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Stéphanie Habrich Stéphanie Habrich é empreendedora, apaixonada pelo mundo da educação e do jornalismo infantojuvenil. Fundadora do Joca, único jornal para jovens e crianças do Brasil, ela vai abordar aqui na coluna temas que interligam o contato com as notícias desde a infância e a educação, sempre pensando em como podemos ajudar nossos filhos a serem cidadãos com pensamento crítico.

Carta para os meus filhos após o divórcio

A colunista Stéphanie Habrich compartilha a carta escrita aos filhos após o término de um casamento de 17 anos

Por Stéphanie Habrich Atualizado em 28 jan 2022, 11h16 - Publicado em 31 jan 2022, 10h00

No final de 2020, eu e meu marido nos separamos após um casamento de 17 anos. Os meses que se seguiram ao divórcio não foram fáceis para a nossa família. Eu, meu ex-marido e meus três filhos tivemos que conviver com sensações e sentimentos que nunca tínhamos vivenciado antes.

Agora, olhando para trás, vejo que aprendemos muito com essa experiência e que já sou capaz de fazer uma reflexão mais clara sobre tudo o que aconteceu. Por isso, resolvi escrever uma carta para os meus filhos falando sobre o processo de separação.

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Compartilho, aqui, o texto com vocês. Espero que ele sirva de ferramenta para que, juntas, possamos pensar sobre todas as emoções, desafios e aprendizados que cercam um casamento, a construção de uma família, o processo de separação e o que vem depois do divórcio.

“Meus queridos filhos,

Espero que um dia vocês possam nos perdoar pelo divórcio. Com certeza não era nada do que visualizávamos e sonhávamos para a nossa família.  Acreditem, é extremamente difícil abrir mão de todos esses anos de investimento um no outro e em nossa jovem e pequena família, tão amada e sonhada. O sentimento de fracasso é quase que insuportável. Me dói mais ainda saber que estamos deixando cicatrizes eternas em vocês. Mas eu juro que fizemos o melhor que podíamos com as ferramentas, experiência de vida e sabedoria que tínhamos até então.

Sim, o divórcio foi muito difícil para mim e, infelizmente, vocês tiveram que me ver sofrer e chorar, sem que muitas vezes eu conseguisse disfarçar. Sei o quão difícil é vermos alguém que amamos chorar, sem poder fazer nada. Mas saibam que esse processo pelo qual passamos é um luto, que precisa do seu tempo para ser assimilado. Está tudo bem termos momentos de muita tristeza. Porém, nunca deixei de levantar a cabeça, seguir em frente e acreditar.

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Dizem que é comum os filhos sentirem culpa pelo divórcio dos pais. Mas que fique muito claro no coração de cada um: vocês não têm nada a ver com a nossa separação. Não há nada que poderiam ter feito ou deixado de fazer para “salvar” o nosso casamento.  Eu e seu pai não daríamos certo. O divórcio não tem nenhuma parcela de responsabilidade de vocês.

Posso imaginar que vocês desejam que nós fiquemos juntos de novo um dia. Talvez isso sempre fique guardado no fundo do coração de cada um. Mas fiquem felizes que não estamos juntos, pois não há nada pior do que viver sob o teto de dois pais miseráveis – e falo isso por experiência própria, como vocês bem sabem, já que era o que acontecia em minha família de origem. O modelo, as cicatrizes e consequências desse modo de vida também são imensuráveis.

É difícil abrir mão até dos contos de fadas, do “felizes para sempre”, com o qual a sociedade nos influencia. Mas a verdade é que a vida não é um conto de fadas e que ninguém pode salvar ninguém, apenas nós mesmos podemos fazê-lo por nós. Sou humana e imperfeita. Tento fazer o meu melhor a cada dia e a cada dia aprendo mais e mais. A vida é um aprendizado eterno e, diante das minhas imperfeições, entendi algumas coisas sobre a natureza da relação de um casal. Aprendizados esses que, hoje, considero importantes e que gostaria de dividi-los com vocês, embora obviamente não se trate de uma verdade única e absoluta.

Seguem, abaixo, algumas das minhas reflexões.

