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O que achamos de ‘No Vestígio’, um dos livros-destaque da Flip 2023

Em No Vestígio, um dos livros-destaque da Flip 2023, Christina Sharpe faz considerações sobre negridade, amor e vida após a morte da escravização

Por Maria Carolina Cassati, do @encruzilinhas
11 nov 2023, 07h24

Esta é a sobrevida da escravidão — oportunidades incertas, acesso limitado à saúde e à educação, morte prematura, encarceramento e pobreza.”* Essa é uma das citações que Christina Sharpe faz em No Vestígio: Negridade e Existência, livro recém-lançado no Brasil pela editora Ubu que estará na programação da Flip 2023.

Falar sobre ser uma pessoa negra no mundo depois da “morte da escravização” implica em dizer como isso afeta a muitos (de nós) — e invocar referências nos ajuda a entender a escravização como uma tragédia que foi e é planejada, e que está intrinsecamente ligada ao capitalismo.

Na obra, dividida em quatro capítulos (O vestígio, O navio, O porão e O tempo), a autora procura investigar esse passado que não passou — e que deixa marcas. Christina Sharpe começa a discussão pela narrativa das inúmeras mortes que ocorreram em sua família. É nesse vestígio da escravização que ela vai usar como exemplos a violência gratuita a qual os corpos pretos são submetidos diariamente, a necropolítica que define quais seres devem morrer e quais podem viver, e a prática constante que pretende eliminar muitos (de nós).

Quais metáforas/imagens seriam mais efetivas para tratar dessa questão que não a da travessia e a Passagem do Meio feita sobre o Atlântico em um navio-esquife? Ainda que a autora não o faça de forma explícita, é impossível não pensar na personagem Preta Suzana, de Maria Firmina dos Reis em Úrsula, ao tratar das atrocidades vividas no trajeto acima do cemitério-estrada. “Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. Trinta dias de cruéis tormentos, e de falta absoluta de tudo quanto é mais necessário [à] vida passamos nessa sepultura.”

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Pessoas demais pereceram nas águas-sepulcro, diz Sharpe, muitas delas jogadas ao mar para que os sequestradores recebessem o dinheiro do seguro. Vidas, sonhos, subjetividades, anseios… Seres humanos arremessados dos navios para que parte da carga não fosse danificada; o seguro paga a mercadoria que se perdeu.

Hoje, ela afirma que o esquife-navio e o cemitério-Atlântico são ocupados por aqueles que tentam a travessia rumo à Europa via Lampedusa, na Itália, e que sucumbem às centenas. E se antes os mercadores recebiam seguro, agora, a guarda-costeira justifica o genocídio pela proibição legal de resgate daqueles à deriva — vide Decreto Sicurezza, de 2018, que aplica duras regras a migrantes e a quem lhes oferece ajuda. Em 2023, as restrições aumentaram.

Em diversas nações, a marca de cidadania-pertencimento-humanidade se dá pelo sangue. No caso dos filhos e filhas da diáspora negra, Negres que são “a vida após a morte da escravização”, “a negridade [é] como uma patologia até as gerações futuras”. Então, como podemos “viver no vestígio da escravização […] como habitar e romper esta episteme com suas, com nossas vidas conhecíveis?” Como existir no vestígio sabendo que isso significa “viver com/no terror, considerando que em grande parte do que passa por discurso político sobre o terror, nós, pessoas Negras, nos tornamos a personificação do terror”?

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Baby Suggs, personagem de Amada (obra de Toni Morrison citada por Christina Sharpe) nos dá uma resposta: “Aqui neste lugar, nós somos carne; carne que chora, ri; carne que dança descalça na relva. Amem isso. Amem forte”.

Christina Sharpe estará na Flip 2023 para divulgar No Vestígio: Negridade e Existência (Ubu, R$ 69,90)

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