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Conheça um apartamento na Barra Funda que respira arte

O olhar apurado de Carollina Lauriano revela garimpos não só no seu trabalho como curadora, mas também dentro de seu lar

Por Marina Marques Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
30 abr 2023, 06h56

São muitos os fragmentos da personalidade de Carollina Lauriano espalhados pelo seu apartamento. Sua história pode ser contada por meio da escolha dos móveis garimpados em São Paulo ou pelos livros que trouxe de uma viagem especial a Buenos Aires. Mas para entendê-la profundamente, a ponto de ler sua alma, é preciso direcionar o olhar para as paredes de seu apartamento na Barra Funda, em São Paulo.

Colorindo a parede da sala de jantar está um presente de um amigo: o artista Fábio Menino. A pintura a óleo é intitulada Liquidificador e batedeira, da exposição Objetos Funcionais
Colorindo a parede da sala de jantar está um presente de um amigo: o artista Fábio Menino. A pintura a óleo é intitulada Liquidificador e batedeira, da exposição Objetos Funcionais (Foto: Mayra Azzi/CLAUDIA)

Penduradas ali estão obras de arte escolhidas pela curadora que denotam predileções e vão muito além da estética. São esboços capturados a partir de laços que revelam sua missão de vida: cavar a fundo até encontrar joias que estão à espera de uma luz para brilhar.

Formada em jornalismo e com uma carreira em agências de relações públicas, com foco no mercado de luxo e de moda, Carollina precisou trabalhar arduamente até encontrar uma zona de conforto que a permitisse se dedicar a uma grande paixão que cresceu ainda quando menina: a arte.

Ambas as esculturas foram adquiridas por Carol na loja do Museu de Arte de São Paulo: a cabeça de barro é de Cida Lima e o bugrinho é reprodução do trabalho de Conceição dos Bugres. “Gosto de mesclar trabalhos ditos de arte ‘popular’ com a contemporânea, borrando esses limites que apontam o que é ‘alta’ e ‘baixa’ cultura.” Ao lado, o Bicho do Pantanal, criado pelo povo da etnia Terena
Ambas as esculturas foram adquiridas por Carol na loja do Museu de Arte de São Paulo: a cabeça de barro é de Cida Lima e o bugrinho é reprodução do trabalho de Conceição dos Bugres. Ao lado, o Bicho do Pantanal, criado pelo povo da etnia Terena (Foto: Mayra Azzi/CLAUDIA)

“Gosto de mesclar trabalhos ditos de arte ‘popular’ com a contemporânea, borrando esses limites que apontam o que é ‘alta’ e ‘baixa’ cultura.”

Carollina Lauriano, curadora

“Eu fui uma típica criança criativa, mas vim de uma infância difícil, minha mãe trabalhava em dois ou três empregos para sustentar dois filhos, então não tinha acesso à arte. Mas, na escola, alguns professores viam meu interesse e me incentivavam; eu entrei nesse mundo por meio da leitura. O livro me dava a capacidade de pensar em outras realidades: era uma fuga e também um lugar de liberdade.”

O amplo apartamento na Barra Funda, refúgio da curadora Carollina Lauriano, abriga algumas de suas obras favoritas, como a pintura do soteropolitano Rubem Valentim
O amplo apartamento na Barra Funda, refúgio da curadora Carollina Lauriano, abriga algumas de suas obras favoritas, como a pintura do soteropolitano Rubem Valentim (Foto: Mayra Azzi/CLAUDIA)

A inquietação sempre a acompanhou, mas ficou mais evidente com o passar dos anos, conforme a experiência e maturidade mostraram que era hora de buscar se realizar de outras formas. No ano de 2013, com o Brasil vivendo um momento político complexo, ela observou o irmão, Jaime Lauriano, artista visual, trazer para sua vivência esse contexto de reivindicação da juventude por direitos.

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erâmica da Oficina Brennand, do Recife, e obra da paulista Dora Smék
Cerâmica da Oficina Brennand, do Recife, e obra da paulista Dora Smék (Foto: Mayra Azzi/CLAUDIA)

“Isso foi moldando minha percepção de mundo. Sempre quis trazer essa visão da pluralidade de alguma forma, por exemplo: questionar o padrão das influenciadoras contratadas para as campanhas da agência onde trabalhava… Porém, tudo era sempre barrado, comecei a ficar muito incomodada. Percebi que isso ser negado era como negar meu corpo também naquele espaço. Eu era a única pessoa preta num lugar de liderança, sendo que meus iguais estavam trabalhando em cargos braçais. E como é solitário fazer uma mudança a partir de si próprio. Estava ali sozinha me defendendo.”

