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Fabiana Secches. Pausa Psicanalista e pesquisadora de literatura na Universidade de São Paulo, @fabianesecches atende, escreve, dá aulas e traduz livros.

Em defesa da lentidão

Como viver na contracorrente de um mundo que inventa tantas urgências?

Por Fabiane Secches Atualizado em 8 ago 2022, 16h45 - Publicado em 6 ago 2022, 08h37

“Não se afobe, não, que nada é pra já. O amor não tem pressa, ele pode esperar em silêncio”, canta Chico Buarque em Futuros amantes, nos anos 1990, antes da internet tomar conta de nossas vidas, transformar nossa percepção do tempo e nossa relação com o mundo.

É verdade que se voltarmos um pouco mais no tempo, mais precisamente por volta de 1780, na Revolução Industrial, vamos entender que esse é um processo que começou a ganhar força ainda no século 18, atingindo um ritmo vertiginoso no século 21.

“O amor que Chico Buarque canta — que poderíamos também pensar em sentido mais amplo, como a escritora e ativista bell hooks propõe no livro “Tudo sobre o amor: novas perspectivas” — pode até ter sua urgência, mas está mais para apressado, desajeitado, malfadado de saída.” As relações humanas se esgarçaram a ponto de nos tornarmos reativos, defensivos, hostis. E isso se estende a todos os campos da vida.

As pessoas estão soterradas por uma quantidade de informação difícil de processar, em grande parte, informações que são ou deveriam ser chocantes. Estão dessensibilizadas pelo excesso de exposição ao mal — reação que também pode ser interpretada como forma de sobrevivência, pois, do contrário, ficaria difícil caminhar um quarteirão. Parece um beco sem saída. Precisaríamos despertar desse torpor, ao menos em alguma medida. Mas como ir contra a corrente e ser gentis com as pessoas e com a gente mesma estando exaustas, maltratadas pelo mundo? Sobrecarregadas, indisponíveis, desconfiadas, vamos nos repelindo mutuamente, enquanto sentimos falta de companhia na caminhada, o que tornaria, quem sabe, a jornada um pouco menos hostil.

Uma frase, atribuída a Carlos Drummond de Andrade, traz, em sua simplicidade, uma verdade incontestável: “A vida necessita de pausas”. Tudo bem, você pode argumentar, mas diga isso à empresa para a qual eu trabalho, diga isso para o trânsito nas grandes cidades, para a amiga que me mandou um WhatsApp e espera uma resposta. Você poderia responsabilizar o sistema, o que seria completamente legítimo, e questionar o poder da ação individual, que de fato é mínimo, quando a lógica hegemônica é que molda o espírito do tempo.

A autonomia que temos é uma pequena nota à margem. Mas se a gente parar para pensar em conjunto — duas coisas que ameaçam o tal sistema: “pensar” e “junto” —, talvez possa concordar que talvez não seja necessário acompanhar a última febre literária, o último grande lançamento no cinema ou nas plataformas de streaming, o último podcast ou qualquer outra novidade que cause uma comoção coletiva e nos dê a impressão de que há uma convocação para tomar parte, sob a pena de deixar de pertencer, sob a pena de desaparecer.

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Muitas urgências são inventadas, mas acreditamos nelas mais do que na nossa própria existência. Não sei como é pra você, mas eu nunca fui boa com respostas rápidas, desconfio das primeiras ideias e me volto para dentro, buscando assentá-las e costurá-las. Retorno à superfície com algo que posso chamar mais ou menos de meu — uma opinião, uma posição, uma ideia — só depois de percorrer um longo caminho. Então, a proposta de escrever uma coluna mensal, no lugar de interações instantâneas, me daria trinta dias de intervalo. Uma infinidade perto do imediatismo das redes sociais.

Há poucos dias, li no Twitter um comentário de um professor chamado Jason Hickel que dizia mais ou menos assim: “A obsessão do capitalismo com a ideia de ‘inovação’ casa estranhamente bem com a ideia de ‘não há alternativa’. Estamos autorizados a criar novos gadgets, mas não uma nova economia”. Nem, por que não dizer, uma nova forma de vida. Esse paradoxo me fez lembrar de uma escritora que, na literatura e na vida, usou a criatividade para imaginar outros mundos e outras possibilidades para o nosso: Ursula K. Le Guin. Para ela, “nós estamos no mundo, não contra ele”.

A autora fez questão de reafirmar: “Eu sou parte disso. Ando pelo chão e o chão anda por mim, eu respiro o ar e o modifico, estou completamente interconectada com o mundo”. Será que se nos recordamos disso com mais frequência — de que, até quando não temos consciência, já somos parte —, não seríamos tão suscetíveis a tal FOMO (“Fear of Missing Out” ou “medo de ficar de fora”)? Será que não poderíamos resistir de algum modo?

O professor e crítico literário Antonio Candido uma vez disse algo que guardo como um mantra: “Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida, é esse minuto que está passando. (…) Eu tenho direito a esse tempo. Esse tempo pertence a meus afetos”.

Numa conversa recente com a escritora Dulce Maria Cardoso, que veio de Portugal para a Bienal de Literatura e com quem estive na ocasião do lançamento de seu último romance, Eliete: a vida normal, ela disse — publicamente, para todas as pessoas que estavam nos ouvindo na Livraria Gato Sem Rabo, em São Paulo — que não sabia quando publicaria o próximo livro, uma espécie de continuação do atual — porque, além da escrita ter sido interrompida pelo adoecimento da mãe, ela também era muito preguiçosa.

As pessoas riram da afirmação incomum e ela foi além: não digo isso envergonhada, acho que todos nós deveríamos ser mais preguiçosos. Mais tarde, Dulce Maria Cardoso encerrou a conversa dizendo: “Sei bem quais são as minhas prioridades. Meus livros podem passar sem mim. Minha mãe, não“. Se eu a admirava antes, a partir daquele encontro saí mais encantada. Em um mundo produtivista como o nosso, levantar uma bandeira a favor da lentidão e defender a importância do tempo interno e do tempo dos afetos — ou seja, defender que não somos máquinas, que temos vidas que correm junto e muitas vezes cruzam os nossos trabalhos —, acho que não é demais dizer que foi um ato de resistência, que essa é uma forma corajosa de viver. Algo que não deveria ser privilégio para poucas pessoas, mas sabemos que infelizmente ainda é.

Esse é um texto de apresentação dessa coluna, que escolhi chamar de Pausa, afinada também com o novo momento editorial da Claudia. Aqui quero trazer algumas reflexões — e muitas perguntas sem resposta — sobre os dilemas da vida contemporânea. Para isso, vou recorrer aos meus três temas preferidos: cinema, literatura e psicanálise. A partir de filmes, séries, livros e textos, gostaria de iniciar algo que fosse mais parecido com um diálogo do que com um monólogo. No seu tempo, sem apressar o passo, convido você a vir comigo.

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