Mulher denuncia racismo no transporte público: “Se fôssemos brancas e loiras, essas situações teriam acontecido?”

Na última segunda-feira (16), a produtora cultural Silvinha Alves postou em sua conta no Facebook três episódios racistas que aconteceram com ela e sua filha Nina no transporte público e em uma farmácia. A postagem já contabiliza 85 mil curtidas e pouco mais de 5 mil compartilhamentos nas redes sociais nos últimos dois dias. Se ela fosse branca, loira, teria passado por isso? Leia o depoimento na íntegra abaixo e reflita:

Não é incomum já ter ouvido, pelo menos uma vez na vida e vindo de pessoas brancas, que o racismo não existe no Brasil. Outros preferem dizer que aqueles que enxergam o viés preconceituoso de alguma ação ou discurso estão sendo vitimistas, exagerando ou de mimimi. Mas a questão é: se a discriminação racial realmente não existisse no nosso país, porque situações como a relatada pela produtora cultural Silvinha Alves ainda acontecem?

Reprodução/Facebook Reprodução/Facebook

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Na última segunda-feira (16), a mãe da Nina postou em sua conta no Facebook três episódios que aconteceram com ela no transporte público e em uma farmácia, na primeira vez uma senhora a ofereceu esmola, na segunda, uma atendente da farmácia a discriminou pelo seu black power e na terceira, Silvinha quase foi impedida de entrar no ônibus porque o cobrador achou que apenas por ela ser negra, não teria condições de pagar pela passagem. A postagem já contabiliza 85 mil curtidas e pouco mais de 5 mil compartilhamentos nas redes sociais nos últimos dois dias. Se ela fosse branca, loira, teria passado por isso? Leia o depoimento na íntegra abaixo e reflita:

“Gostaria de compartilhar com vocês o que aconteceu comigo nessa semana que passou:
Eu estava esperando o ônibus com a minha filha, quando percebi, uma mulher estava me oferecendo moedas. Eu perguntei: “O que é isso?” Ela disse: “Uns trocados pra você comprar alguma coisa pra sua filha”. Fiquei sem ação e apenas respondi: “Obrigada, mas eu não preciso.” Ela: “Você não quer?” Eu: “Não!” Até que finalmente se afastou não acreditando que eu tinha recusado as moedas.

No dia seguinte, saí novamente com Nina, minha filha. Eu ando com Nina envolvida em um tecido, muitos conhecem esse tecido como Sling, e sempre para entrar no ônibus eu peço pra abrir a porta traseira, pois com Nina no tecido não tem como passar pela roleta. Desta forma eu entro, me dirijo até o motorista, pago a passagem e movo a roleta com as mãos. Normal. O ônibus parou, e o motorista me disse que não ia abrir a porta traseira, disse que não podia, que as câmeras estavam filmando. Eu respondi: “Mas como assim? Todos os motoristas fazem isso pra mim?” Ele respondeu: “Mas eu não faço!”. Fiquei atônita, imaginei ficando sozinha com minha filha na parada, sem ter como ir para casa. Uma mulher gritou: “Motorista ela está com uma criança!”. Alguém dentro do ônibus gritou “Motorista ela vai pagar!” Quando ele ouviu isso, finalmente disse: “Ok, eu vou abrir, pode ir lá.”

Reflitam, se fôssemos brancas, loiras, essas duas situações iriam acontecer? Por que aquela mulher achou que eu precisava de moedas pra comprar “alguma coisa” pra minha filha? Por que o motorista achou que eu não iria pagar a passagem? Por que outro dia a moça da farmácia me perguntou com cara de nojo “Você está deixando o cabelo da sua filha igual o seu?”. Ah, o racismo não existe no Brasil, né… nós vemos racismo em tudo. Sim! Realmente o racismo está em tudo! No comportamento das pessoas, nos olhares, nos discursos torpes, no sistema de educação, nos padrões de beleza, está na história desse país… sim, está em tudo! Procurar entender e saber mais sobre as questões raciais é importante, enaltecer a identidade e ancestralidade negra muito mais ainda!

Depois do que aconteceu, entrei no ônibus totalmente envergonhada, todos ali me olhavam. Até que um moço estiloso entrou, percebi que olhou para nós e sentou. De repente ele virou e me disse: “Moça, estou tomando coragem para falar, você e sua filha são incríveis! São lindas! Eu leio e acompanho o empoderamento negro, sou fotógrafo, faço parte de um projeto que faz fotos do cotidiano em Natal, fotos inesperadas, não me contive ao ver vocês. Por favor, posso fazer algumas imagens de vocês duas?” Com certeza aceitei e conversamos bastante sobre essas questões que muitas mães negras passam no dia-a-dia, sobre a importância de ter sabedoria em criar nossas crianças negras em um sistema racista. Nem contei pra ele o que aconteceu comigo antes dele entrar no ônibus, achei melhor falar agora que as fotos ficaram prontas e agradecer a você Ian Rassari. por me encher de alegria nesse dia e parabéns pelo lindo projeto de fotografia, muitas histórias ainda vão ser contadas através dessa iniciativa e inspirar as pessoas!”

 

 

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