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Moda e poesia se encontram em filme da marca Jal Vieira de tirar o fôlego

Ryane Leão, Carol Dall Farra, Luz Ribeiro, Valentine e Gênesis participam da coleção da estilista com poemas exaltando a resistência de trajetórias pretas

Por Ana Carolina Pinheiro Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 5 dez 2020, 22h55 | Atualizado em 4 jun 2026, 14h22
Jal Vieira
 (Jal Vieira Brand/Reprodução)
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Ao ver qualquer peça da estilista Jal Vieira, a textura se sobressai e conecta o seu fazer criativo. No look apresentado pela paulistana no editorial de moda da edição de novembro da CLAUDIA, essa característica é representada pelas franjas. “Elas simbolizam a turbulência de um momento de ruptura que vivia na época”, explica. A saia e o blazer da coleção Ruptura foram usados também no clipe de Me Gusta, canção de Anitta com participação de Cardi B e Myke Towers.

Nascida na periferia de São Paulo, no bairro da Brasilândia, o seu traço na moda é resultado de uma herança familiar com raízes no sertão da Bahia, onde sua mãe, Anaohan, nasceu. “Ela sempre fez suas roupas e usava um saco de estopa como tecido”, lembra a estilista, que mostrou sua nova coleção Minha pele costura a minha história na 47ª edição da Casa de Criadores.

Com um salário apertado de empregada doméstica, Anaohan quis dar à filha o acesso às mais variadas formas de arte, que não teve. “Devo todo o meu histórico artístico à minha mãe, que procurava cursos gratuitos pra mim, já que não tinha condições de pagar. Fiz teatro, dança, canto e sempre me interessei por desenho”, diz. O último é o que garantiu, segundo ela, a entrada acidental na moda. Com uma boa nota no Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM, Jal passou no vestibular de moda de uma renomada faculdade de São Paulo com bolsa integral.

O fim da adolescência trouxe mudanças que ultrapassaram as oportunidades de estudo e atingiram sua essência. “Até uns 18 anos, convivi muito com pessoas brancas e passei por um processo de embranquecimento, que me fez achar até que era branca”, comenta a estilista. O colorismo dificultou esse reconhecimento, que foi revelado da forma mais brutal por meio do racismo.

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“Fui seguida numa loja pelo segurança. Quando fui sair, sem ter comprado nada, ele pediu para revistar minha bolsa. Essas situações começaram a ser recorrentes, mesmo tendo uma passabilidade maior do que pessoas retintas”, diz Jal, que também enfrentou silenciamento e outro tipos opressão no universo da moda, dominado por profissionais brancos, principalmente homens cis.

O deslocamento era tanto que a estilista chegou a pensar que moda não era para ela. A decisão a levou para o audiovisual, que atuou por quatro anos. Entretanto, o convite para integrar o time de estilistas da Casa de Criadores em 2019 mudou sua forma de se enxergar profissionalmente. “Voltei porque vi que a minha presença ali era importante para ruir com essa estrutura racista, misógina, LGBTfóbica”.

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Jal Vieira
Para CLAUDIA de novembro, Jal Vieira divide o look da coleção Ruptura, usado pela modelo Maria Paulino. (Mylena Saza/CLAUDIA)

Para enfrentar as marcas que esses atravessamentos sociais provocam, a estilista encontrou força no movimento de aquilombamento. “Entrei para coletivos pretos, que me ajudaram a entender minha potência. A mudança veio de duas formas: mentalmente e esteticamente também, já que ela passou a usar os fios naturais e modificou seu modo de se vestir.

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A conscientização racial libertou Jal de algumas prisões, mas também escancarou problemáticas duras, como a de ter um espaço interessante de divulgação do trabalho, só que experenciado de maneira solitária.

A Célula Preta, coletivo de estilistas negros do evento, preencheu esse vazio. “Fiquei com receio no começo por ser a única mulher, mas percebi como nós pretos temos uma conexão diferente com quem está do outro lado. É uma relação de respeito e escuta, coisas que nunca tinha experimentado com pessoas brancas. Os meninos sempre estiveram abertos à escuta e ao diálogo”, revela sobre o grupo.

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Foi nesse movimento coletivo que Jal construiu a coleção apresentada no fim de novembro na Casa de Criadores. As poetas Ryane Leão, Carol Dall Farra, Luz Ribeiro, Valentine e Gênesis contribuíram com suas obras relatando os atravessamentos que as atingem individualmente. Mesmo com particularidades, em comum, elas condensaram as condições de resistências de ser mulher preta.

Assista o resultado no filme da marca:

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