O vaso é obra da artista Jacqueline Faus, que cria esculturas em cerâmica cuja noção de paisagem se manifesta pela gestualidade da artista
O vaso é obra da artista Jacqueline Faus, que cria esculturas em cerâmica cuja noção de paisagem se manifesta pela gestualidade da artista (Foto: Mayra Azzi/CLAUDIA)

A formação em Pesquisa e Análise de Tendências pela Central Saint Martins (University of the Arts London) foi a alavanca que precisava para iniciar a carreira como curadora independente, título que carrega desde 2017.

Nos anos que se seguiram, fez parte do time do Ateliê397, um dos principais espaços independentes de arte na capital paulista, e também se dedicou a projetos que inserem jovens mulheres artistas no mercado da arte, como na mostra Corpo além do corpo, que discute o corpo queer e a transexualidade feminina, e também em A noite não adormecerá jamais nos olhos nossos (uma referência ao poema de Conceição Evaristo), exposição na Galeria Baró, que foi a primeira a reunir 20 artistas racializadas em uma galeria comercial.

A escultura de lâmina é da artista carioca Lyz Parayzo
A escultura de lâmina é da artista carioca Lyz Parayzo (Foto: Mayra Azzi/CLAUDIA)

“Era mais do que uma exposição, profissionalizamos essas mulheres, explicando o mercado de arte e fazendo essa ponte com os galeristas, respeitando as particularidades de cada artista. Não dá para tratar uma artista preta periférica igual a uma branca de classe média.”

“Amo estar cercada de coisas bonitas, assim como objetos que tenham história. Meu apartamento é pensado para ser um lugar agradável de se estar.”

Carollina Lauriano, curadora
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Aliás, foram esses espaços de arte que abriram os olhos da comunicadora para o bairro onde vive hoje, a Barra Funda. Carollina move-se pela cidade de acordo com as exigências do trabalho. Seu bairro abriga, além do atual escritório da curadora, a Usina Luis Maluf, espaço de Residência Artística no qual Carollina já atuou, e também o Ateliê397.

“A Barra Funda é, hoje, sede de um novo momento em São Paulo, a cidade é migratória e tem isso dos bairros serem formados a partir de artistas que migram e formam comunidades. Foi aqui que encontrei o lar ideal, onde pude dividir o espaço de trabalho, meu escritório, da minha casa. Apesar de ainda ser bem difícil separar as duas coisas”, detalha sobre o apartamento para o qual acaba de se mudar.

O espaço amplo, de quase 100 m², é do jeito que Carol sempre desejou: com muita luz natural, silencioso e com varanda para as gatas, Francisca e Eva, pegarem um sol ao longo do dia.

O apartamento da curadora de arte Carollina Lauriano, na Barra Funda
O apartamento da curadora de arte Carollina Lauriano, na Barra Funda (Foto: Mayra Azzi/CLAUDIA)

No estar, não só as cadeiras de palhinha são garimpadas, como também a mesa Saarinen: “Fiquei muito tempo garimpando; é uma réplica, mas não queria colocar algo novo, como um mármore”, explica. O banco George Nelson, abaixo da TV, revela o gosto da curadora pelo design e decoração.

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“Gosto de móveis que vêm com marcas de uso. Tem um banquinho, onde ficam os livros ficam apoiados, que eu achei na rua e mandei restaurar. Acho que tenho esse olhar para identificar potências”, dá risada.

A dificuldade de divisão do trabalho e da vida pessoal tem seus pontos positivos. Basta ver o cuidado com o qual Carollina selecionou cada uma das obras que a acompanham em sua rotina de casa, seja nos dias de alegria ou nos mais desafiadores.

Uma das obras mais significativas para a curadora, a peça foi desenvolvida pelo Mc Gh da Capital, um dos artistas-adolescentes participantes do projeto Refúgio
Uma das obras mais significativas para a curadora, a peça foi desenvolvida pelo Mc Gh da Capital, um dos artistas-adolescentes participantes do projeto Refúgio (Foto: Mayra Azzi/CLAUDIA)

“Tenho uma coleção de arte que é baseada num processo curatorial meu, daquilo que faz sentido para mim. Compro muito mais obras
de mulheres artistas que homens.”

Carollina Lauriano, curadora

“Nas minhas curadorias, acabo sempre voltando para meu passado, desse lugar da falta. Se eu tivesse tido orientações, minha carreira poderia ter ido para outro lugar, o estímulo teria encurtado caminhos. Por isso, a educação é tão importante para mim”, conta ela, que há mais de dois anos coordena o projeto Refúgio, uma formação educativa artística ampliada para jovens adolescentes egressos da Fundação Casa. “Ali, nós desenvolvemos não só cidadania, mas também a possibilidade deles sonharem. A arte é apenas um ponto de partida.”

A empolgação que transcende suas expressões ao falar de arte deixa uma certeza: as paredes da atual morada já podem se preparar para receber novas histórias.

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