Cartas de Costanza Pascolato: consultora de moda relembra sua história nos 65 anos de CLAUDIA
Um dos primeiros trabalhos de Costanza foi aqui, em CLAUDIA. No mês dos 65 anos, pedimos para a consultora relembrar nossa trajetória juntas
“Você sabe como eu comecei, né?” À certa altura da conversa com Costanza Pascolato, a papisa da moda brasileira, uma grande esteta, me fez essa pergunta antes de introduzir uma das suas histórias mais instigantes. Foi o tipo de dúvida que nos coloca naquela linha tênue entre dizer o automático “sim, claro” e o honesto “não, na verdade, acho que não”. Por sorte, optei pela segunda opção. “Eu fazia produção de fotos com frangos”, diz ela, rindo, antes de continuar: “Eu tinha me separado e meu pai me deserdou para ver se eu voltava para casa, mas eu tentava trabalhar e ninguém me dava emprego”. Na década de 1970, decidir terminar um casamento ainda era uma ruptura, sobretudo para uma mulher.
Costanza havia se apaixonado por Giulio Cattaneo della Volta, com quem ficou casada por 20 anos, mas, diante da nova realidade, precisava trabalhar. Olga Krell, então editora de cozinha e decoração da Editora Abril, percebeu essa necessidade e a convidou para ser produtora de fotos de comida. “Jamais vou me esquecer de um peru de fim de ano que não podia ter a aparência daqueles tipos americanos. Como a equipe queria que fosse feita uma receita brasileira, descobri que ele precisava ser fervido, e isso não ficava muito bom na foto”, conta. Foi então que Costanza lembrou que conhecia a dona de um restaurante chinês e pediu uma ajuda: “Perguntei para a dona Beth qual era o molho que ela usava para deixar as comidas com aquela aparência marrom e brilhante. Ela me deu um pouco do molho de ostras e pintei o peru brasileiro assim”, se diverte.
Agora, quase três décadas depois, o clássico ganha continuação e estreia nos cinemas em 10 de setembro. Na sequência, o foco vai para a nova geração de meninas: Kylie (Joey King), filha de Sally, vive um romance com um colega da faculdade e descobre que ele corre risco de morte. Quando encontra um livro misterioso, decide fazer de tudo para interromper o ciclo que atravessa a linhagem. Maisie Williams se junta ao elenco como a irmã que vai apoiá-la na aventura.
“Fiquei empolgada quando soube desse roteiro. Sempre quis que a volta acontecesse — e levou mais tempo do que eu imaginava. Essa é uma história de fraternidade, família e acolhimento”, comenta Nicole. “Construímos uma relação com o público e ainda hoje vejo pessoas que assistem ao filme todos os anos. É lindo fazer parte da vida de alguém dessa forma.” CLAUDIA captou parte dessa conexão mágica ao conversar com as quatro atrizes sobre alguns dos principais assuntos do filme.
Ditando moda
“No começo, achavam que eu era uma dondoca”, lembra. Nascida em Siena, na Itália, em 1939, Costanza chegou ao Brasil aos 5 anos de idade, ao lado dos pais, do irmão e da governanta, durante a Segunda Guerra Mundial. Vinha de uma família ligada à aristocracia veneziana e trazia, com ela, um universo de códigos sociais, referências culturais e sofisticação que encontraria novas formas de expressão no Brasil. Seu pai, Michele Pascolato, segundo ela, era o rei da diplomacia, sabia tudo sobre regras sociais, como se apresentar às pessoas e fazê-las sentir à vontade. “Uma das grandes lições que aprendi com ele é que estar arrumada é uma questão de cortesia com os outros”, lembra ela, que aplica esse aprendizado no seu dia a dia, independentemente da ocasião.
Já sua mãe, Gabriella Pascolato, em 1948, fundou, em São Paulo, a Santaconstancia, uma das primeiras tecelagens especializadas em materiais sofisticados no país. Costanza, curiosa desde menina, vivia ao seu redor para aprender tudo o que acontecia na fábrica — eis sua pedra angular relacionada ao vestuário. A matriarca está diretamente relacionada à cultura de moda construída pela filha. “Além disso, ela sempre estava bem vestida. Lembro de vê-la usando um vestido branco com sapatos coloridos de salto anabela assinados por Salvatore Ferragamo”, conta sobre essa relação próxima com o lendário sapateiro italiano, que teve apoio de seu avô para criar seu ateliê nos anos 1930.
A partir dessa relação tão íntima com a moda, Costanza foi convidada para cuidar dessa editoria em CLAUDIA, nos anos 1970. “Foi em um período ideal, porque era quando a indústria da confecção estava em expansão em São Paulo, ainda que o estilo de vanguarda viesse do Rio de Janeiro”, observa. Naquele tempo, havia uma necessidade de comunicação com a mulher brasileira, “porque a revista CLAUDIA era essa revista, que tinha acesso à dona de casa do país todo”, que precisava entender as mudanças comportamentais e as novas informações de estilo. “Quando cheguei na revista, Glória Kalil, que já tinha trabalhado na CLAUDIA na parte de texto, me deu um conselho: ‘Leia as cartas das leitoras, porque você não tem noção do que seja o mundo classe média aqui no Brasil e vai ajudar muito’”.
