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Aulas gratuitas de balé online e direto da cozinha

Durante a quarentena em Nova York, em lives no Instagram, a bailarina clássica Isabella Boylston ensina os solos de coreografias famosas

Por Ana Claudia Paixão Atualizado em 8 jun 2020, 13h43 - Publicado em 8 jun 2020, 10h00

Em lives no Instagram, Isabella Boylston, bailarina clássica e estrela do American Ballet Theatre, ensina os solos de coreografias famosas – que tal usar a quarentena para aprender a dançar Giselle? – e dá aulas gratuitas. Ela falou com CLAUDIA diretamente de seu apartamento, em Nova York

 

A cozinha mais popular do Instagram nas últimas semanas não é de nenhum chef nem cenário para vídeos de receitas. Não fossem alguns utensílios espalhados pela bancada, dificilmente a verdadeira função do ambiente seria revelada. Isso porque ele se tornou palco para uma bailarina clássica que não tem a menor habilidade culinária. Isabella Boylston, estrela do American Ballet Theatre (ABT) e uma das dançarinas mais aclamadas do mundo, se viu trancada em casa após o lockdown ser decretado em Nova York. Descobriu curiosamente que o móvel da cozinha tinha exatamente a mesma altura das barras das salas de ensaio. “Não podia ficar parada porque perderia massa muscular; então passei a fazer aulas e ensaiar ali mesmo”, contou ela por telefone, sentada na tal cozinha. Notou que mais pessoas estavam em casa meio cabisbaixas, precisando movimentar o corpo. Resolveu experimentar dar uma aula ao vivo para outros bailarinos, e a adesão enorme de seguidores (inclusive de gente que não dança) lhe mostrou que havia espaço para mais. Hoje, a agenda ocupada de Isabella inclui três lives por semana em seu perfil no Instagram (@isabellaboylston).

Às segundas, quartas e sextas, o foco é nos exercícios de barra. Ela evita saltos para não incomodar os vizinhos. “Mas ninguém reclamou ainda”, comemora acrescentando que não sabe se os moradores de seu prédio saíram de Nova York quando a quarentena começou, como muitos fizeram. Às terças e quintas, ela ensina coreografias de balés renomados, como Giselle, Lago dos Cisnes ou A Bela Adormecida. Isabella compartilha truques para dominar os solos das protagonistas, encantando os apaixonados por essa arte. Ela também transformou as aulas em uma iniciativa social, arrecadando dinheiro para artistas que estão em dificuldade financeira após os cortes e interrupções de apresentações. “Desde criança, eu sempre fui inventiva. Dirigia peças, criava coreografias. Estou o tempo todo pensando ou fazendo algo artístico. Gosto de dar um toque pessoal às coisas que me inspiram”, confessa ela, que não sabe ficar parada. “Tiktok é minha nova paixão”, revela, referindo-se ao aplicativo que tem conquistado muitos adeptos na quarentena (por lá, seu perfil é o @isabellaboylston).

“Desde criança eu sempre fui inventiva, dirigia peças, criava coreografias. Estou o tempo todo pensando ou fazendo algo artístico”

Em alguns dias, as lives de Isabella ganham reforço de James Whiteside, seu colega de palco no ABT. Os dois são parceiros profissionais há muitos anos e sempre gostaram de postar fotos e vídeos dos ensaios e bastidores. Ao vivo, dão um toque de humor ao propor aulas temáticas, com direito a fantasias improvisadas. Já usaram figurinos dos anos 1980, inspirados em personagens do universo de Harry Potter e de Star Wars. Carismático, o duo se autointitulou The Cindies (eles chamam um ao outro de Cindie) e ficou tão popular que tem fãs famosos, como as atrizes Jennifer Garner e Gwyneth Paltrow. “Jennifer passou a nos seguir e a fazer brincadeiras. Hoje somos amigas”, conta a primeira-bailarina, que também já tem passagens pelo cinema. No filme Operação Red Sparrow, era a dublê de corpo de Jennifer Lawrence.

