Fernanda Lima fala sobre carreira, casamento e feminismo

Estrela de Amor&Sexo, embaixadora da The Body Shop no Brasil e professora de ioga, ela compartilha seu protagonismo na TV com mulheres sem voz nem espaço

Eu mal havia sido apresentada a Fernanda quando ganhei dela o conselho: “Desligue seu telefone ou ative o modo avião quando for gravar a entrevista. Senão, qualquer alerta pode interromper a gravação e você vai perder tudo”. Ela deve ter flagrado minha falta de jeito com o aplicativo que baixei no celular para registrar nossa conversa. Era minha primeira vez. Depois de tantos anos de entrevistas para a TV, ali estava eu começando numa revista!

Para Fernanda, dar entrevistas não é novidade. Mas estou convencida de que ela está recomeçando também. Fernanda está sempre começando de novo. E sempre pegando uma rota alternativa. É a menina bonita que não fez nada do que se esperava dela. É dona de uma trajetória não ortodoxa que mantém intacta uma doçura incomum. É uma mulher que não sabe não ser feminina no trato e consegue ser muito feminista nas ações. “A vida vai nos calejando, mas pra mim é importante calejar com amor. Não adianta ficar durona, com raiva, vingativa. A caminhada fica dolorida, e não é isso que eu quero pra mim.”

Depois de quatro horas de bate-papo, acompanhado de muito café e brigadeiros, no restaurante do qual Fernanda é sócia em São Paulo, o Maní, da chef Helena Rizzo, voltei para casa e descobri que ela tinha razão. Alguma coisa atrapalhara a gravação, e eu só havia registrado os quatro minutos iniciais da conversa. Antes de procurar saber se havia mais um gravador ligado no local, decidi escrever tudo de memória. Foi quando percebi que gostei mesmo de conhecer Fernanda. Botei ponto final no texto e vi que havia escrito sobre uma pessoa profunda, que entende o momento em que vive porque sabe compreender o outro. Uma mulher agregadora, que aprecia os processos coletivos e reconhece a importância de dividir seu protagonismo. A estrela de Amor & Sexo, da TV Globo, não gosta de brilhar sozinha. Fernanda faz ninhos. Teceu um deles durante nosso encontro e me contou de todos os outros que foi construindo ao longo da vida.

 (Claudio Carpi/CLAUDIA)

GANHAR O MUNDO

“A moda não gostava muito de mim”, conta Fernanda, piscando aqueles olhos grandes e incrivelmente expressivos. Aparentemente, uma imperceptível cicatriz na testa e um rosto comum demais para o mundo da alta-costura tiraram da jovem modelo as chances de sucesso no Japão e na Itália. Mas para ela não importava. O que Fernanda queria mesmo era conhecer outros lugares! Usou a beleza como um trampolim, saltou para longe de Porto Alegre, onde nasceu e, na volta, já aterrissou em São Paulo. Mas o glamour das capas de revista passava longe da vida real na metrópole. “Foi uma fase de muita dureza, de muita solidão. Mas eu sabia que era um período em que eu precisava me construir.

Naquela época, Fernanda só queria fazer a vontade do pai e dar a ele um diploma universitário. Trabalhava e estudava ao mesmo tempo. Escolheu jornalismo simplesmente porque sabia que não queria ser médica nem advogada, nem arquiteta – nem modelo! Já comunicadora… “Reparei que tinha mais facilidade em passar nos testes de vídeo do que nos de foto.” E, de fato, Fernanda acabou descoberta pela MTV, onde comandou o Mochilão, programa de aventuras que a fez realizar o sonho de rodar o mundo.

Depois disso, Fernanda e a TV não se largaram mais – embora a relação tenha tido altos e baixos. Quando substituiu Angélica, em licença-maternidade, no Vídeo Game, pouca gente levou fé. Mas a enxurrada de críticas pesadas veio quando ela interpretou a protagonista da polêmica novela Bang Bang, também na TV Globo, em 2005. “Sofri demais. Fiquei no chão, arrasada. Eu era só uma iniciante. Realmente, eu não era boa, mas é que eu não sou uma atriz. Não escolhi ser uma atriz.” Tanto não escolheu que, quando veio outra chance de substituir Angélica, que estava no fim de mais uma gravidez, Fernanda brigou pelo lugar. “Eu também já estava grávida dos gêmeos, mas não contei pra ninguém, nem na Globo. Tive medo de não me darem o lugar.”

