conta, a família censura, diz que estou virando criança de novo”. Marina intui quando uma nora se sente incomodada com sua presença. E comenta com o filho, que desconversa: “Isso não existe, é coisa da sua cabeça”. Ela resmunga o desabafo: “Minha cabeça é livre para pensar, está boa, me lembro de coisas da infância. E meu coração é para sentir”. Mais uma pulga vira cavalo no domingo quando um dos filhos a visita e dá uma desculpa qualquer para não ficar para o almoço. “Não sou boba, percebo.” Nair faz uma observação sobre a velhice: “Tem uma inversão injusta que a natureza faz com a gente. O corpo fica fraco, na melhor hora para se viver. Depois de aprender e trabalhar tanto, a gente merecia a liberdade. Sem depender dos filhos”.

Amor, amor

O café da manhã em Jundiaí é interrompido quando o fotógrafo chega. Blandina Visinho, 93 anos, o saúda: “Que bom, um homem! Aqui quase não tem”. Tanto nos ILPIs quanto nos centros-dia, o sexo masculino é minoria, já que vive menos (em média 71,88 anos ante os 79 anos do sexo feminino) e também porque a família acha mais fácil ficar com o velho. “Quando eles são mais longevos, têm melhor qualidade de vida. A mulher se deprime e sente a demência mais rápido”, explica a psicóloga Lilian Lourencini, gerente de saúde da Cidade Vicentina Frederico Ozanan, que, em parceria com a prefeitura, se encarrega da linha de atendimento do centro. Mesmo com poucos homens, os romances ocorrem. “Muito obrigada por permitir que eu falasse do meu amor”, encerra, Juracy da Silva, 80 anos, o seu relato sobre a paixão por José Maria, morto oito meses atrás, de infarto. Eles se conheceram entre as aulas de alongamento e artesanato. A história ganhou os contornos comuns de qualquer relação afetiva. “Eu tinha muito ciúme, ele era paparicado pelas mulheres daqui”, lembra. Numa sexta-feira, Juracy ligou e percebeu que o amado estava passando mal. “Fui a última a falar com ele. Eu nem sabia, era a nossa despedida. A saudade não quer passar.”

O Sexo

“As melhores lembranças são da vida amorosa de antes de casar, dos banhos de mar em Santos (SP), onde vivi, da casa que fiz para minha família em São Paulo. E do sexo. O ato em si é uma bela memória”, conta Odair Teixeira Buarque de Gusmão, 93 anos, despachante aduaneiro aposentado, morador do Lar. Aos 90, ele procurou um urologista, intrigado por não ter uma vida sexual comparada a de um amigo, da mesma idade, que gabava-se de satisfazer as mulheres. “O médico disse: ‘Me traga esse fenômeno’. Nesse momento, percebi que não havia mais chances, o que me entristeceu. Gostaria de ter, de novo, o prazer.” Odair é assíduo no grupo de homens que, mediados por um psicólogo, falam, entre outras coisas, da virilidade que muda de conotação. Ele aprendeu a revelar ali suas dúvidas e angústias. “Mas os outros não se revelam tanto.” Depois do jantar, Odair conta que a labirintite está atacada. “Foram as notícias da crise financeira e moral do país”, diz ele a uma colega, com quem conversa bastante. “As mulheres são mais abertas.”

De fato, elas se expõem mais. Lenyr Novaes Olyntho, 74 anos, educadora, fala sobre sexo no debate proposto por CLAUDIA depois da exibição de E Se Vivêssemos Todos Juntos?, de Stéphane Robelis. No filme, em que cinco amigos setentões enfrentam a velhice morando em regime de república, a personagem de Jane Fonda confessa que se masturba. “O idoso tem vergonha e medo de falar. A gente pensa em sexo, sim, se masturba, sim”, afirma, segura, Lenyr. “A sociedade nos nega mais esse direito. Como se não pudéssemos ter fantasias.” Ela sofreu dois acidentes vasculares cerebrais e crises de ausência; por isso mora no Lar. “Mantenho a capacidade intelectual, escrevo, ajudo terapeutas daqui nos trabalhos para a universidade. Por que não posso continuar a ser eu mesma?” Em Jundiaí, o assunto deixou de ser tabu. “Alguns mantêm a libido”, diz Lilian. “E a tendência das famílias é, de fato, coibir, como se não fosse próprio do ser humano. Aqui, não coibimos nem promovemos, mas orientamos.”

Algum poder

João José da Silva, a 11 dias de completar 90, havia chegado ao centro-dia às 7h45, tomando dois ônibus. Sozinho. É vaidoso, conta que tem muitos chapéus e bonés porque não gosta de ser careca. Está bem-disposto, apesar da miocardiopatia e da pouca audição. “Queria muito morar num sítio e tomar conta de uma plantação. Gosto de trabalhar.” Talvez não pudesse, mas o sonho o alimenta. Há poucos anos, ainda mantinha um carrinho de lanches, conhecido pela qualidade do hot dog. “Ganho três salários mínimos de aposentadoria (foi vigia em uma fábrica), gasto pouco e acho bom dar o dinheiro para ajudar na casa do meu filho, onde moro.” No seu universo particular e familiar, o valor é alto e bem-vindo. O dinheiro está no centro das preocupações dessa população, como revela Odair. “Passei uma vida trabalhando e, felizmente, posso bancar as despesas no Lar. Minha filha cuida das finanças, o marido dela ajuda, porque sabe aplicar os recursos.” Realidade nada comum num país em que a previdência oficial está quebrando. “Quem vai pagar as contas de uma existência tão longa?” é pergunta recorrente e angustiante para muitos brasileiros.

João, que vendeu três imóveis, vive em harmonia com a nora, com os netos, se sente entrosado. “De noite, meu filho lava a louça e eu enxugo.” Para ele, estar no centro-dia é uma oportunidade de ver gente, fazer cestos de papel na aula de artes, se cuidar e dançar. “Sou baiano, filho de músico de baile”, define-se. Bom de forró, é disputado por duas Marias, suas colegas, assim que a música começa. Uma delas, a Maria de Lourdes da Silva, 80 anos, é uma dama interessante, que se retira para o jardim, enrola e acende um cigarrinho de palha. Jamais tira o lenço do pescoço e a calça, que compõem seu traje, embaixo do vestido, como ela usava na roça. “Aceitar que o velho mantenha seu jeito, sua história, sua personalidade é fundamental”, afirma Maria Lígia Pagenotto, jornalista e mestra em gerontologia, que escreve sobre o tema. “Nunca se dirija a ele no diminutivo. Idoso detesta que o chamem de bonitinho, que lhe ofereçam uma cadeirinha, um chazinho”, diz. Também abomina a expressão melhor idade; 90% veem nisso uma forma de tapar o sol com a peneira. Maria Lígia lembra, ainda, que a sociedade precisa deixar de valorizar o folclore, o velho que contraria a ordem natural das coisas, saltando de paraquedas e namorando mocinhas. “É uma caricatura desnecessária.” O mais sensato está em prestar atenção e ouvi-lo se quisermos compreender a velhice e entender para onde todos estamos caminhando. 

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