  • Penso que temos a responsabilidade de construir a vida que nos faz feliz. Nunca deixem de ser quem vocês são para agradar alguém. As pessoas não precisam ficar para sempre se não forem boas para você.
  • Não se engajem em casamentos sob bases frágeis (crenças e condutas muito diferentes podem ser incrivelmente fascinantes no início, mas, ao longo do tempo, provocam estranhamento, distanciamento e, muitas vezes, intolerância).
  • Tenham cuidado com as projeções recíprocas que muitas vezes não representam o que somos de verdade. Não devemos esperar que o outro seja o que imaginamos que ele deva ser – ou como imaginamos que ele seja.
  • Aprendam a perdoar e escutem sem julgar. Ninguém pode achar que sabe o que o outro está sentindo ou passando. Somos todos construídos de maneiras diferentes, com experiências e feridas distintas. Cada um vive e reage a situações de formas variadas. Somos o resultado de todas as experiências e dores pelas quais passamos na vida.
  • Aprendam a negociar. O dia a dia envolve constantes negociações. Do que adianta ter sempre razão ou a última palavra? O casamento não é uma competição.
  • Aprendam a entender sentimentos múltiplos, que, muitas vezes, são divergentes e não facilmente explicáveis.
  • Entendam que todos nós precisamos e queremos nos nutrir por meio do amor. Mas que a forma de reconhecer/receber/sentir o amor é diferente para cada um. O que para um é demonstração de amor, para o outro pode não ser. Portanto, precisamos entender como cada um se sente amado pelo outro. Para uma pessoa um ato de amor pode ser receber presentes. Já para o outro pode ser um toque, abraço, frases elogiosas… Então, devemos saber perguntar o que o outro gosta e não apenas supor. Não dizer coisas como: “Se ele gosta de mim, deveria saber o que eu gostaria de receber…”.
  • Saibam definir as suas expectativas e zonas de intolerância. Lembrem-se de que os casais não crescem de forma paralela e/ou ao mesmo tempo. Temos que olhar para o outro e prestar atenção nele para que não sigamos por caminhos diferentes, com objetivos distintos.
  • Nunca acreditem que precisam agir de um certo modo – como o outro ou a sociedade espera de nós.
  • Saibam confiar e se entregar ao outro. Não sejam críticos o tempo todo ou fiquem sempre na defensiva. Fechar-se no próprio silêncio também não é uma boa opção.
  • Não se autossabotem. O outro não é responsável pelas dificuldades que passamos.
  • Saibam separar o bom e o ruim que trazemos de nossas famílias originais. Temos que aprender a quebrar ciclos que não funcionam ou não nos pertencem.
  • Não podemos ser a pessoa responsável pela felicidade do outro, mas devemos ser a pessoa que apoia o outro a alcançar a sua própria felicidade.
  • Lembrem-se da importância de deixar o outro livre, sem prendê-lo. Quanto mais contribuímos e apoiamos o outro a “voar”, mais o amor floresce. Ao mesmo tempo, é importante entender que o ciúme e outros medos/invejas são, na verdade, os nossos próprios medos, e não os do outro.
  • Não se esqueçam de que, muitas vezes, comportamentos que nos irritam no outro são, na verdade, traços da nossa personalidade que não queremos reconhecer em nós mesmos (como um espelho que não queremos enxergar).
  • Reguem a “planta” todos os dias – ou seja, se esforcem diariamente para conquistar o outro. O amor não cai do céu, ele é construído. Não suponha que o outro já está garantido, que estará lá para sempre.
  • Realizem atividades juntos e saibam respeitar o que é sagrado para o outro.
  • Saibam dialogar. Isso os ajudará a construir uma estabilidade emocional forte o suficiente para passar pelos períodos de estresse e dificuldades.

Parecem muitos pontos, mas todos os tópicos são coisas que devemos aplicar a nós mesmos, à nossa relação com nosso próprio “eu”.

Fora tudo isso, não deixem de viver intensamente, não tenham medo de viver, de arriscar o novo, o desconhecido com confiança um no outro. A vida é curta, então devemos viver todos os dias como se fossem os últimos.

Um abraço apertado de sua mãe em construção.”

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