Quando eu conheci o Rodrigo [Hilbert], eu reconheci minha infância, resgatei aqueles valores, sentar-se à mesa com a família no jantar, respeitar os mais velhos, desejar muitos filhos

Fernanda Lima

 (Claudio Carpi/CLAUDIA)

 

O GRANDE AMOR

Fernanda sempre quis ser mãe. “E, quando conheci o Rodrigo, eu achei o pai”, sentencia ela sem nenhuma sombra de dúvida. Fernanda e Rodrigo Hilbert– o casal perfeito do imaginário coletivo – chegaram a se separar na época do redemoinho chamado Bang Bang, que sacudiu a vida da não atriz. Mas ela retomou o controle a tempo. “Quando vi que o Rodrigo tinha arranjado outra namorada e que a coisa estava ficando séria, corri atrás dele e disse: ‘Eu te amo e quero ficar com você!’ Eu não ia perder o homem da minha vida!”. E ficaram. Fernanda comprou um terreno num condomínio do Rio de Janeiro. “Só tinha uma edícula, e nossa piscina era uma caixa d’água. E a gente foi tão feliz ali!”, diz ela com o rosto iluminado pela lembrança de estar fazendo o ninho de uma família. “Quando eu conheci o Rodrigo, eu reconheci minha infância, resgatei aqueles valores, sentar-se à mesa com a família no jantar, respeitar os mais velhos, desejar muitos filhos.” Vieram dois, Francisco e João, hoje com 9 anos. Mas o casal planeja mais. Para breve. “Eu até tenho um medinho, uma gravidez nessa idade (Fernanda acaba de completar 40 anos) significa recuperação física mais difícil, mas o Rodrigo quer muito e ele está sempre do meu lado, ele merece. Agora, durante o intervalo das gravações de Amor & Sexo, vou passar nove meses na Califórnia com toda a família. Os meninos vão pra um lugar que nem é escola, é um centro de enriquecimento com currículo totalmente diferente das escolas tradicionais. E na volta planejamos a gravidez.”

FOCO E FORÇA

Essa clareza para reconhecer o que são os valores de uma vida e separá-los das modinhas de uma época faz Fernanda parecer mais velha do que de fato é. Ou mais sábia. Quando fala dos momentos difíceis, desde a ponta afiada das flechas dos críticos até a dor de perder a melhor amiga (Gisela Matta, produtora do programa Amor & Sexo, saiu de bicicleta da casa de Fernanda, no Rio, em abril de 2013, e foi atropelada, falecendo no dia seguinte), Fernanda não exibe raiva ou tristeza. É como se o sofrimento não deixasse cicatrizes aparentes.

“A nossa mente tá sempre tentando nos trapacear. Então, se tu consegues controlar a tua mente, tu consegues ganhar o mundo”, diz ela referindo-se à ioga, que pratica há 15 anos. “Eu não teria nem tido essa conversa com você se eu não tivesse tido a experiência da ioga, que fez muito sentido pra mim. Eu me encontrei, me conheci, e eu queria muito que as pessoas das comunidades de periferia tivessem essa oportunidade também.” Atualmente, Fernanda mantém um professor que dá aulas a 15 alunos na Cidade de Deus, no Rio. E, no Cais do Porto, ela também colabora com a Escola Spectaculu, do artista visual Gringo Cardia, que promove cursos de formação técnica para jovens em situação de vulnerabilidade.

 (Claudio Carpi/CLAUDIA)

AMOR & SEXO

Mas que ninguém se engane. Ela não é nada zen. Se fosse tudo paz, amor e um tapetinho de ioga, Fernanda provavelmente não teria aceitado o convite para se jogar num programa sobre sexo. Quando pergunto se o ímpeto para o sim veio de planejamento de carreira ou ingenuidade, ela responde, na maior simplicidade: “Era um risco. Mas eu não tinha escolha, a verdade é essa. Eu não tinha escolha. Eu não queria fazer novela, queria ser apresentadora. Mas alguém tem que te querer, né?”. Estava na hora. Fernanda já tinha feito muitos ninhos. Era o momento de olhar pra fora. “Cansei de brigar por um espaço ao sol. Eu tinha contrato de trabalho, filhos, a casinha estava ali. Então fui me encontrar no outro.”