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Isabella alcançou o estrelato cedo. Em 2014, aos 25 anos, ela se tornou a mais jovem bailarina principal do ABT, companhia que já teve em seu elenco lendas da dança, como Mikhail Baryshnikov e Natalia Makarova. “Eu fiz cada um dos papéis de Lago dos Cisnes antes de chegar ao principal: o da camponesa, de cisne no grupo, o da princesa até ser Odette-Odile”, lembra. “São poucas as promoções que surgem a cada ano e contar com um elenco relativamente pequeno diminui a chance. No ABT não há atalhos.” Mais um motivo para se orgulhar do feito, que exigiu empenho e dedicação. Filha de músico, Isabella sempre teve ritmo, mas praticou muitos esportes antes de optar definitivamente pela dança, aos 13 anos. “Eu tive a sorte de ter excelentes professores desde cedo, mas só decidi seguir esse caminho quando vi que era mesmo uma oportunidade de crescer”, diz. Aos 15 anos, deixou Idaho, no interior dos Estados Unidos, e foi para a Flórida, onde se inscreveu no respeitado Harid Conservatory. Dali, seguiu direto para Nova York, aos 18. Os críticos exaltam sua leveza e agilidade, que lhe possibilitam saltar altíssimo e fazer complicadas piruetas como se não exigissem esforço algum. Isabella é considerada também ótima atriz, combinação rara de encontrar. Apesar de todo esse alvoroço em torno dela, a dançarina nunca assumiu o ar de superioridade muitas vezes comum no balé. Desde o começo, ela expunha nas redes sua rotina, ajudando assim a popularizar a arte no Instagram. Hoje tem mais de 300 mil seguidores.

Getty Images/Getty Images

Quem a acompanha no perfil, aliás, já se acostumou com as pequenas aparições do marido dela, Daniel Shin. Ele passa ao fundo nos vídeos e nas lives. Afinal, também está trabalhando de casa nesta quarentena. “Ele é um palhaço, adora se exibir”, revela Isabella, explicando que ela fica com a cozinha e ele com o escritório durante o horário de expediente. “Por sorte, sempre acabo as aulas antes do horário do almoço, que é quando ele vem pra cá”, diz. O casal mora no Brooklyn, em um apartamento de três quartos, com janelas amplas e vista estonteante para Manhattan. Mudaram-se para o endereço quando completaram dois anos de casados – estão juntos há oito – e decidiram comprar um imóvel. Chamam a atenção as obras de arte moderna espalhadas pelos ambientes. “Dan é o guru da decoração aqui”, diverte-se Isabella. Ela conta que é o marido quem escolhe os lindos quadros e objetos e revela, orgulhosa, que a casa foi até capa de revista. O par se conheceu em uma festa de Cinco de Mayo, feriado mexicano, em Nova York. Dan não sabia nada de dança. Depois de quase uma década com a bailarina, deve ter aprendido algumas coisas. Quem sabe ele não se anima a fazer uma das aulas dela ao vivo.

Um solo em três tempos – Isabella deu uma aula em sua cozinha tendo como tema os anos 1980. Além das músicas da época, o look de polainas e brilho animou os seguidores @isabellaboylston/Instagram

Além das lives, Isabella tem usado o tempo para colocar a leitura em dia, montar quebra-cabeças e ligar para os amigos. Tudo isso ajuda a diminuir a ansiedade com tudo que está acontecendo e, principalmente, com a saúde de uma de suas colegas de trabalho, a lenda russa Irina Kolpakova, 86 anos. A professora acompanhava Isabella nos ensaios finais para a tradicional temporada do ABT no Metropolitan Theatre. “Sinto falta de estar com ela, de ouvir o que tinha a dizer, de aprender”, diz, confessando certa frustração com a interrupção dos planos. Outra coisa que tem acalmado a bailarina é programar uma viagem de volta para casa, em Idaho. Apesar de que, até o fechamento desta edição, não havia data para a quarentena em Nova York acabar, Isabella já se imaginava com Dan num hotel no meio das montanhas e, certamente, bem longe de qualquer cozinha.

 

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