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O encontro de Larissa Nunes e Ivone, protagonista de “Coisa Mais Linda”

A atriz falou a CLAUDIA sobre a experiência de viver o desabrochar da personagem na segunda temporada da produção

Por Isabella Marinelli - Atualizado em 29 jun 2020, 16h56 - Publicado em 26 jun 2020, 20h00

A história de uma jovem talentosa que almeja trilhar um caminho na música é comum à atriz Larissa Nunes e Ivone, sua protagonista na segunda temporada de “Coisa Mais Linda”, série brasileira original da Netflix. Aos 24 anos, cantora e formada em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo, a paulistana viu florescer uma personagem forte na linha do tempo entre os primeiros episódios e os mais recentes, chegados à plataforma de streaming no último dia 19.

“A Ivone é a minha primeira protagonista com destaque. Tem sido muito bonito ver o retorno disso. Ela já estava na primeira temporada, mas tinha um núcleo familiar restrito, com uma participação mais tímida. Ainda assim, já havia uma relação de responsabilidade entre ela e a Adélia. Na segunda temporada, vemos essa menina se transformar em mulher”, conta a CLAUDIA.

Ela chega para integrar um núcleo de sucesso, elogiadíssimo, composto por Maria Casadevall (Malu), Mel Lisboa (Lígia), Pathy Dejesus (Adélia) e Fernanda Vasconcellos (Thereza). Após a saída desta última da trama primária, tornou-se a última peça do quarteto entrosado e assistiu à emancipação da narrativa de Ivone. “Por mais que ela não seja tão articulada como as outras, muitos dos desejos de autonomia delas reverberam na Ivone. Ela guarda isso dentro dela. O que a série traz de novo é esse retrato da juventude negra dos anos 60, que sabe do seu lugar e sabe também das dificuldades que pode enfrentar quando se arrisca a viver um sonho”, afirma. Ela relembra aqui a sensação de se encontrar com a nova fase de Ivone e a importância de olhar para o passado para se discutir sobre o presente.

Como você enxerga o crescimento da Ivone na segunda temporada? Você sabia que aconteceria?
Eu já tinha uma noção da relação dela com a Adélia na primeira temporada, isso foi um marco para mim. Eu partia deste ponto entendendo a Ivone como uma adolescente típica. Mas ao longo do processo da série, entre a primeira e a segunda temporada, eu fui conversando com os criadores sobre quem ela queria ser. Quando soube da renovação da série, tive a surpresa de descobrir que a Ivone cresceria vertiginosamente. Ela foi catapultada para um lugar de “conheçam a minha história”. A segunda surpresa veio quando o responsável pela música da série revelou que ela também viveria essa jornada de buscar o sonho de ser cantora. Então, teve esse encontro entre nós.

 Sua jornada enquanto artista se parece com a dela de alguma maneira?
Uma das coisas que gosto dela é o fato de não olhar tanto para os riscos, mesmo sabendo que eles existem, claro. Há uma cena com a Malu em que ela diz claramente que tem medo do fracasso, porque quando ela consegue uma oportunidade não tem a chance de errar. Acho que isso diz muito sobre mim. Em muitos momentos da minha vida, eu tive que recuar e repensar. Será que quero mesmo ser atriz, viver esse sonho? Entendendo quais seriam as minhas renúncias também. Isso é presente em mim, na Ivone, em muitas mulheres negras que precisam abrir mão de muitas coisas. Mostra como essas conquistas chegam e como se faz a manutenção delas.