E assim foi. Fernanda precisou questionar muita coisa e aprender tantas outras sobre minorias, feridas abertas, revolta, direitos, feminismo. “Nós bebemos do machismo na mamadeira. A gente vive dessa opressão a vida inteira. A gente riu do oprimido a vida inteira. Por isso que eu digo que Amor & Sexo me fez muito bem. Eu aprendo todos os dias a lidar com as novas situações que se apresentam ali. Tem uma drag queen incrível que quer ser chamada de a Pabllo (Vittar). Mas como é que eu vou chamar Pabllo pelo artigo feminino? Se vira, aprende, o mundo taí, todo dia a gente tem que se reciclar.”

É muito bonito ver no palco de Amor & Sexo todo mundo junto e misturado. Fernanda, a agregadora, dá espaço para quem quiser levantar a própria bandeira e entende a importância que isso tem nos dias de hoje. Por isso, Fernanda pode estar na capa de uma revista como CLAUDIA, nesta edição tão simbólica. Porque Fernanda carrega em sua imagem muitas outras Fernandas, Andreas, Pabllos, Josés, Marias. “Não estamos falando só de mulheres, estamos falando de LGBTTs, de crianças, estamos vivendo um momento que até parece um exagero porque são muitas frentes. Até a gente se organizar, vai precisar de um tempo. Mas até lá a gente tem que pegar tudo e fazer vrum, botar tudo no chão. Ah, mas não pode fiu-fiu? Não. Neste momento não pode fiu-fiu. Não pode nada. Até a gente entender quais serão as novas normas, porque essas normas antigas a gente não quer mais. Porque o fiu-fiu leva ao feminicídio. Não é que a gente não quer ser chamada de gostosa, mas agora vamos entender onde é que vai dar isso. Então vamos botar tudo por terra e começar tudo de novo.

Aos poucos, o programa foi virando Fernanda, e Fernanda foi virando o programa. “A gente poder falar ao microfone é um negócio muito poderoso, a gente tem uma responsabilidade enorme, não cabe mais fazer da minha vida a bonitinha do Instagram, foto de biquíni, selfie, não. Agora eu tenho que dar conta disso aqui.”

 (Claudio Carpi/CLAUDIA)

CHEGAR AOS 40

Nascia uma nova mulher, que, paradoxalmente, começava a envelhecer. Chegar aos 40 provocou em Fernanda a urgência de começar a inverter forma e conteúdo. “Eu escolhi isso, eu quero, eu busco. Tudo que eu quero é ser uma pessoa interessante quando eu estiver mais velha. Sempre procuro nas pessoas mais velhas onde está a luz. Está sempre nos olhos. Tem gente que envelhece e a luz nos olhos se apaga. E tem aquelas com vibração, com desejo no olhar. E eu penso: ‘É assim que eu quero ser!’.”

Claro que, até lá, não custa usar o que há à disposição para apagar os efeitos do tempo, como tratamentos com lasers em clínicas de estética. Sim, as rugas que ninguém vê nas imagens da TV já são uma preocupação para ela na frente do espelho. “A pele já me incomoda. Não tenho mais a pele de guria. Ainda vou à praia de biquíni, ainda mantenho barriga tanquinho, mas a pele é de uma mulher que é mãe de dois filhos e que teve um barrigão, e isso não é a coisa mais agradável do mundo”, confessa alguém que sabe que nasceu privilegiada. Bela, loira, magra. Ela apenas não quer viver disso. Nem permite mais que a estética a defina.

