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A Alma Rebelde de Marianne Faithfull

A musa de Mick Jagger, Nick Cave e outros gênios da música terá um filme biográfico em 2022

Por Ana Claudia Paixão 9 abr 2020, 20h24

Em fevereiro foi anunciado que a atriz Lucy Boynton vai estrelar o filme inspirado na autobiografia de Marianne Faithfull. Boynton ficou conhecida do público brasileiro em Bohemian Rhapsody, o longa biópico de Freddie Mercury, onde interpretou a namorada do cantor, Mary.  Para os fashionistas, o estilo e a beleza da atriz são a sensação dos desfiles e tapetes vermelhos dos últimos anos.

Faithfull, que é o nome do filme (por enquanto), ia começar a rodar agora em abril, porém a produção foi adiada. Ainda não divulgaram quem vai interpretar Mick Jagger, um papel importante na história da cantora.  A história vai focar na vida de Londres nos anos 60, a famosa Swinggin London, com Beatles, Rolling Stones, David Bowie e muitos outros circulando no incrível círculo artístico da época. Fo nessa época que a jovem Marianne, de 17 anos e ainda na escola, foi descoberta em uma festa e virou uma estrela, literalmente, do dia para a noite. Com a fama vieram as drogas pesadas, os romances sem final feliz, o vício, a decadência.

A própria Marianne parece ter dado à benção para a (perfeita) escalação de Boynton para vivê-la no cinema: as duas circularam juntas nas semanas de moda de Paris.

Lucy e Marianne juntas, na semana de moda de Paris, no final de fevereiro, antes da cantora ser internada com Covid-19 Dominique Charriau/WireImage/Getty Images

Musa dos gênios

Quem ouve a voz – que restou –  de Marianne Faithfull depois das drogas, pode estranhar o timbre baixo e rouco, tão distinto da voz que ouvimos na primeira versão de As Tears Go By. O paradoxo é que, ao perder alcance e, até a certo ponto, a musicalidade, Faithfull ganhou personalidade e isso fez dela uma artista ainda mais fascinante.

De beleza estonteante, a filha de uma baronesa húngara e um oficial da inteligência britânica, Faithfull foi o que os ingleses chamam de posh, em outras palavras, elite.

Aos 17 anos, em uma Londres efervescente dos anos 1960, ela foi a uma festa onde estavam as maiores estrelas do momento. O empresário dos Rolling Stones se encantou assim que a viu e ali decidiu fazer dela uma estrela. Nem se importava se Marianne sabia cantar (sabia): em poucos dias conseguiu que Mick Jagger e Keith Richards escrevessem uma balada para ela. As Tears Go By foi gravada quando Faithfull ainda era estudante. A escola ficou para trás e ela ganhou o mundo.

A imagem de boa moça (mais tarde completamente esquecida), era sua marca registrada no lançamento. Para a contrariedade do empresário, Faithfull se casou com o galerista e artista John Dunbar, tendo um filho em seguida.

Claro que com o mundo a seus pés e juventude a seu favor, a vida Marianne Faithfull sofreu reviravoltas.  O casamento com Dunbar acabou e a amizade com Jagger virou romance. De estrela de igual status, ela passou a ser chamada de a ‘namorada’ do vocalista. Hoje ela admite ter aceitado o papel por ter baixa autoestima.

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A relação com Jagger durou apenas 4 anos e foi regada de escândalos (Marianne foi presa em uma festa de arromba na cada de Keith Richards nua, apenas coberta por um casado de peles.

Hulton Archive/Getty Images/Getty Images

Extremamente culta, Faithfull era uma obsessão para Jagger. Ao assumir o papel de ‘namorada’, ela foi perdendo o interesse pela própria carreira de música (ela também era atriz). As drogas ganharam espaço. Nessa época ela escreveu Sister Morphine (que os Stones declararam ser deles até ceder, já nos anos 1990, que a autoria (também) era de Faithfull)

Com a separação de Jagger, Faithfull se entregou totalmente ao vício de heroína. Acabou mendiga nas ruas de Londres. A voz foi tão danificada que mudou radicalmente o tom agudo para um grave rouco.  Nos anos 1970 ela fez um retorno ao sucesso, com o clássico Broken English.  Foi nesse álbum que ela gravou The Ballad of Lucy Jordan, que 20 anos depois seria usada na trilha sonora de Thelma e Louise, para uma das cenas mais importantes do filme.

Na virada do novo século, a mítica cult em torno de Faithfull ganhou fôlego. Endeusada pelos gênios da música  – Beck, Billy Corgan, Jarvis Cocker, Damon Albarn (Blur), PJ Harvey e Nick Cave, para citar alguns –  ela rejuvenesceu o repertório.  Carla Bruni é uma amiga pessoal que muitas vezes agradeceu ser amadrinhada por Faithfull.  Particularmente a colaboração com Cave rendeu álbuns muito bonitos, embora emotivos. As letras de Faithfull são diretas, simples e revelam muito do que ela viveu – no auge e na pior – e aí está muito da atração recente da arte de Faithfull na música.

Último album inspirado em Keats

Em 2018, Marianne Faithfull lançou um álbum novo: Negative Capability. O titulo é uma referência a um poema de John Keats. Produzido pelo parceiro e produtor de Nick Cave, Warren Ellis,  Negative Capability soou como uma despedida. Fala do ataque terrorista em Paris (cidade onde Faithfull vive há mais de 20 anos) e da morte de amigos próximos.  Canta sobre solidão e regravou os três sucessos, As Tears Go By, It’s All Over Now Baby Blue e Witches Song. É um album muito triste onde as letras, com a voz rouca de Faithfull, ganham uma perspectiva de finitude preocupante.

A saúde de Faithfull, depois de tantos excessos, ficou frágil. Câncer de mama, Hepatite C e artrite são algumas das doenças mais conhecidas.

Há uma semana, em Londres, ela foi internada depois que testou positivo para o novo coronavírus. A notícia apertou os corações dos fãs, pois Faithfull está na idade e perfil do grupo de maior risco da doença.  Pelo menos as notícias são de que seu estado de saúde está estável.

Todos na torcida para que essa rebelde e ícone não seja mais uma das vozes caladas pela Covid-19. Depois dela sobreviver a tantas dificuldades e improbabilidades, merecemos seguir com a arte de Faithfull por mais anos. Como diz Ellis, seu amigo e produtor: “Ela fez seu próprio caminho”.  Tem muitos passos a dar ainda.

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