Eficiente na solidão
Entre buscas no Google, sugestões de IA e palavras esquecidas, Liana Ferraz reflete sobre o que perdemos ao terceirizar nossa memória para a tecnologia
De um tempo para cá, tenho tido alguma dificuldade em recrutar meu time para escrever textos ou dizer ideias longas e bem articuladas. Meu time = meu corpo e suas construções psicofísicas.
É sempre uma palavra que me escapa aqui, outra acolá; uma ortografia que me parece cada vez mais complexa e um cursor que, se você demora mais um tiquinho, já vem logo com uma sugestão de escrita, IA, começo, fim, versões etc.
As amigas e leitoras que sabem que sou do tempo em que Shakira estava entre fotos y cuadernos, entre cosas y recuerdos, já dirão que estou na perimenopausa. Estou recusando, por enquanto, esse crachá. Não parece ser meu caso (estou sempre de olho, prometo).
Estoy enloqueciéndome parece mais adequado.
Talvez os hormônios não estejam assim, tinindo, mas também é preciso colocar outras cositas na conta. E prometo parar com os trocadilhos em espanhol.
Estou terceirizando meu pensamento, senhoras e senhores, e quando preciso dele, encontro um ser meio cabisbaixo, mal nutrido e mal-humorado.
As palavras me faltam e é justo, justíssimo que elas me abandonem, já que estou aceitando pacificamente demais que elas morem numa memória que não é a minha, num arquivo de dados que, embora acoplado, não é meu corpo.
A palavra que perco não aguardo nem dois segundos para que apareça, não levanto cartazes de resgate ou faço promessa pra São Longuinho. A palavra perdida na minha mente logo é procurada por um buscador digital, online e muito eficiente, mas genérico.
Ando nostálgica.
Porque, além da memória, sinto-me cada vez mais eficiente em desencontros. Já fui das que repetiram o meme “essa reunião poderia ter sido um e-mail”, mas calma lá, algumas reuniões são boas justamente porque podem ser ineficientes, arriscadas, ter um café bom, um silêncio constrangedor ou um sono que precisa ser controlado.
As reuniões não servem também para que a gente lembre que ser humano é ruidoso e meio estranho? Para lavar o rosto e calçar sapatos já que o outro exige de mim algum decoro?
Vamos deixar tudo eficiente demais? É isso mesmo?
Não sei se quero.
Esses dias fui procurar um poema do Manoel de Barros para uma aula de escrita criativa. Eu tenho o livro, mas não sei onde está e lembrava de uma parte do poema. Dei um bom e velho Google e fui poupada da busca pela bagunça na minha estante.
Fui poupada da chance de encontrar outro poema e ele ser melhor do que o que eu buscava, de achar um livro que nem lembrava que tinha, de perceber que preciso tirar o pó da estante e arrumar minha biblioteca.
Não abri armários, nem revi capas e lombadas de livros; não ouvi as patinhas da minha cachorra me seguindo para lá e para cá, essa musiquinha bonitinha de amor.
Fui poupada da vontade de tomar um café quando passasse pela cozinha, fui poupada das plantas pedindo água, fui poupada do corpo, equilibrando-se numa cadeira.
Eu abri uma janela no computador e fechei essas outras tantas, que fazem dança com meus pensamentos, justamente porque não são precisas no passo.
Quantas partes do meu corpo eu deixo de lado para economizar um tempo que eu nem sei para que vou usar se não for justamente para catar poesia nas estantes?
Eu estou do lado das palavras: não é possível abandoná-las assim, num galpão frio e virtual.
Elas merecem nosso cuidado bagunçado, nossos cheirinhos e cafés.
Ah, o poema diz assim: “poderoso para mim não é aquele que descobre ouro. Poderoso para mim é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas)”.
A sorte é que a poesia sabe fazer caminho de volta em mim, mas seria melhor cuidar mais do acervo.
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