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A mulher que não aceitou calar sobre Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell

Virginia Giuffre é uma das centenas das sobreviventes do tráfico sexual e está à frente das denúncias que levaram os abusadores à prisão

Por Da Redação Atualizado em 8 ago 2020, 02h14 - Publicado em 8 ago 2020, 10h30

A vida de Virginia Giuffre, como ela mesma conta, nunca foi fácil. Em seu Twitter, ela se identifica como a CEO da ONG Victims Refuse Silence (Vítimas recusam o silêncio), que dá apoio a vítimas de tráfico humano. Na bio ela ressalta “Sobrevivi a Epstein, Maxwell e companha – agora cobro que paguem pelos crimes”. Hoje, casada, mãe de dois filhos e vivendo na Austrália, Virginia é também advogada. Quando conheceu Ghislaine Maxwell e Jeffrey Epstein, tinha apenas 16 anos (assinava com o nome de solteira, Roberts) e trabalhava para Donald Trump.

O sonho da jovem que não tinha nem onde morar era de ter um trabalho de massagista, mas se viu como a vítima perfeita para o casal que é acusado de tráfico sexual e abuso de menores. Virginia não sabia de nada quando os conheceu. Aliás, é incerto quantas pessoas tinham a noção no início dos anos 2000, quando ela foi recrutada. Quem se aproximou dela foi Ghislaine Maxwell, que a contratou para fazer massagem no seu então namorado, Jeffrey Epstein. Já no primeiro dia, os dois abusaram de Virginia, que acabou vivendo com eles por alguns anos, sendo traficada para amigos como o príncipe Andrew e outros.

Príncipe Andrew com Virginia Roberts Giuffre e Ghislaine Maxwell. A foto foi tirada por Jeffrey Epstein Divulgação/Netflix

“Eles me perguntaram detalhes da minha vida”, reconta ela nos documentos que fazem parte do processo contra Ghislaine Maxwell. “Mas não pareciam estar solidários à minha trajetória difícil, ao contrário, parece os excitar mais”, ela diz.

Aos 13 anos de idade, Virginia se envolveu com Ron Eppinger, um homem que fingiu ser um agenciador de modelos e foi levada ao tráfico sexual internacional. Com prisão de Eppinger pouco tempo depois, ela passou a morar com seu pai para sua própria segurança. Em 2000, a garota começou a trabalhar em uma das propriedades de Donald Trump, onde Ghislaine a viu pela primeira vez.  Depois do abuso de Ghislaine e Epstein, Virginia foi forçada a fazer serviços sexuais para Epstein, Ghislaine e amigos durante dois anos e meio. Segundo Virginia, Ghislaine e Epstein queriam que ela fosse tivesse um filho para os dois. Como moeda de troca, mandaram ela antes para uma viagem na Tailândia, onde Virginia conheceu o futuro marido e escapou.

Em 2005, Virginia decidiu que iria denunciar a rede de exploração liderada por Ghislaine e Epstein, citando nomes e publicando as provas que têm para comprovar sua história. Ela é hoje a sobrevivente mais vocal de todo esquema criminoso. Virginia acusa o príncipe Andrew de ter tido relações com ela quando tinha apenas 17 anos, assim como outros empresários, políticos e advogados.

Sua trágica experiência a convenceu a estudar e ela se formou em direito. Há dez anos criou a organização Victims Refuse Silence para ajudar mulheres que passaram pela mesma situação.

O empenho de Virginia em reverter o acordo entre Epstein e a Justiça da Florida, fechado em 2008 e que dava imunidade a Ghislaine e outras pessoas foi essencial para que as sobreviventes pudessem cobrar uma punição da empresária e buscar indenização também.

Ela é ativa no Twitter, onde não se esconde para acusar as pessoas que sabiam de todo tráfico, inclusive as modelos Naomi Campbell (amiga de Ghislaine) e Heidi Klum. “Elas todas sabiam e não fizeram nada, é como se matasse alguém na frente de outra pessoa e não dizer nada, isso se chama ser cúmplice. Elas são cúmplices, pura e claramente”, escreveu.

Para Virgínia, dar o exemplo e ser vocal sobre os crimes é uma forma de inspirar outras mulheres a denunciarem abusos. “Nós precisamos acabar com a cultura de culpar a vítima”, alerta ela. “É a mesma tática da polícia e os problemas sistêmicos que precisam mudar”, diz.

Atualmente Virginia tem feito pressão sobre o processo de Ghislaine Maxwell, onde é uma das principais testemunhas de acusação. Essa semana, ela postou uma foto no hospital, onde fez uma cirurgia na coluna.

“Ainda no CTI, com muita dor e não terei apenas que ter as cicatrizes físicas mas as emocionais também. Enquanto estou sozinha na cama eu tenho flashbacks das atrocidades que já vivi e me pergunto: não é o suficiente? Queria que tudo acabasse logo”, desabafou.

Reprodução/Twitter

O processo contra Ghislaine segue em andamento. Os documentos do depoimento de Virginia, em 2005, perderam o sigilo judicial e agora foram acrescentados na acusação contra a empresária. Ghislaine  insiste em sua inocência, mas teve o pedido de prisão domiciliar negado e está sob custódia da polícia, em Nova York. Seu julgamento deve acontecer em julho de 2021. Na segunda (10), completa um ano da morte de Jeffrey Epstein, que foi encontrado morto em sua cela. A causa oficial de sua morte é suicídio, mas pessoas até como o presidente Donald Trump já mencionaram dúvidas se não foi assassinato. Ghislaine Maxwell está sob o suicide watch, que é um acompanhamento para evitar o mesmo destino do ex-namorado.

Davidoff Studios/Getty Images

 

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