Não é comigo, é com todas as pessoas, e não é o Silvio Santos, são todos. Você acha que os homens gostaram do que eu falei pro Silvio? Não! Porque no fundo eu falei pra todos eles

Fernanda Lima

 

 

ASSÉDIO, NÃO

Mas foi desse terreno minado da beleza, atributo que a mulher historicamente persegue e nega, que Fernanda mostrou suas garras. Em julho, o apresentador Silvio Santos a chamou de “magra sem graça” em seu programa no SBT. Fernanda retrucou dias depois: “Por que não te calas?”. Silvio insistiu na polêmica no domingo seguinte. Fernanda tentou se esquivar do debate, mas descobriu que era tarde demais para buscar a neutralidade. “Eu sofri com as pessoas dizendo: ‘Do que essa mulher linda, loira, magra, tá reclamando?’. Doeu. As mulheres que diziam isso estavam repetindo estereótipos, elas não estavam entendendo; eu tinha que dar a mão para elas. Espero que nenhuma delas sofra com violência, porque uma mulher que diz isso nunca sofreu uma violência, nunca foi estuprada, assediada, violentada; então eu dou minha mão pra elas. Pra elas entenderem.”

Mesmo desaconselhada por amigos que diziam que não se mexe com o maior comunicador vivo do Brasil, Fernanda acabou escrevendo, no dia 25 de agosto, um textão em suas redes sociais – uma espécie de manifesto pelas mulheres que sofrem assédio moral. “Sabe o que mais me incomodou nessa história? Parecer que eu estava de frescura porque ele me chamou de magra. A questão não é essa. Eu não sou nada. Quantas mulheres morrem de bulimia, anorexia, dismorfia porque se olham no espelho e se veem gordas. Quantas mulheres ele oprimiu chamando de gordas. Quantas mulheres sofrem com a gordofobia… Não é justo comigo as pessoas acharem que eu tô chateadinha porque fui chamada de magra. Não é comigo, é com todas as pessoas, e não é o Silvio Santos, são todos. Você acha que os homens gostaram do que eu falei pro Silvio? Não! Porque no fundo eu falei pra todos eles.”

Nesse momento, eu pergunto a Fernanda: “Você quer liderar mulheres?”. E ela se assusta. “Liderar?” “Sim, quando você se posiciona dessa maneira, está representando muitas pessoas.” Fernanda pensa um instante, olha para baixo e me conta um caso. Diz que foi a um evento em que uma jovem negra se aproximou e falou que também havia escrito o que pensava sobre Silvio Santos em seu blog. O texto foi lido por cerca de 60 pessoas. E, quando ela leu o que Fernanda escreveu, atingindo boa parte do Brasil, se sentiu representada. “Nós não somos a mesma pessoa. Ela sabe quem eu sou e eu sei quem ela é, mas, quando ela diz que eu a representei nesse episódio, eu penso: ‘Puxa, valeu’. Hoje me sinto bem mais preparada pra debater esses assuntos porque sei da importância de dividir esse protagonismo com um monte de mulheres que estão aí e são maravilhosas, mas não têm espaço.”

Fernanda ocupou um espaço. Do jeito dela. Tecendo um ninho de pessoas à sua volta, sofrendo a cada progresso as dores do crescimento. “Canceriana típica, que sofre muito”, como ela mesma se define. Mas nada que uma boa sessão de ioga não resolva. Se a moda não gostou de você, Fernanda, a gente gosta, sim, da ex-modelo que transformou um show de sexo num programa político.

E você, Fernanda, se tornou um ser político?

Eu me tornei um ser político. E aí, quando tu me perguntas: ‘Tu és feminista?’. Hoje, com toda certeza, eu te digo que sim. Se eu pensar no meu passado, minha trajetória toda foi feminista. Eu nunca deixei que um homem me mandasse calar a boca, nunca me deixei ser violentada a ponto de não me defender, nunca desisti de nada por ter alguém competindo comigo. Então eu tenho direito de estar aqui e de gostar de quem eu sou.”

*Realização: Lena Carderari • Styling: Tina Kugelmas • Beleza: Krisna Carvalho (produtos L’Oréal Professionnel e Nars) • Assistente de beleza: Lucas Luz • Manicure: Renata Vilar • Na abertura: body, Lenny Niemeyer; e brincos, Animale; camisa, Ricardo Almeida; hot pants, Reinaldo Lourenço; e brincos, Animale.

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