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Mais da metade das brasileiras passou a cuidar de alguém na pandemia

Como a sociedade patriarcal reserva à mulher a função e ainda desvaloriza o trabalho não remunerado, nos vimos mais sobrecarregadas

Por Gabriela Teixeira (colaboradora) - Atualizado em 16 out 2020, 14h53 - Publicado em 16 out 2020, 16h00

Com a pandemia, disparou a necessidade de cuidados para com crianças, idosos, enfermos e pessoas com necessidades especiais. Como a sociedade patriarcal reserva à mulher a função e ainda desvaloriza o trabalho não remunerado, nos vimos mais sobrecarregadas

 

“Tudo virou de ponta-cabeça”, resume Adriana*, 41 anos, ao falar sobre sua rotina nos últimos meses. A pandemia do novo coronavírus chegou como um furacão em sua casa. Antes, todas as manhãs, ela acordava às 6 horas, deixava o almoço pronto, organizava o uniforme do filho e saía para trabalhar pontualmente às 7h50.

De terça a sexta, no fim da tarde, frequentava com o marido e o filho aulas de capoeira, ginástica e ioga. E ainda realizava mais algumas tarefas domésticas antes de ir dormir. Em março, com as medidas de isolamento social, a assessora de comunicação adotou o regime de home office e as aulas do filho passaram a ser online.

Apenas o marido, técnico de enfermagem, seguiu trabalhando e fazendo plantão em dois hospitais. “Está uma bagunça. Vou me desdobrando entre auxiliar meu filho com as atividades da escola, pensar no trabalho, fazer o lanche da tarde, cuidar da casa, do cachorro…”, desabafa.

Adriana é mais uma brasileira que assumiu a responsabilidade de cuidar de alguém durante a pandemia. Segundo relatório da Sempreviva Organização Feminista (SOF) e da Gênero e Número, coube à metade das mulheres do país a incumbência.

Ao mesmo tempo, intensificou-se o trabalho doméstico (chamado de invisível por não ser considerado como ocupação nem trazer retorno financeiro), em especial afazeres como preparar a comida, limpar a casa e lavar a louça.

Não se trata de um fenômeno novo, mas do agravamento do problema histórico criado pela divisão desigual do trabalho, que instituiu o ato de cuidar, seja do lar ou de outra pessoa, como encargo exclusivamente feminino.

“O capitalismo produziu uma separação entre o trabalho produtivo e o reprodutivo, tirando deste último o valor social e criando uma hierarquização”, explica Márcia Macedo, socióloga e pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

“Nesse contexto, restou às mulheres os cuidados da casa, dos outros e principalmente das crianças. A crítica que se faz a essa divisão é que ela cria esferas opostas, onde apenas uma geraria retorno, mas essa oposição é falsa. Ambos os trabalhos são agregadores de valor social. A reprodução é fundamental para que haja produção.”

Apesar das mudanças no status social feminino, essas concepções permanecem profundamente arraigadas na sociedade contemporânea e não faltam razões que expliquem tal persistência, desde a estrutura patriarcal e misógina até organização capitalista, passando pelos fundamentos religiosos.

“Seja tomada como palavra de Deus ou mandato da natureza, existe uma crença na diferença necessária e imutável de gênero, que fornece legitimação para a manutenção das desigualdades”, diz Bila Sorj, socióloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). As raízes desse mal estendem-se também para as conquistas do movimento feminista.

“Na educação superior, ainda que sejam grandes os avanços feitos pelas mulheres, suas escolhas profissionais concentram-se nas carreiras relacionadas aos cuidados: pedagogia, enfermagem, serviço social, psicologia”, exemplifica.

Apesar de, desde meados do século passado, as mulheres terem ingressado no mercado de trabalho, as tarefas domésticas, que sempre foram atribuídas a elas, não foram partilhadas com os homens.

Segundo análise da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad Contínua) divulgada em junho pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2019 eles gastaram cerca de 11 horas por semana com os afazeres domésticos, enquanto entre elas a média alcançava 21,4 horas.

Quase um dia inteiro direcionado a funções que geram benefícios para todos do lar. Entre os efeitos dessa disparidade, Bila aponta a sobrecarga feminina e a incorporação das mulheres como mão de obra em empregos mais precários, com carga horária reduzida, ou a escolha por atividades autônomas que lhes permitam conciliar a dupla jornada.

