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Fernanda Montenegro recebe apoio de artistas após críticas de diretor

A polêmica surgiu após uma foto da atriz criticando a censura

Por Da Redação Atualizado em 17 fev 2020, 13h08 - Publicado em 24 set 2019, 14h57

Fernanda Montenegro acaba de lançar sua autobiografia Prólogo, Ato, Epílogo, na qual relata sua trajetória de sete décadas dedicadas ao trabalho nos palcos. Na obra, ela também aborda política, ainda que deixe as críticas para entrevistas, como fez ao comentar na Folha de S. Paulo sobre as ações do governo Bolsonaro relativas à produção cultural no país. “Agora é pior. Antes era só político, agora é também moral, por razões de comportamento. ‘Teatro é espaço do demônio'”, declarou.

Não perca o que está bombando nas redes sociais

Mas foi ao posar para a revista Quatro Cinco Um, que a atriz se viu envolta em uma polêmica. Na capa, ela é retratada como uma bruxa prestes a ser queimada junto com livros em uma fogueira, crítica aos recentes episódios de censura.

A foto desagradou Roberto Alvim, atual diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte. Em seu Facebook, ele chamou Fernanda de “sórdida”, classificou a revista como “esquerdista” e pediu por uma renovação da atual classe teatral brasileira. Veja, abaixo, a publicação:

Facebook/Reprodução

O post repercutiu nas redes sociais e diversos artistas e outras personalidades notórias saíram em defesa da atriz. Com a hashtag #SomosTodosFernanda, que foi criada em resposta aos comentários de Alvim, os posts de apoio surfaram pelo feed das redes. Instituições como o Memorial da América Latina e a Associação dos Produtores de Teatro (APTR) também repudiaram as declarações. Confira:

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Somos todos Fernanda!! Admiro, amo, exemplo de mulher e profissional, a melhor, a maior, a mais querida, nossa referência, o nosso muito obrigado por tudo. Fernanda vc é e sempre será maravilhosa! Um beijo!♥️

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#Repost @julohmann dona Fernanda. uma das maiores potências e grandezas desse país. qualquer discurso de ódio contra essa brava mulher será de uma pequenez inaudível. viva Fernanda Montenegro! #somostodosfernanda

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É inacreditável que quase aos 90 anos ela tenha sido agredida de forma canalha simplesmente por pensar diferente. Nada como o tempo para colocar todos em seus merecidos lugares. Você me representa, Fernanda.🌷

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É preciso calma e serenidade mas firmeza também diante do psicopata social. O fascismo tem fascínio pela agressividade desmedida, pelo xingamento gratuito, pelo desaforo vulgar. Intentam assim, os fascistas, nos atrair para a incivilidade; pois é apenas lá, numa terra sem lei, que eles tem chance de vitória. A barbarie é o habitat natural do fascista. Não é por acaso que Roberto Alvim veio atacar Fernanda. É justamente porque ela é o ponto máximo da nossa civilidade, como dela já disse Caetano Veloso. Eu tive a sorte e a honra de trabalhar com Fernanda por mais de uma vez. Para além de ser a atriz estupenda que ela é, Fernanda é, sobretudo, uma pessoa da mais sublime qualidade humana. Gentil, generosa, amorosa, de uma inteligência que faz tremer o pensamento; e humilde, ainda assim. Eu sou um filho artístico de Fernanda Montenegro. Assisti Fernanda no teatro incontáveis vezes, as mesmas peças repetidamente. De “As lágrimas amargas de Petra Von Kant” cheguei a decorar alguns trechos. Fernanda é a minha professora. Fui o filho dela no filme “Redentor”; um dos trabalhos de que me orgulho de ter participado. Falar algo contra Fernanda é ainda mais ridículo do que os ataques a outros imensos artistas brasileiros recentemente desferidos pelos fascistas. Roberto sei lá do que, quer chamar a atenção. Se Roberto nos chama a todos de pobres, e decreta que temos que ser substituídos por uma outra classe artística toda nova, porque não vem ele mostrar para o público a sua arte? Mostre-nos a versão dele da arte do teatro. Se o fizer – o que duvido que faça – ficará evidente porque Fernanda Montenegro é uma grande artista – a maior! – e ele, não; nem nunca foi. Um dos motores do fascismo é o desejo de poder e ascensão social daqueles que se sentiam excluídos do protagonismo do mundo. Uns lá estavam injustamente, por deslealdade do nosso modelo econômico. Outros, por sua pequenez pessoal. Por aqueles, podemos ter alguma empatia; por estes, apenas piedade e cuidado pois eles são muito perigosos. São capacho do poder. Prossegue o plano de instalar um regime teocrático no Brasil. Essas agressões a tudo o que é belo faz parte do plano. Mas a beleza é indestrutível.

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Leia, abaixo, a nota divulgada pela Associação dos Produtores de Teatro (APTR):

“A APTR repudia veementemente as declarações do diretor de Artes Cênicas da Funarte, Sr. Roberto Alvim, em suas redes sociais, onde classifica o não diálogo com a classe artística como uma ‘guerra irrevogável’.

Com a mesma intensidade, repudiamos a classificação da fala de dona Fernanda Montenegro como infantil, mentirosa e canalha. É absolutamente inadmissível que uma atriz com a sua trajetória seja atacada em seu livre exercício de expressão.

Desde que o mundo é mundo, as identidades de todos os povos são construídas através de símbolos, plenos de significados, originando histórias transmitidas de geração em geração. Por este motivo, quando o objetivo é destruir algo, o alvo é sempre o sagrado, o simbólico ou aquilo de maior valor afetivo.

Como cidadão, o Sr. Roberto Alvim pode expressar opinião, independentemente do campo social, cultural e ideológico. Já como gestor público de relevância nacional – ou seja, representando o país como um todo – o mesmo deveria atentar-se à natureza do seu cargo, pautando-se pelo respeito à classe que representa e aos profissionais consagrados por sua atuação. Cuidar da cultura como um importante setor para a economia e a formação de um país trata-se de um exercício diário, ético e respeitoso. O mesmo se aplica ao cuidado que deveria ser adotado ao se referir a uma atriz como Fernanda Montenegro, um símbolo da identidade nacional, com reconhecimento em todo o mundo.

Persistiremos na busca pelo diálogo, pela liberdade de expressão, pelo afeto ao fazer artístico e cultural de nosso país. Tudo isso de forma civilizada e com total respeito à diversidade.”

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