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“Comecei muito cedo na vida do crime e nunca mais quero voltar”

Com o auxílio do projeto Segunda Chance, o paulistano Wellington Galdino conquistou uma vaga de emprego e alimenta o sonho de ser ator

Por Carolina Scatolino - Atualizado em 11 jul 2017, 09h12 - Publicado em 10 jul 2017, 20h50

“Comecei muito cedo na vida do crime e nunca mais quero voltar. Fui preso pela primeira vez aos 14 anos, na Febem (atual Fundação CASA). Fiquei entre idas e vindas durante 2 anos e meio, até passar 6 anos detento, dos 22 aos 28. Mas os problemas começaram antes disso.

Perdi meu pai quando eu tinha 7 anos. Ele reagiu a um assalto e acabou levando um tiro. As  únicas lembranças que tenho são de quando ele me deu um presente e o dia do enterro. Não gosto de falar desse assunto, dói meu coração.

Às vezes acho que foi aí que tudo começou. Minha mãe logo se casou com outro homem. No começo do relacionamento deles, meu padrasto me tratava bem, a gente ia para o campinho e conversava bastante. Até que minha irmã nasceu e ele começou a me maltratar, me bater.

Só para irritar minha mãe, passei a imitar tudo o que meu padrasto fazia de errado. Ele usava drogas, por exemplo. Minha mãe era empregada doméstica e fazia um curso de auxiliar de enfermagem, ficava o dia todo fora.

Eu ia para a escola de manhã e, de tarde, vendia salgadinho, amendoim e refrigerante no trem. Tudo o que eu ganhava eu dava para ela. A gente estava construindo uma casa, então ficava tudo mais difícil. Eu ia para a escola e via meus amigos com tênis de marca e roupa nova.

As minhas roupas eram sempre baratinhas. Hoje vejo que minha mãe não deixava faltar nada para mim, mas eu nunca achava que estava bom. Eu me sentia inferior ao meus colegas. Passei a beber, fumar, usar drogas e a sair com mulheres.

Vivia sem limites. Comecei a roubar e acabei sendo preso. Na Febem, conheci pessoas que me influenciaram ainda mais.

Quando saí, não dormia mais em casa. Comprei um barraco na favela, me envolvi com o tráfico e me aliei aos ladrões mais experientes. Ganhava muito dinheiro: fazia saidinha de banco, assaltos. Ganhei mais dinheiro e comecei a comprar moto, apartamento… até que fui em cana em um assalto.

Nessa época, eu já tinha minha filha e, por ela, decidi que não queria mais voltar. Mas, quando saí, a situação financeira começou a apertar. Então passei a traficar. Assim eu não precisava me expor, por a mão em revólver e ameaçar a vida de ninguém.

No tráfico, tinha dinheiro todo dia e a minha vida era de ostentação. Só que, aos 22 anos, fui preso novamente e peguei seis anos de prisão. Nos início, eu só queria sair. Pensava nisso o dia todo. Depois, comecei a pensar que deveria fazer alguma coisa para evoluir: passei a ler, praticar esportes, dar aulas no mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização), participei de curso de teatro.

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Quando saí da prisão, senti um baque: eu sou do tempo de orelhão de ficha e percebi que tudo estava mudado, a tecnologia tinha evoluído bastante e, dentro da cadeia, eu não pude acompanhar isso. Fiquei surpreso até quando vi mulheres guiando ônibus. A melhor coisa de estar longe da prisão é estar ao lado da família, é comer uma fruta, é vivenciar os pequenos prazeres da vida.

Por três anos, não consegui emprego. Até conhecer o Segunda Chance. O projeto me ajudou com cursos profissionalizantes, assistência dentária. Eu sabia que não podia ficar parado pois minha mente se voltava para o crime.

Consegui alguns trabalhos como autônomo e, graças à ajuda da Karine [Vieira, assistente social que concorre ao Prêmio CLAUDIA na categoria Trabalho Social], fiz um curso de corte e costura em uma confecção.

Dali poderia surgir uma oportunidade de emprego. Enquanto a vaga não aparecia,  me propus até a trabalhar de graça, para conhecer o funcionamento da empresa, pegar experiência, além de me manter ocupado.

Fui chamado, então, para um período de experiência. Dei o meu melhor, tentei aprender de tudo um pouco, sempre me aperfeiçoando. Esse meu empenho fez com que me contratassem como ajudante geral. Hoje tenho carteira assinada, almoço e vale transporte.

Adoro meu trabalho e já vou completar seis meses. Minha função é de muita responsabilidade: recebo mercadorias, faço inspeção, entregas externas, corto e risco algumas peças, além da limpeza da empresa.

Todo mês, separo um pouco do que ganho para me aperfeiçoar, para a minha cultura. Quero fazer um curso de corte e costura profissional e alcançar meu objetivo principal: tenho o sonho de ser ator profissional e de trabalhar com tecnologia.

As empresas têm que dar mais oportunidades aos egressos, têm que saber que dentro da prisão não tem somente “leão”, gente maldosa. Tem muita gente que quer sair do crime também. Elas merecem uma chance.

Eu luto diariamente enfrentando o sistema para ser um exemplo àqueles que ainda estão na rua procurando uma oportunidade.”

Wellington Galdino Sousa Lima, 32 anos, ajudante geral, em depoimento a Carolina Scatolino

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