Marcos Mion: “A família exige que eu seja minha melhor versão”

Aos sábados, ele diverte o público com o programa Legendários, na Rede Record. Mas é como pai e marido que ele revela seu lado mais sensível e verdadeiro

Engana-se quem acha que encontrará, longe dos holofotes, o Marcos Mion escrachado e barulhento da TV. No dia da entrevista com CLAUDIA, entrou pela porta do estúdio um homem sereno, sério e até introspectivo – mas, ainda assim, bem-humorado. “Já estou acostumado com essa reação”, disse ele, rindo, quando confrontado com a expectativa. “Lembro que, na época da MTV, encontrava fãs no supermercado e eles ficavam decepcionados porque eu não estava jogando sucrilhos para o alto ou gritando”, continuou.

A verdade, segundo Mion, 37 anos, é que ele sempre foi maduro para a própria idade. Aos 17, já preocupado em manter a independência financeira, tinha dois empregos. Aos 16, queria ter um filho: “Foi meu pedido quando assoprei as velas do bolo. Meu sonho era ser pai até os 21”. O objetivo foi alcançado três anos depois da meta, ao se casar com a designer Suzana Gullo, então com 27. “Além da paixão à primeira vista arrebatadora, compartilhávamos os mesmos valores. Ouvimos de todo mundo que era cedo, que precisávamos namorar mais, mas sentíamos que era para valer”, conta. Onze anos e três filhos depois, Mion se declara ainda mais apaixonado pela mulher e garante que as dificuldades fizeram dos dois uma dupla imbatível. A família é justamente o tema da nova empreitada dele: um livro infantil sobre o autismo, espectro do qual seu primogênito, Romeo, 11 anos, faz parte.

A seguir, Mion fala de A Escova de Dentes Azul (Panda Books, 39,90 reais), da criação dos filhos segundo os preceitos católicos e do amor por Suzana.

Por que decidiu transformar a história de Romeo em livro infantil?
A questão do preconceito precisa ser mudada desde cedo, e você só faz isso quando explica a condição e permite que as crianças entendam por que o colega é diferente. A história da escova de dentes azul surgiu no Natal do ano passado, quando Romeo pediu uma de presente – algo tão simples, enquanto os irmãos queriam brinquedos caros. Poderia ter passado batida por mim, mas me condiciono a observar os pequenos aprendizados que meu filho me proporciona. Além disso, eu me tornei um tipo de porta-voz e levo esclarecimentos sobre a doença às famílias. No Brasil, há 2 milhões de pessoas diagnosticadas, fora as que sofrem por não ser compreendidas.

Qual sua primeira reação ao saber da condição do Romeo?
Suzana teve uma gravidez muito complicada e já sabíamos que poderia ter alguma consequência. Só que, desde que ele nasceu, nunca deixei que dessem um diagnóstico. Posso estar errado, mas acho que só serve para rotular e travar. De mim e da mãe, ele recebeu amor incondicional. E sempre contou com nossa paciência. Em geral, o autista vai se fechando no próprio mundo, se isolando, mas conseguimos quebrar muitas dessas barreiras com nossas atitudes. Eu o abraçava até que parasse de se debater e reclamar e fazia com que ele olhasse dentro dos meus olhos. Hoje, isso é natural para ele. Romeo exige que eu seja a minha melhor versão todos os dias.

Como os irmãos lidam com ele?
Chegou um momento em que tive de explicar para Donatella (hoje, 7 anos) e para Stefano (5 anos), mas não queria que fosse uma conversa formal, séria. Aí fiz uma analogia com super-heróis. Disse que Romeo tinha dons que nós não temos, que ele consegue se comunicar com a natureza e que é por isso que se sente tão pleno em ambientes externos. Eles acharam o máximo!

“Essa família do comercial de margarina não existe. Hoje tenho o maior orgulho de olhar para trás e ver o que construímos. A Suzana me atrai e a amo infinitamente mais do que quando tinha 20 e poucos anos”

Marcos Mion

Você sempre tem essas conversas com as crianças?
Essa geração é totalmente diferente da minha. Meu pai era rígido, mandava para o quarto de castigo. Isso não funciona hoje. Tudo é à base de conversa. E eles me surpreendem. Então, vou aprendendo com a experiência. Com a internet, conseguem ter todas as informações à mão e chegam com mil perguntas. Eu leio muito, testo teorias diferentes. Mas, acima de tudo, acredito em criar meus filhos o mais perto possível da religião católica e da palavra de Cristo. Não estou aqui pregando, mas, com o passar dos anos e os desafios que apareceram na minha vida, a fé faz cada vez mais sentido. Comparo-a com a força de Guerra nas Estrelas para entenderem. Rezamos juntos toda noite e ensino que eles precisam agradecer antes de pedir. E que, se for para pedir, tem de ser saúde, não um brinquedo. Aos domingos, vamos todos à missa. Eu e Suzana, sem eles, vamos pelo menos mais duas vezes por semana.

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O que você gosta de fazer com o trio?
Tudo! Brinco muito, levo ao teatro, vou às aulas de música e de ginástica para assisti-los. Sou eu que os acordo, visto para a escola, faço o penteado da Donatella. Acho esse incentivo fundamental. Minha mãe era assim comigo e foi essencial na minha criação.

Você tem um perfil no Instagram só para seus treinos, o @teamtreta. Como arruma tempo para malhar com essa rotina apertada?
Há cinco anos, disse para Suzana que queria experimentar esse lifestyle diferente. Meu sonho era viver a rotina de um halterofilista, mas precisava que ela topasse porque nossa vida ia mudar. Acho que ela aceitou sem desconfiar de quão a sério eu ia levar. Hoje, como frango com batata-doce no café da manhã e as crianças pegaram gosto. Então, mandam ver um prato de macarrão logo cedo. Os exercícios acabaram ganhando tanta importância quanto meu trabalho na TV. Tenho contratos com marcas e dedico metade do meu tempo profissional a isso. O treino é a parte boa. É a alimentação que dificulta, mas sou persistente. Sinto cheiro de bolo saindo do forno e resisto (risos).

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Nas redes sociais, você e Suzana são descritos muitas vezes como “o casal perfeito”. Existe isso?
Essa família do comercial de margarina não existe. Quando éramos jovens, fizemos aquela cerimônia de casamento linda, tudo fluindo e, de repente, fomos arrebatados pela realidade: tivemos um filho autista. Os desafios continuaram vindo e lutamos juntos. Suzana acaba de vencer uma batalha contra o câncer de mama. Foram muitas crises, mas a diferença é que sempre optamos por deixar o amor vencer em vez de nos separarmos. A família é nosso alicerce; então, resolvemos sair mais fortes de cada dificuldade. Hoje, tenho o maior orgulho de olhar para trás e ver o que construímos. Suzana me atrai e a amo infinitamente mais do que quando ela tinha 20 e poucos anos, toda bronzeada e com a barriga chapada.