Aline Arruda/Netflix

Na primeira temporada, as personagens vivem jornadas universais e conhecidas das mulheres. Você acredita que essa segunda temporada aprofunda essas histórias?
Na segunda temporada a gente vê o aprofundamento da jornada individual de cada uma. Por mais que apareçam debates coletivos, como a sororidade, ela também convoca uma reflexão de que elas são unidas, vivem juntas, mas discordam e podem divergir, pois têm origens e ideias diferentes. Quando a gente pensa em privilégios ou vê que elas ganham segundas chances, quando a Teresa entende que pode abraçar fragilidades, quando a Adélia vê que responde por si mesma e precisa viver as próprias dúvidas, quando a Malu recua após um trauma por perceber que não cabe mais ali. Todas nós já estivemos em lugares assim, de autonomia e de debate real do que é ser unida sem romantismo.

Elas estão mais maduras…
Acho que humanizamos mais nesta segunda temporada. É um entretenimento, muitos debates não entram numa serie de só oito capítulos, mas eles são lançados ao público.

A Pathy era a única intérprete negra do núcleo de protagonistas. A sua presença amplia os enredos possíveis para as mulheres negras?
Acredito que sim. De alguma forma, começamos a ver que mulheres negras são diversas, que a experiência do racismo nos unifica, mas que precisamos buscar as próprias subjetividades. A Adélia e a Ivone são complementares, mas são muito diferentes. Uma segunda protagonista fala sobre uma diversidade que precisa contribuir mais. Ali, o debate sobre racismo e questão de classe são atualizados a partir dela, porque adicionamos também a camada da diferença de gerações; como mulheres negras de idades diferentes reagem às coisas.

Começamos a ver que mulheres negras são diversas, que a experiência do racismo nos unifica, mas que precisamos buscar as próprias subjetividades. A Adélia e a Ivone são complementares, mas são muito diferentes.

Larissa Nunes
Aline Arruda/Netflix

Uma das cenas mais emblemáticas da primeira temporada é a lição de interseccionalidade que a Adélia protagoniza em uma cena com a Malu. A questão pauta a segunda temporada de alguma maneira?
Um dos encontros mais bonitos que tive nesse processo das gravações na segunda temporada foi com a Maria. Ela foi uma parceira. Isso acaba se revelando na relação da Malu com a Ivone também. Existe ali um momento em que a Malu vê o talento que precisa ser trabalhado, mas com o olhar de uma mulher branca que “precisa salvar” a Ivone de alguma maneira. E aí ela vê que não é bem assim, que elas precisam estar em pé de igualdade para continuarem como parceiras. Essa cena que você citou foi muito importante, reverberou demais nas redes sociais, abriu um debate. Eu achei maravilhoso, porque a série tem um alcance de público muito grande, maior do que a gente imagina. Em alguns momentos, agora, o que já era proposto sobre interseccionalidade vai se estreitar. Quando uma mulher branca diz “eu entendo o seu lugar”, como a gente de fato entende essa diferença? Tem a ver com a nossa luta antirracista de hoje, por exemplo. Ok, você é antirracista, mas o que você faz sobre isso? Quais riscos você está disposto a correr num Brasil de 2020, neste contexto maluco que a gente está vivendo?

Como é o desafio de gravar em 2020 uma série que se passa em 1950? O que as personagens passam naquele contexto que ainda vivemos,  enquanto mulheres, atualmente?
Quando falamos em conquistas femininas, eu penso na manutenção delas. Por mais que a série se passe nos anos 50, 60 e que sabemos que existiram muitos avanços constitucionais de lá para cá, ainda precisamos enxergar que o que se repete até hoje acontece porque é sistêmico. A gente está lidando com machismo e racismo, dois sistemas que permeiam o modo de vida e a ideologia das pessoas. Acredito que fica urgente retomar o passando quando ele traz luz para o debate de hoje. Não é o mero retorno de retratar determinada época, mas a necessidade de visitar o contexto do Rio de Janeiro à época e o porquê ainda é tão atual. Várias mulheres abordaram o elenco depois da primeira temporada contando que ainda vivem situações de abuso, racismo, misoginia. Um exemplo é a violência doméstica e o quanto os números cresceram na pandemia. Para mim, o retorno ao passado só faz sentido se traz uma questão pertinente para o nosso presente.

 

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