O outro é prioridade

A pesquisa da SOF mostra que 27% das mulheres estão responsáveis pelo cuidado de idosos, enquanto 3,5% prestam assistência a pessoas com deficiência. Aos 27 anos, Joyce Costa se enquadra neste último grupo. Casada e mãe de uma menina, além de cuidar do próprio lar, ela se dedica a auxiliar a mãe e a irmã, ambas com artrite reumatoide, e o irmão caçula, que tem síndrome de Down.

Joyce dispõe de apoios pontuais do irmão do meio e do marido, pois, segundo ela, ambos trabalham bastante. Atualmente desempregada, Joyce conta que a fase mais difícil foi quando, com o afrouxar das medidas de isolamento, precisou retomar as atividades como caixa na empresa de semijoias em que trabalhava.

Foto/Getty Images

“Eu me sentia bastante sobrecarregada porque havia muita responsabilidade no trabalho, pressão. E também ficava preocupada com o risco de passar alguma coisa para eles, que têm imunidade baixa. Era bem desgastante.”

O estresse a levou a sofrer com crises de ansiedade e frequentes dores de cabeça. Ao procurar o atendimento psicológico oferecido pela empresa, Joyce ouviu da profissional que deveria pensar mais nela e menos nos outros. “Mas é complicado”, rebate.

Em esforço semelhante para equilibrar a vida profissional e doméstica, Adriana também desenvolveu problemas de saúde, desencadeados principalmente pela constante pressão exercida pelo chefe. “Com o home office, ele ficou mais inseguro e controlador. Há uma cobrança maior e constante por produtividade. Mesmo quando adianto todo o serviço, ele inventa coisas banais para me manter ocupada”, revela.

Com o surgimento de dores no corpo, a assessora recorreu a diversas terapias, mas os tratamentos não são capazes de aliviar por completo a fadiga. “Eu já levanto cansada. Mesmo com sono, não consigo dormir direito. Acordo de madrugada pensando se deixei alguma tarefa inacabada, se serei cobrada por isso.”

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A rotina faz ainda com que ambas as mulheres abdiquem do autocuidado para atender às necessidades daqueles que dependem delas. “Às vezes me programo para fazer uma coisa, mas minha irmã precisa ir ao médico e tenho que mudar meus planos para acompanhá-la. Se é algo que pode ficar para depois, dou prioridade a ela”, conta Joyce. Ela avaliou a possibilidade de contratar um cuidador, mas a despesa não coube em seu orçamento. “Não compensava. O valor era o meu salário inteiro.”

Para qual lado a balança pende

Ao escancarar o peso do trabalho invisível, a pandemia também reforçou o impacto das desigualdades de raça e renda. Conforme aponta o relatório da SOF, dos 12% de mulheres que puderam contratar alguém para assumir a função de cuidado, 52,4% eram brancas.

Das que não contavam com nenhum apoio externo, 54% eram mulheres negras, justamente a maioria quando se trata da força de trabalho doméstico e de enfermagem, como indicam dados da Pnad 2017 e do Conselho Federal de Enfermagem.

A socióloga e professora Jucimeri Silveira, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), explica que essa realidade de opressão enfrentada por negras, pobres e periféricas é aprofundada pelo racismo estrutural brasileiro. “O processo colonizador não foi superado e pode ainda ser identificado concretamente na vida das pessoas. Mesmo que o trabalho da mulher negra seja útil ao sistema, a estrutura racista, patriarcal e capitalista se atualiza, mantendo velhos determinantes, e o papel de corpo a ser explorado se faz presente, criando as relações desiguais.”

Se famílias abastadas não encontram dificuldades em transferir a carga de cuidados, quem se responsabiliza pelo lar de quem cuida? Trabalhando em uma cooperativa de home care, a auxiliar de enfermagem Maria Dias, 42, passou boa parte do mês de setembro longe da família.

Contratada para cuidar de uma idosa de 103 anos, ela só voltava para casa nos fins de semana, recorrendo às chamadas de vídeo quando queria ver os filhos e o marido. “Eu nunca havia ficado uma semana inteira fora de casa, era sempre um dia, uma noite. Desde que comecei a trabalhar como cuidadora, há quatro anos, essa foi a fase mais difícil”, diz.

No primeiro sábado em que retornou para casa, Maria se ocupou o dia todo com a faxina, pois ninguém havia feito as tarefas que ela tinha recomendado. “Fiquei brava, mas conversamos e eles entenderam que eu estava sobrecarregada. O fim de semana seguinte foi mais light. Conseguimos passar mais tempo juntos porque cada um tinha cumprido sua parte.”

