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Lorena Portela, escritora e colunista da revista CLAUDIA

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Autora do sucesso "Primeiro Eu Tive que Morrer", Lorena Portela é cearense, escritora e jornalista. Vive em Londres, mas a cabeça mora aqui, no Brasil.
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A benção de poder chorar como uma garota

Uma elaboração sobre a importância da educação emocional para os garotos também: que possamos chorar, todos nós, em paz

Por Lorena Portela
20 abr 2023, 09h31

Existe alguma coisa medicinal numa roda de amigas. Amigas somente, sem marido, namorada, parceiro, filho, filha. Alguma coisa prevista na ciência ou nos astros, um movimento, um cometa passando pela Terra. Sala de casa, sofá, um gato, taças de prosecco, Nina Simone, LCD Soundsystem, Tim Maia, Etta James, Manu Chao, forno ligado, cuscuz marroquino, cogumelos fritos, ervas boas plantada na varanda, shoyu. O jantar nem era pra ter um assunto, uma pauta, um objetivo, é só um encontro, uma noite de sexta-feira para quebrar o tédio de um dia que só fez chover. Era para ser só isso, mas a vida está ruim pra geral, estamos cansadas, feridas, doentes, e, graças às deusas, podemos-sabemos-queremos chorar as pitangas. 

O coração na mesa, o corpo desabando nos braços da outra apenas porque dói. Dói tudo, dói os ombros, a cabeça, o peito, as pernas, dói não conseguir respirar direito, saber que a (auto) rejeição é movimento que se automatizou ao longo dos anos. Doem as decisões que tomamos, as que deixamos de tomar, a avalanche de responsabilidades, as frustrações, dói ter que ceder no que não se cede, dói a falta de sincronicidade entre o desejo e o destino. 

Dói pensar que amar deveria ser a mais simples das tarefas, mas parece a complicada do mundo, de repente. Dói porque aqui estamos, as sobras semi-vivas de governos tiranos + pandemia mundial + guerra aqui do lado que desbloquearam outros níveis de pânico, de perdas, de saudade, de paranóias, de convicção da própria pequenez.  

E deixar que a dor nasça ali no meio das palavras é um jeito eficiente de fazer a dor morrer também. Entre um punhado de lágrimas e outro, o momento de subir na cadeira e gritar enquanto toca “I can change, I can change, I can change” e não saber se as lágrimas chegando aos montes são pela música triste ou pelo coração idem. 

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É remédio, o cometa passando, a Terra se movendo.

Dentre tantos motivos pelos quais o patriarcado deve ser contestado diariamente, este é um dos que os homens deveriam abraçar para ontem: o machismo os priva de momentos assim. De sentar por seis horas diante dos amigos e se questionar, buscar respostas, encarar o sentimento, verbalizar as frustrações e decisões que precisa tomar, sofrer pelo que está ruim. E dançar, dançar um pouquinho. Chorar, chorar, chorar, uma, duas, três, quatro vezes na mesma noite, deixar o rosto dobrar de tamanho, pedir colo e abraço e carinho apenas porque o mundo é uma merda e a nossa geração está toda fodida e parece que há esperança no final de algum arco-íris, mas não para nós. 

Meninos precisam ser treinados barra motivados barra educados barra libertados para pedirem socorro. Para correr para o sofá do melhor amigo e implorar por ajuda sem o medo de perder a carteirinha de macho. Aliás, homens têm que querer perder a carteirinha de macho porque é um título que destrói tudo, inclusive eles mesmos.  

Homens, rapazes, garotos, desabem, desaguem, chorem como nós. Sentimento é força, querer amar mais e melhor é poderoso, derramar umas lágrimas de cansaço os tornam gente e falar de dores em voz alta é parte da cura. Chorar copiosamente nos braços das amigas enquanto Nina Simone canta tem um quê de medicina. E vocês não têm a menor ideia do que estão perdendo.

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