Foi assim que Pascolato começou a ler as cartas e percebeu que elas traziam dúvidas de toda ordem, desde o que vestir e que cor de esmalte usar até como dispor os talheres em um jantar. “O que era interessante é que eu não só lia as cartas, como eu as respondia. E foi curioso, porque nós começamos falando de cores, comprimento de saias. Duas leitoras, uma era de Santos e a outra de São Paulo, nos escreveram para dizer: ‘Olha, teve um dia que eu usei um vestido daquele jeito que você falou e eu fiz sucesso, mas eu não sabia o que fazer, porque era uma das primeiras vezes que eu ia a um cocktail’.”
Com a ascensão da convivência social, as mulheres começaram a sair mais de casa, à medida que os maridos começavam a ter empregos melhores e as empresas maiores ofereciam coquetéis e jantares. Com isso, a comunicação de Costanza com as leitoras passou a ser uma troca constante. “Foi aí que eu entendi o quanto elas precisavam de conteúdo didático e não só o que eu achava bonito.” Essa disposição para experimentar abriu espaço para colocar seu cinto Valentino ou amarrar um pullover na cintura em um editorial de moda, combinando-os com peças das marcas paulistas ou cariocas. “Eu sabia me vestir para mim, para a sociedade italiana, americana, mas foi um aprendizado interessante poder fazer misturas e encontrar novas formas de usar uma peça”, diz ela, sobre um momento de evolução que também se refletia editorialmente. “Com o crescimento da indústria, passamos de fazer zero fotos (o que acontecia na época que eu entrei, quando basicamente vestíamos pessoas para batizados ou casamentos) a fazer matérias de quatro a cinco páginas, e até vinte só com moda”, explica ela, que ficava surpresa ao ver as pessoas, nas ruas, vestindo os truques de styling que criava nas páginas, muitos deles antecipando, de alguma maneira, o que era visto nas passarelas durante as semanas de moda internacionais.
Naquele período, não era permitido publicar as imagens dos desfiles antes de um prazo de cinco meses. “O que eu fazia era acompanhar com o styling um pouco daquilo que eu tinha visto para o futuro. Era aos poucos, né, sem estragar a novidade, porque senão quando chegasse a hora já tinha gastado tudo”, diz. Mas ela percebia o que tinha sido influência do seu trabalho. “Quando eu via alguém usando, eu pensava: ‘Gente, isso eu que inventei’. Então, você percebia o quanto você influenciava também na maneira como as pessoas se vestiam, na vida real.”
A primeira influencer
Enquanto isso, seu estilo pessoal também seguia em transformação. Com a revolução dos designers japoneses Rei Kawakubo e Yohji Yamamoto em Paris, ela ficou encantada pela praticidade e pela diversão de se vestir de preto, com peças assimétricas, um tanto diferentes dos padrões ocidentais da época. “Quando eu ia visitar a minha filha, que estava na faculdade, ela dizia: ‘Mamãe, venha vestida de mãe, por favor’”, lembra. “Eu respondia: ‘Ah, tá bom’, porque entendia que era o pessoal, os pais, as mães e os professores, bem careta da escola americana. Eu me vestia com peças de moda japonesa, de preto.”
Em tempos offline, era a imprensa que levava essa informação diretamente à casa das mulheres, sobretudo quando foi lançada, em 1982, a CLAUDIA Moda. “Essa revista era um absurdo. Eu tinha que fazer 150 páginas, entre quatro e cinco vezes por ano. Trabalha com uma ou duas assistentes naquele tempo, não é como hoje que tem 20 pessoas para ajudar a fazer uma capa”, lembra ela, que gostava de encontrar lugares legais para fotografar, ao lado de nomes como J.R. Duran e Antônio Guerreiro. “Ficava muito feliz quando o resultado ficava bom, porque era difícil administrar”, comenta. Esse ritmo seguiu até o final da década de 1980, quando Costanza decidiu sair da Editora Abril para assumir a tecelagem Santaconstancia. “A minha mãe começou a ficar cansada e meu pai estava doente. Precisei dar continuidade ao negócio da família”, lembra.
Desde então, Costanza se consolidou como uma grande influenciadora — antes mesmo de o termo ser sequestrado pelas redes sociais —, seja como consultora, colunista ou simplesmente por sua própria figura, com o penteado puxado para cima, adotado para uma festa em 2015 e transformado em assinatura de estilo. Inteligente, cheia de ideias e curiosa, ela se mantém relevante. Aos 86 anos, lembra que o episódio da sua primeira separação — aquele que a obrigou a procurar trabalho e começar de novo, no qual perdeu a guarda das suas filhas e foi deserdada — também serviu para fortalecê-la. “Foi nessa época que senti a força das mulheres da minha família, minha avó e minha mãe, mulheres à frente do seu tempo.” Costanza, tão visionária, tinha a quem puxar.
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