A jornalista Izabella Camargo retoma a carreira depois de sofrer burnout

Em coluna, ela conta que a síndrome não é o fim, mas um freio

Eu já trabalhava com o jornalismo chamado hard news (notícias do dia a dia) havia mais de 13 anos. Fiz reportagens e apresentei jornais na Band, na BandNews TV e na TV Globo, onde também apresentava a previsão do tempo. Cobri eleições, tragédias aéreas, corri de usuários de drogas e manifestantes descontentes com a presença da imprensa. Porém, no dia 14 de agosto do ano passado, dentro do estúdio, vivi a situação que mais me deu medo. Às 6 e pouco da manhã, tive um apagão no ar, ao vivo, durante aparição no jornal Em Ponto, da GloboNews.

Já havia tido outros episódios – fazia dois anos que eu pedia ajuda aos meus chefes e ao setor de recursos humanos –, mas este foi o mais grave. Esqueci o nome da capital do meu estado e perdi todos os sentidos e habilidades. Não sabia qual jornal apresentava, o que estava fazendo nem para onde teria que ir. Quando recobrei minha condição normal, ainda apresentei a previsão do tempo no Bom Dia Brasil e, só depois de encerrar as tarefas profissionais, fui ao psiquiatra. No caminho, quase bati o carro três vezes e cheguei ao médico sob risco de convulsão. Recebi o diagnóstico de síndrome de burnout. Fui afastada para cuidar da minha saúde mental – ou doença ocupacional, como preferir.

Dois meses e 15 dias depois, ao retornar da licença médica, fui dispensada. No mesmo dia em que estava feliz por voltar, senti a tristeza mais violenta.
Só meses mais tarde entendi que estava sentindo na pele as consequências dos novos tempos. Tempos mais acelerados, competitivos e que nos submetem a excessos que nos sobrecarregam. Tempos em que ultrapassamos nossos limites diariamente para mantermos nossas responsabilidades financeiras e familiares, com medo de perder o emprego.

Hoje, cerca de um ano depois do episódio, após ouvir especialistas de diversas áreas, médicos do trabalho e mais de 3 mil pessoas que me procuraram relatando suas dores, posso dizer que só tem burnout quem, por amar tanto o que faz, se ausenta de si mesmo. Quem gosta de resolver problemas, é competente, responsável, quem veste a camisa, mas que não pode errar ou mostrar que sua vulnerabilidade está perto de um colapso. Até o corpo dizer: “Chega!”.

Desde a Revolução Industrial, somos cobrados a fazer mais e em menos tempo. Mas o cérebro não aguenta viver sob estresse crônico e por longos períodos. Desenvolvi o esgotamento profissional na TV Globo, mas poderia ter sido em qualquer lugar. Principalmente naqueles ambientes em que as pessoas são muito cobradas. Todo mundo que tem burnout se lembra do momento em que se sentiu desvalorizado por alguma discussão, assédio moral ou qualquer fato que faz o copo transbordar.

A boa notícia é que o burnout não é o fim, mas apenas um freio. É possível recomeçar respeitando os próprios limites. Outra boa notícia é que a Organização Mundial da Saúde passou a reconhecer a origem do burnout no ambiente profissional. Ao tirar o assunto da clandestinidade, algumas empresas já estão revendo seus processos para não perder talentos, e as áreas de recursos humanos vêm se atualizando. Meu conselho para você que lê este texto: evite adoecer para dar um novo significado àquilo que, um dia, foi sonho. Mude seus caminhos enquanto estiver com saúde física e mental. Você pode reencontrar sentido no seu trabalho e na sua vida. Com saúde será mais fácil.

Izabella Camargo é jornalista e hoje faz palestras em empresas e instituições públicas sobre prevenção de doenças ocupacionais.

Pane no Sistema

No dia 16 de outubro, o fórum A Hora do Cérebro vai debater como manter o equilíbrio na rotina profissional e outras questões relacionadas ao Burnout. O evento, que acontecerá das 8 às 13 horas no auditório do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, será parcialmente transmitido nas páginas de Facebook de CLAUDIA, SAÚDE e VOCÊ S/A.

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