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Monja Coen: a vida da jovem rebelde que se achou no monastério

À beira dos 70 anos, com o sete livros lançados e sucesso no Youtube, a religiosa conta de seus romances e do medo que sentiu durante o parto do bisneto

Por Fernando Esselin
28 abr 2017, 09h36 • Atualizado em 28 abr 2017, 09h36
 (Tomas Arthuzzi/Reprodução)
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  • A Praça Charles Miller, na capital paulista, era o quintal de brincar onde Cláudia Dias Baptista de Souza ralava os joelhos. Nas cercanias do Estádio do Pacaembu, o sobrado da infância da monja Coen Roshi mantém o aconchego de casa de mãe.

    Espero por ela no portão, mas seus labradores chegam primeiro. Logo depois, a mulher baixa, de fala amorosa e pele viçosa, usando quimono preto e camiseta branca, me convida para sentar na varanda.

    Conforme a conversa flui, ela se emociona, não se recusa a rever o passado, a menina que casou aos 14 anos, namorou muito, tentou o suicídio, foi presa com drogas.

    Conta também das inquietações atuais, como embarcar na escolha da neta, Rafaela, 24 anos, de dar à luz em casa – o que rendeu à monja um desespero, diante de uma emergência, e uma excitação: ver o bisneto, Mahao, brotar para a vida no chão do quarto dela.

    Cláudia mora nesse endereço cheio de memórias que se tornou o Templo Tenzui Zenji e onde, no dia 30 de junho, celebrará seus frutíferos 70 anos – 34 deles monásticos, dedicados a fazer do mundo um lugar com um pouco de paz.

    Leia mais: O que fazer se seu filho escolher uma religião diferente da sua?

    Seguida por zen-budistas e fãs dos seus 200 vídeos postados no canal Mova, no YouTube, ela lançou neste mês o sétimo livro, O Sofrimento É Opcional. Como o Zen-Budismo Pode Ajudar a Combater a Depressão (Bella Editora).

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    Até o aniversário, sai também um documentário sobre Coen dirigido por André Szilágyi Carvalho, marido de Rafaela. Veja trechos da entrevista:

    monna1
    (Tomas Arthuzzi/Reprodução)

    CLAUDIA: Como foi se casar tão jovem?

    Monja Coen: Queria sair de casa, ser adulta. Em uma festa, aos 13 anos, dançou comigo um moço bonito, de 20 (o ex-piloto de Fórmula 3, Antônio Carlos Scavone). Começamos o namoro com a minha mãe na sala. Mas ele voltava depois para me encontrar às escondidas. Em uma noite, foi pego pela família. Cogitaram me mandar para um colégio interno.

    Para esquecer o namoro, minha mãe me levou para a Europa por três meses. Mas, cabeça-dura, eu ameaçava fugir com ele. Casamos. Eu queria parecer moça, ia ao cabeleireiro todo dia, tomava injeções para engravidar. Meu marido viajava cobrindo o Mundial de Pilotos para a Globo. Teve uma namorada, me deixou ofendida. Grávida aos 17, briguei e me separei.

    Mas ele reaparecia. Na véspera de voar para uma corrida na Europa, perguntou se eu não queria ir junto. Recusei. Então, me deu um beijo como não fazia havia anos: era a despedida. O avião caiu. Ele tinha 32 anos; minha única filha, Fábia, 7.

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    CLAUDIA: Por que a senhora diz que o jornalismo a preparou para a vida?

    Monja Coen: A rotina da redação me pôs em contato com a dor do mundo. Fui repórter no Jornal da Tarde, conheci o Nordeste, a seca, a fome, as mazelas. Morei com um colega, mas não durou porque ele bebia muito, o que é difícil de lidar. Tentei o suicídio, comecei a analisar minha vida, a das pessoas que sofriam em um casebre que pegara fogo e dos que eram tratados como reis. Contrastes fortes para uma menina de 20 anos.

    CLAUDIA: A senhora usou LSD e foi presa na Suécia. O que isso lhe ensinou?

    Monja Coen: Que não é preciso droga para acessar níveis profundos da consciência. Eu achava que, se alguém tomasse ácido, não tentaria se matar. Sob o efeito, você sente que é um só corpo, uma só vida com tudo que existe. Um namoradinho escocês veio para o Brasil, sem dinheiro. Teve a ideia de levar LSD para a Suécia, que mostrava alto índice de suicídio. Pensamos: “Será um bem. As pessoas vão desistir de se matar”. E ele traria grana. Seguimos para Estocolmo; fomos revistados. Ficamos presos por cinco meses.

    No silêncio, acordava cedo, ouvia Pink Floyd e comecei a meditar. Comia bem, trabalhava na costura e no jardim. Era poupada nas brigas violentas – tenho uma cicatriz na orelha e mentia que havia sido uma briga de faca. Então, me respeitavam. De volta a São Paulo, minha mãe me apresentou aos primos dela, Arnaldo e Sérgio, dos Mutantes. Eu ia de moto à casa deles e da Rita Lee, na Serra da Cantareira.

    Juntos, assistimos ao show do Alice Cooper e ali conheci o iluminador Paul Weiss. Ele chorou ao se despedir, me convidou para visitá-lo na Flórida. Lá, comprei alianças e perguntei: “Vamos casar?”. Paul me dava livros de meditação e eu o ajudava a produzir shows de David Bowie. Com saudades da minha filha, retornei com ele. Foram sete anos juntos.

    CLAUDIA: Por que optou pela vida monástica?