Embora classifique seu trabalho como mais de companhia do que de cuidado, a auxiliar de enfermagem sentiu o impacto da situação logo nos primeiros dias. “O apartamento era grande e não havia restrição de espaço, mas tenho claustrofobia e estávamos sempre trancados lá dentro. Eu precisava ir para a área de serviço, que era mais arejada. Na quinta-feira, sofri com uma crise de ansiedade e fiquei repetindo para mim mesma que só faltava mais um dia, que logo veria meus filhos e iria melhorar.”

Ela não falou nada sobre o episódio aos patrões, pois achou que eles iriam se desesperar com qualquer demonstração anormal de comportamento dela por estarem no grupo de risco e com medo aumentado. Um dos requisitos para sua contratação havia sido justamente que já tivesse contraído o Sars-CoV-2 e se recuperado.

Exigências desse tipo se tornaram comuns para conseguir emprego nos últimos meses – ainda que não existam estudos suficientes para determinar os riscos de recontaminação do vírus –, mas são apenas a ponta do iceberg na vida de uma cuidadora profissional.

Foto/Getty Images

No dia da entrevista para CLAUDIA, Maria havia declinado uma proposta para trabalhar na casa de outra idosa. A oferta demandava disponibilidade integral durante um mês, com direito a apenas uma folga. Além de cuidar da paciente, também teria que lavar, passar e cozinhar.

A remuneração oferecida era 1,6 mil reais, valor que Maria costuma receber por mês por 12 horas diárias de trabalho. “Ouvi que, se estou precisando, não posso ficar recusando. Mas não enxergam que a minha profissão tem funções fixas. Eu não sou uma faz-tudo. E também não há dinheiro que pague ficar longe da família, do aconchego.”

Ansiosamente aguardado, o fim da pandemia dificilmente virá acompanhado de uma transformação capaz de reverter essa conjuntura. Se, a princípio, a crise da Covid-19 colocou sal na ferida das desigualdades, gerando uma mobilização para que essas problemáticas fossem discutidas na arena pública, agora o que se vê é uma naturalização.

A socióloga Márcia chama a atenção, por exemplo, para a romantização do home office, que supostamente permitiu a união do melhor dos dois mundos, quando na verdade fez o oposto, levando trabalho a um ambiente que já é ocupado por outra lógica. “Vamos nos acostumando. É como uma doença que, uma vez identificada, permanece em estado agudo e se torna crônica. Em algum momento ela estaciona, mas em uma curva ascendente”, descreve.

“Ao trazermos à luz a situação insustentável da multiplicidade de responsabilidades atribuídas às mulheres, esperávamos que isso produzisse mais do que desconforto, que motivasse um delineamento de políticas públicas”, continua. “Deveria comprovar que a submissão criada pela divisão sexual do trabalho é incompatível com o modelo contemporâneo de uma mulher que trabalha, produz renda e cuida dos filhos sozinha”, sugere a socióloga.

Ainda é cedo demais para falar em retrocessos permanentes, mas pesquisadoras demonstram preocupação com o que o futuro reserva para as mulheres. “O cenário da pandemia nos coloca várias incertezas quanto às suas consequências”, diz Jucimeri. “Existem evidências de aumento das violações e transformações no mundo do trabalho que precisam ser debatidas, mas essas discussões não podem apenas constatar que existe uma desigualdade que afeta mais as mulheres.”

Bila levanta a possibilidade de que no pós-pandemia as mulheres se encontrem em situação desvantajosa para se reposicionar profissionalmente por estarem sobrerrepresentadas nas atividades informais ou em nichos de ocupação com menor chance de se manter por meio de sistemas remotos.

“Para que a assimetria de gênero seja reduzida, há a necessidade de novos arranjos produtivos e de um mercado de trabalho mais amigável ao desempenho das funções fora do escritório, permitindo que os homens desloquem parte considerável do tempo que dedicam ao trabalho remunerado às atividades domésticas e de cuidado”, acrescenta.

De qualquer maneira, a questão precisa ser mantida em visibilidade. “Da mesma forma que os produtos culturais reforçaram a divisão até aqui, eles não podem, ao registrar esse momento mundial, deixar passar batido o modo como as mulheres foram atingidas”, afirma Márcia.

Afinal, os impactos de hoje ainda acompanharão milhares de Joyces, Marias e Adrianas por um bom tempo. “O cansaço é imenso e estou tão afetada emocionalmente que acho que vai demorar para me recuperar de tudo isso. Precisarei de tempo para me livrar da carga negativa que estou acumulando”, lamenta Adriana.

O que falta para termos mais mulheres eleitas na política

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