Ela tatua mulheres maduras — e ajuda a curar feridas invisíveis
Milena Castro trocou a carreira jurídica com o propósito de fortalecer a autoestima de mulheres
Minha mãe perdeu meu pai há poucos meses, aos 59 anos. E para não sucumbir à dor, passou a viver uma jornada de autodescoberta – uma delas, talvez a mais importante, tem a ver com encontrar seu lugar no mundo para além de um parceiro.
Academia, novos cursos e passeios com amigas são novos eventos em sua agenda, que também abrigou um dos dias mais marcantes de sua vida: a primeira tatuagem. A única coisa que me preocupou foi que ela encontrasse uma boa profissional. Afinal, a agulha pintaria algo em sua pele para o resto da vida.
“É uma pessoa especializada em peles maduras“, ela disse – despreocupada. Ao chegar no estúdio intimista e acolhedor em Pinheiros, São Paulo, fomos recebidas por Milena Castro. Ela apresentou o desenho pedido e acalmou os medos que minha mãe sentia – da agulha que representava a metáfora de uma vida inteira sendo reprimida por si própria e pelo patriarcado.
Transição de carreira
“Trabalhei por 15 anos na área jurídica e construí uma carreira sólida. Mas não via um propósito no que eu fazia. Para mim, era tudo muito robótico”, conta Milena.
Após um divórcio difícil e a perda da mãe, ela começou a pensar em um rumo diferente. “Queria fazer algo com as minhas próprias mãos, com meu jeito e minha intuição. A vontade era de lidar com pessoas”, completa. Foi aí que caiu em um estúdio de tatuagem – que tinha um curso que ensinava o ofício. Entendeu, portanto, que essa era uma profissão como qualquer outra.
“Ingressei sem saber para onde eu estava caminhando. Desenho nunca foi uma habilidade, mas aprendi pintura a óleo, desenhos no papel… A coisa foi fluindo”, diz. Milena começou a trabalhar com isso em 2022 e se encantou de cara – era isso que sempre sonhava. “Consigo contribuir de alguma maneira com o outro.”
Uma questão social
Aos poucos, a especialista percebeu que havia um padrão em quem a procurava: eram mulheres vivendo a maturidade que sentiam a necessidade de se reencontrar. A maioria nunca tinha se tatuado ou viveram muitas restrições – desde as profissionais, religiosas, familiares ou até por puro preconceito.
“Muitas delas já chegaram a falar pra mim que era um sonho ter uma tatuagem, mas faltava coragem. Outras se achavam velhas e antiquadas para algo que parece ser tão jovem”, revela.
O machismo não fica de fora: há homens que proíbem as parceiras de fazer um desenho no corpo. “Uma vez uma moça chegou no estúdio com o marido e ele ficou tirando tanto sarro daquele momento que ela quase desistiu. Precisei interferir e pedir para ele parar.”
É fácil ficar confortável na presença de Milena. Com escuta ativa e bom papo, ela entende a necessidade de pertencimento e nos aconselha a busca pela autoestima. “
Outro dia, atendi uma senhora de 84 anos. Não importa a idade dela, aquele foi o momento que ela tomou coragem. Por isso, vou fazer o que for possível para que ela se sinta à vontade”, reflete. “Já recebi mulheres que passaram por casos super complicados e chegam com vergonha de si mesmas. Elas saem dali se sentindo mais bonitas, mais sexys.”
Foi exatamente o que aconteceu com a minha mãe: depois de um beija-flor estampado na panturrilha, ela ressignificou a morte de seu companheiro e saiu de lá com a alma pelo menos 20 anos mais jovem. Hoje, ela anda por aí com mais confiança e sai exibindo sem medo as pernas na rua.
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