    Monja Coen: Em Los Angeles, encontrei o zen. Falei para um abade que queria ser monja e ele estranhou: “Você nem é budista, vem de família cristã”. Respondi que podia aprender. Vendi meu carro e fui viver o zen. Após a ordenação, estudei em um mosteiro feminino no Japão e fiz pós-graduação em outro, misto.

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    Estava feliz com o celibato, mas conheci um monge japonês (Shozan Murayama). Na ordem, houve quem fosse contra, mas meu mestre calou a todos aprovando o casamento. Viemos trabalhar no Brasil. A relação durou sete anos.

    CLAUDIA: Como é sua rotina no templo?

    Monja Coen: Os cachorros me chamam às 6 horas. Antes, fazia duas horas de liturgias, mas em 2016 tive herpes-zóster (vírus ligado à baixa resistência, que leva a dores e erupções na pele) e reduzi a rotina. Acendo incensos nos altares, rezo, tomo café com pão. Ainda de manhã, escrevo. Uso o Facebook, assisto a Netflix, me divirto como a CNN brigando com o Trump, vejo notícias daqui.

    CLAUDIA: Seu bisneto nasceu no templo. Como participou da experiência?

    Monja Coen: Rafaela veio pedir apoio para um parto normal em casa – coisas da modernidade. Eu disse que podia contar com a bisa. Ela sentou no chão do meu quarto. Com o pé quebrado, em uma cadeira de rodas, participei pouco, mas a encorajava: “Você pode gritar, não precisa ter vergonha”. Uma parteira a ajudava. A cabecinha de Mahao vinha e voltava. Até que a língua da minha neta começou a roxear, e fiquei com medo. A responsabilidade era minha. A família não concordara; o médico tinha sido contra. Rezei tudo que sabia. Peguei um livro de sutras budistas, fiz orações com toda intenção. “Vai dar certo”, pensei. O bebê nasceu bem e trouxe bênçãos para nós, para a casa.

    CLAUDIA: Ele entrou de Super-Homem em uma palestra sua. Foi espontâneo?

    Monja Coen: Fiquei feliz ao vê-lo no palco. Mahao tem 3 anos. Estava à vontade, na delícia de usar a capinha de super-herói, voando. Ser bisavó é muito louco e lindo!

    CLAUDIA: Como percebeu a chegada dos 70 anos? É difícil envelhecer?

    Monja Coen: Até o zóster, corria 10 quilômetros com frequência. Dei uma parada. Ando exausta: sou solicitada por empresas e universidades, viajo. Em 2016, estive no Japão e na Colômbia. Deveria ter mais cuidado comigo: em hotéis como mal; engordei 10 quilos. Mas tento manter o corpo em ação. Envelhecer não é fácil nem difícil; a gente não escolhe. Há coisas mudando e devo me adaptar à realidade da idade. Sinto tontura em locais com gente falando alto. Ficamos frágeis: se pegamos algo com força, a veia arrebenta.

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    CLAUDIA: Como vê a viralização das suas palestras no YouTube?

    Monja Coen: Saio na rua e as pessoas me agradecem pela ajuda. Um dia, no mercado, duas mulheres comentaram: “Ela é a supermonja”. A internet me fez mais conhecida; atinge todas as idades e classes sociais. Tento basear os ensinamentos de Buda no que acontece no mundo, no dia a dia conturbado.

    CLAUDIA:  Vivemos com medo da rua, do outro… É cabível tanto medo assim?

    Monja Coen: Medo não faz mal. Ele protege. Mas não pode me parar. Nem devo imaginar: “Ando em qualquer lugar porque Buda me ajuda”. Não é assim. Perguntaram ao papa se ele não sentiu medo na visita a uma comunidade pobre brasileira. Ele respondeu: “A gente pode morrer em qualquer lugar; aqui, na cama”. Não ter medo da morte e da dor é o mais importante. O zen trabalha isso: você está livre para o que a vida trouxer. Ela nos dá flechadas de sofrimento. Tem gente que enfia outra flecha em cima e fica causando mais dor. Para quê?

    CLAUDIA: As mulheres pedem, nas ruas, direito ao aborto e denunciam relações abusivas. Como vê isso?

    Monja Coen: Acho bom! Viviam com um tampãozinho na boca, com medo de apanhar mais, perder o emprego. Buscamos a equidade. O aborto deve ser a última opção, mas tem de ser legalizado. Evitará a morte de muitas. Mulheres, homens e crianças não merecem o abuso. E há mulheres que abusam. Destroem moralmente o parceiro, põem os filhos contra o pai.

    CLAUDIA: Dá para ser sereno na vida atual?

    Monja Coen: Com respiração consciente. Um vizinho faz obras há meses. Os ruídos são a música que ouço. Não adianta reclamar. As coisas não são como eu gostaria.

    CLAUDIA: Como aquietar o coração com o fim de um caso de amor difícil?

    Monja Coen: Não se deve esquivar de outro com receio de novo fracasso. Só será assim se você repetir o personagem. Quando fui para o zen, me queixei: “Estou cansada de viver um amor bonito e, logo depois, vê-lo deteriorar como o anterior”. Eu punha a culpa no parceiro. Depois, entendi: sou eu. Devo ver o que faço para chegar àquele ponto e como mudo isso. É preciso se conhecer, alterar a maneira de ser em relação à pessoa amada.

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    CLAUDIA: Vai ter festa nos seus 70 anos?

    Monja Coen: Acho que convidarei alguns alunos para apresentar suas artes. Uma é bailarina de butô; outra, de dança indiana. Será uma reunião para a minha sanga (comunidade budista).

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