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Leitura obrigatória, Camila Sosa Villada mistura fantasia a vivências pessoais

Em seu título de estreia no Brasil, a argentina Camila Sosa Villada adiciona uma lente fantasiosa sobre a vivência de um grupo de travestis

Por Isabella D'Ercole Atualizado em 15 jul 2021, 20h00 - Publicado em 18 jul 2021, 10h00
É

rara, mas extraordinária a habilidade de transformar a realidade em mágica. A escrita de Camila Sosa Villada faz justamente isso. Situações de angústia e enorme opressão ganham uma lente que não esconde a profundidade e a dor, mas que permite ao leitor entrar num universo pouco conhecido com envolvimento e paixão.

A argentina de La Falda, fã de novelas brasileiras e de Gal Costa, lança por aqui O Parque das Irmãs Magníficas (Tusquets) – compre aqui! –, em que conta, com doses de fantasia, a história de um grupo de travestis que se encontra à noite no ponto de prostituição. Apesar do enredo incluir detalhes surpreendentes, Camila, uma mulher trans, não evita as discussões potentes da comunidade e as muitas violências que essa sofre.

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O livro tem traços autobiográficos, apesar de Camila recusar que seja uma obra sobre sua trajetória especificamente. Ela também, saída de uma pequena cidade do interior, submeteu-se a tantas das situações descritas com riqueza de detalhes. A autora conta que ouviu de seu pai: “Um dia vão bater nessa porta para me avisar que te encontraram morta, jogada numa vala”. A CLAUDIA ela falou sobre sua produção e carreira.

No começo do livro, você faz uma linda analogia do grupo de travestis funcionar como um organismo vivo. A vida no coletivo é importante para todos, mas para essa parcela da população também é, por vezes, questão de sobrevivência. Para você, como foi a sensação de se sentir deslocada por tanto tempo e, de repente, se encontrar?

Quando eu era criança, passava na TV um programa muito famoso que tinha uma travesti. Eu assisti aquilo e me reconheci. Anos depois, quando entrei em contato com o grupo de travestis no parque, não houve efeito na minha identidade, mas me ajudou a moldar a linguagem e a percepção da vida. Eu as via subindo nas árvores com seus tamancos quando vinha a polícia, pareciam panteras.

Eu era de uma cidade de cinco mil habitantes e aquilo contribuiu para a minha noção de realidade e de normalidade. Ia além de identidade, era uma unidade. Eu me sentia olhando para obras de arte. Vê-las com seus peitos e bocas me dava a sensação de que elas estavam prontas, eram mulheres finalizadas. Travestis como essas não se veem mais, porque elas abriram caminhos para as gerações mais novas terem outras escolhas. Hoje, quem não quer passar por cirurgias, não precisa; não quer colocar silicone, ok; não quer ser hétero, tudo bem.

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“Nossa história, luta e coragem nos fez pessoas melhores. Mas o mundo é o mesmo. se não ataca as travestis, vai atacar os imigrantes, os negros…”

Você fala da prostituição, que às vezes é a única forma de sobrevivência para esse grupo, com todas as mazelas e as vulnerabilidades, mas também de uma forma muito natural. Sempre foi bem resolvida com essa fase?

No começo, eu sentia vergonha de ter me prostituído. Não que seja uma vergonha ser prostituta, mas eu tinha vergonha de lembrar dos pais de família que recebia, os políticos, as figuras da TV. Eu conheci de verdade essas pessoas. Passados 20 anos da época em que me prostituí, vejo esses clientes na rua, com suas esposas e filhos. Lembro das perversões, do modo que me tratavam. E até eles encontram seu lugar no mundo.

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Por que, de certa forma, compartilhar sua história, mesmo que misturada à ficção?

É a minha ficção, é uma memória que está guardada. Eu volto a ela e movo algumas peças do passado, como se viajasse no tempo. É a oportunidade de dizer coisas que eu gostaria de ter falado e também de viver certas ocasiões que não pude. Abraços e conselhos que não me deram estão no livro. Não é uma autobiografia. Eu comecei escrevendo personagens inventados e isso foi crescendo e se povoando, como uma comunidade. Eu acho que o livro foi onde tinha que chegar. Mas também acho que todas as travestis tinham que escrever suas histórias, não só para nós mesmas, mas para a população construir uma memória coletiva e para quem se diz normal entender que somos pessoas como todas as outras.

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De quando você viu a apresentadora travesti, ainda criança, até hoje, sente que o mundo mudou para a população travesti e transexual?

Acho que nós melhoramos. Nossa história, luta, força e coragem, importante para todas, nos fez pessoas melhores e permite que as nascidas a partir de agora encontrem uma realidade melhor. Mas o mundo é o mesmo. Se não ataca as travestis, vai atacar os imigrantes ou os negros, e assim por diante. Porém, temos capacidade para mudar leis e pedir mais. Vejo no Brasil muitas representantes inspiradoras, como Liniker, Linn da Quebrada, joias que fazem vídeos, saem em capas de revista. Ainda assim, o Brasil é o país mais perigoso do mundo para nós.

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