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Camisas da Copa 2026: especialistas apontam acertos e erros das marcas

Especialistas analisam os destaques, erros e tendências das camisas

Por Allana Ostan 9 abr 2026, 18h50 • Atualizado em 9 abr 2026, 18h53
O que os uniformes da Copa 2026 dizem sobre moda, cultura e pertencimento (1)
Da tradição reinventada às apostas mais ousadas, os uniformes da Copa 2026 mostram como futebol, moda e identidade caminham juntos dentro e fora de campo (Adidas/Divulgação)
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  • As camisas das seleções para a Copa do Mundo de 2026 — que acontece entre junho e julho nos Estados Unidos, México e Canadá — chegaram embaladas em narrativas de identidade, história e ousadia. E, como de costume, geraram entusiasmo e polêmica na mesma medida. 

    São 48 seleções competindo no maior Mundial da história, e as três gigantes do setor — Adidas, Nike e Puma — vestem, juntas, 77% dos times classificados. A Adidas lidera com 14 seleções, incluindo Alemanha, Argentina e Espanha.

    A Nike patrocina 12, entre elas Brasil, França e Inglaterra. A Puma veste 11 países.

    Mas além dos números, o que realmente está em jogo é uma disputa mais sutil: quem é capaz de transformar uma camisa esportiva em objeto de desejo, símbolo cultural e declaração estética? 

    A seguir, veja a opinião de especialistas em moda, design, esporte e cultura para uma análise completa dos acertos (e erros) das marcas:

    O que as marcas acertaram?

    A tendência mais clara desta edição é o investimento em narrativa. As marcas entenderam que, em Copa do Mundo, uma camisa precisa contar uma história; quem entendeu isso certamente saiu na frente.

    Para Lara Gruppi, jornalista esportiva e criadora de conteúdo, Adidas e Puma foram as que mais acertaram nesse quesito. “Em Copa do Mundo, a camisa vai além de vestir o jogador em campo. Ela precisa transmitir história, cultura e pertencimento, e essas duas marcas entenderam bem esse papel”, afirmou.

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    Uniformes do Chile e Alemanha carregam simbolismo histórico

    O uniforme do Chile, inspirado no deserto do Atacama, e o da Alemanha, que faz referência às camisas históricas de 1990 e 2014, são exemplos citados pela jornalista de designs capazes de criar conexão emocional, oferecendo uma narrativa para o público. 

    A decisão da Adidas em lançar os segundos uniformes como parte da linha Originals foi elogiada. “É uma proposta lifestyle, que amplia o alcance das camisas para além do futebol. A Copa do Mundo é um momento em que o esporte ganha atenção global, então faz sentido aproveitar essa vitrine para furar a bolha e dialogar também com moda e cultura”, afirma a jornalista.

    Resgate de estética setentista

    Ana Vaz, consultora de imagem e personal stylist, apontou que uma das grandes tendências desta Copa é o resgate da estética dos anos 70, com elementos como fundo branco, paleta contida e linhas simples. “Por isso, essas camisas são muito comerciais, fáceis de levar para o dia a dia”, comentou.

    Nesse grupo, ela destaca Japão, Alemanha e Marrocos.

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    Na camisa reserva do Japão, elogia a sutileza das listras que mantêm o branco em destaque, preservando a neutralidade da peça.

    Na Alemanha titular, chama atenção para um detalhe de construção: os grafismos concentrados na região dos ombros criam diagonais que conduzem o olhar para cima. “O ombro mais forte remete à sensação de força física”, explica.

    Já o Marrocos surpreende com um detalhe do artesanato local na frente.

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    As camisas do Japão, Alemanha e Marrocos são tradicionais, porém ganham nos detalhes (Reprodução/Reprodução)

    Uniforme da Costa Rica surpreende positivamente

    Ainda nos acertos, a consultora aponta a Costa Rica como uma surpresa positiva. A camisa mistura vermelho e roxo — uma cor que representa a orquídea Guaria Morada, flor nacional do país.

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    “Ela tem uma modelagem aderente ao corpo sem ser excessiva. Em campo, terá uma altíssima visibilidade: as cores são bem saturadas, puras, e contrastam bastante com o gramado”, diz.

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    O vermelho vibrante da Costa Rica ganha um toque inesperado com grafismos que puxam para o lilás (Fifa Store/Reprodução)

    Argentina aposta em grafismo com movimento

    A Argentina reserva também agrada: grafismos com movimento orgânico resultam em uma peça comercial e versátil para o dia a dia. 

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    Grafismos fluidos e identidade forte: a Argentina reserva prova que tradição também pode se reinventar com elegância (Divulgação/Divulgação)

    Para Ana, algumas camisas desta Copa acertaram ao entender como o uniforme funciona no corpo em movimento e em campo. É um olhar que une estética e função e que, de acordo com a especialista, raramente é aplicado ao futebol masculino com essa profundidade.

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    O ponto de vista do design

    A designer e analista de marcas Tati Lermen enxerga nessa Copa um movimento inédito de maximalismo cultural.

    “Em 2026, o maior palco do futebol mundial virou também palco de identidades culturais. As camisas desta edição são um capítulo à parte: maximalismo cultural, resgate histórico e orgulho nacional costurados em cada detalhe. Nunca o uniforme disse tanto sobre cada país”, afirma. 

    Para a analista de marcas, o México é o exemplo mais completo dessa tendência. “O grafismo é inspirado no calendário asteca, a tipografia da gola foi batizada de ‘Aztechno’ e a frase ‘Somos México’ aparece nas cores da bandeira. A camisa reserva ainda traz as grecas da arquitetura mesoamericana em tom sobre tom. São duas camisas que, juntas, contam uma história inteira”, explica. 

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    Referências culturais e padrões ricos fazem do uniforme mexicano um dos mais detalhados (Fifa Store/Reprodução)

    A França também é elogiada por um acerto de outra natureza — a elegância que dispensa explicação. “A gola polo estruturada em branco, o azul profundo, as linhas diagonais no tecido. Essa camisa transcende o futebol: ela funciona como peça de moda e, vindo do país que define o que é moda, isso claramente não é acidente. É uma declaração cultural vestida de uniforme esportivo, e provavelmente vai circular em editoriais muito antes do apito final”, comenta.

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    Camisa da França com gola, estilosa e moderna (Nike/Divulgação)

    Os erros das marcas: o que faltou nas camisas?

    Se por um lado as marcas avançaram no quesito identidade cultural, por outro, algumas escolhas geraram ruído e abriram espaço para um debate que vai muito além do design. 

    Estados Unidos entrega resultado decepcionante

    Ana Vaz identificou dois uniformes que não funcionam bem no corpo. O primeiro é a camisa titular dos Estados Unidos: apesar do contraste entre branco e vermelho ser interessante, há um problema estrutural. “O fato da peça ser inspirada na bandeira tremulando faz com que você tenha um desenho estranho no corpo. Essa é uma camiseta que não vai vestir tão bem quanto outras”, declara. 

    Camisa reserva da Alemanha é pouco ousada

    A camisa reserva da Alemanha, apesar de ter uma combinação de cores chamativa, traz um resultado tímido: “Os detalhes minúsculos, espaçados, remetem a uma camiseta de pijama, especialmente pelo estilo do decote V.”

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    Nem toda aposta funciona: camisas dos Estados Unidos e Chile decepcionam  (Reprodução/Reprodução)

    Segundo Tati Lermen, o erro mais frequente é não saber quando (ou não) inovar. Sobre o Chile, ela defende a ousadia: “É a primeira vez que a seleção usará uma cor diferente do branco ou azul. É natural que uma camisa tão diferente do esperado gere estranhamento, mas transformar um fenômeno natural em identidade visual é exatamente o que um uniforme deveria ter coragem de fazer.” O erro, em sua leitura, está em camisas que tentaram inovar sem uma razão clara por trás.

    Brasil: a camisa mais esperada

    Para a Copa de 2026, a Seleção Brasileira chegou com duas apostas: uma segura e outra ousada.

    A camisa titular manteve o amarelo vibrante de sempre, com design que resgata a essência histórica do uniforme canarinho. A designer brasileira Rachel Denti, que participou do processo de criação, resumiu a filosofia por trás da peça: “Quando vemos a camisa amarela, sabemos que é o Brasil.”

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    Clássica e afetiva: a amarelinha mantém sua força simbólica, mas o tom mais suave desta edição divide opiniões (Reprodução/Reprodução)

    Do ponto de vista afetivo e clássico, Ana Vaz também elogia a titular: “É uma camiseta bonita, com texturas e desenhos que remetem à fauna, flora, música e arquitetura brasileiras. Dá para ver referências ao Pão de Açúcar, por exemplo. O que eu não gosto é do tom de amarelo desta edição. Ele está mais desbotado, com excesso de branco, o que tira um pouco da força do amarelo canário. Gostaria de ver uma saturação maior”, comenta.

    Camisa reserva gerou controvérsia

    A camisa reserva gerou grande polêmica. Em azul e preto, o modelo traz o logo Jumpman, da Jordan Brand, no peito — marcando uma parceria inédita. É a primeira vez que uma seleção substitui o tradicional símbolo da Nike pelo da Jordan.

    A escolha das cores também não é aleatória: além da ligação com a marca, o design se inspira no sapo-tardo, cujos exemplares apresentam tons de azul e preto.

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    Ousada e cheia de personalidade: a camisa azul aposta em contraste, textura e referências à fauna brasileira para marcar presença dentro e fora de campo (Reprodução/Reprodução)

    Ana Vaz avalia: “Particularmente, acho a camisa muito bonita. Gosto da mistura de cores e da presença que ela terá em campo — é bem escura, então contrasta bem com o gramado, que geralmente é verde médio a claro. As texturas e o movimento do desenho, inspirados na onça-pintada e na anaconda, são incríveis.”

    Ela complementa: “O centro da estampa parece representar o movimento dos jogadores em campo; se você olhar uma foto do Vinícius Júnior chutando a bola, dá para ver como o gesto dialoga com o design. É uma das minhas favoritas.”

    De acordo com Tati, a camisa titular é um acerto preciso, enquanto o deslize veio na tentativa de inovar: “O Brasil resgatou o amarelo-canário que a gente ama, aquele tom vibrante que remete às campanhas de 1970 e 2002. É uma camisa que honra a memória sem ficar presa nela. O deslize foi tentar inovar com o ‘Brasa’, uma versão alternativa que não colou. Às vezes o acerto está em saber o que não mudar”, pontua.

    O design esportivo para peças símbolos de estilo

    Com os lançamentos da Copa de 2026, fica ainda mais claro como a camisa de futebol ultrapassou o campo e se firmou como peça de estilo.

    Esse movimento nasce de uma combinação de fatores: o retorno da estética dos anos 90 e 2000, que resgata esses uniformes como símbolos de uma época, a influência crescente da moda de rua — que transforma peças esportivas em itens desejados e até colecionáveis — e uma mudança de comportamento, em que vestir uma camisa já não depende mais de torcer, mas de se identificar com o que ela comunica.

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