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Stéphanie Habrich Stéphanie Habrich é empreendedora, apaixonada pelo mundo da educação e do jornalismo infantojuvenil. Fundadora do Joca, único jornal para jovens e crianças do Brasil, ela vai abordar aqui na coluna temas que interligam o contato com as notícias desde a infância e a educação, sempre pensando em como podemos ajudar nossos filhos a serem cidadãos com pensamento crítico.

Como preservar a saúde mental durante a pandemia?

Confira principais angústias que acometem grande parte dos adultos nesse momento de pandemia e como lidar com elas

Por Stéphanie Habrich 23 mar 2021, 17h02

Na edição 166 do Joca, jornal para crianças e jovens que fundei em 2011, trazemos um especial em que crianças e adolescentes falam sobre os sentimentos que o distanciamento social segue despertando nas suas vidas (acesse aqui). Inspirada nessa reportagem, resolvi trazer aqui uma reflexão semelhante para nós, adultos. Não são dicas, pois acredito que cada um sente e lida com as situações do seu próprio jeito, mas pensamentos que podem ser úteis neste momento em que estamos vivendo as semanas mais graves da pandemia no Brasil.

Um ano se passou desde que começamos a nos ver, praticamente, apenas através de telas de computadores e celulares. Eu, que sempre prezei tanto pela importância da troca de ideias com olho no olho e pelo dinamismo do presencial, tive que me adaptar a uma realidade antes impensável. Fomos obrigados a aprender a trabalhar e a estudar a distância e a conviver com o isolamento, a ausência de risadas presenciais e a escassez do contato humano que sempre tivemos como certo.

Foram – e ainda são, infelizmente – meses em que vivemos momentos de medo, dor, cansaço físico e mental, falta de perspectiva, convívio familiar intenso, luto, desemprego e sentimentos à flor da pele. Estamos todos emocionalmente exauridos.

Os americanos costumam dizer que o sofrimento nunca vem desacompanhado. Isso nunca foi tão verdadeiro como nessa pandemia aqui no Brasil. Além de toda a dor e incerteza, ainda tivemos, cada um de nós, de lidar com o inimaginável no nosso dia a dia. Tenho ouvido diversos relatos de pais e educadores que vêm travando verdadeiras batalhas para tocar a vida em meio à – ou apesar da – pandemia.

Eu mesma, no meu lado pessoal, atravessei um momento dificílimo no ano passado. Meu marido pediu o divórcio após dezessete anos de casamento. Perdi meu chão. Em meio ao caos e à total falta de contato físico com as pessoas mais próximas, vi minha paixão pelo trabalho minguar aos poucos, contaminada por um sentimento de desânimo e prostração.

A pandemia – e toda a carga emocional gerada pelos meses de confinamento – não poupou ninguém. Nem mesmo as crianças. Elas também têm passado por momentos de estresse, raiva, tristeza e confusão. O isolamento comprovou o que muita gente já intuía: nada substitui o contato com outras pessoas. Somos seres sociais. Precisamos do abraço, do colo, das risadas e das brincadeiras coletivas.

Assim como nós, adultos, nossos filhos estão passando por um turbilhão de sentimentos. Na edição 166 do Joca, que circula em março, eles abrem o coração e falam, de forma muito sincera, sobre a saudade que sentem da escola e dos amigos, do tédio de ficar em casa e das soluções que têm inventado para contornar a solidão do isolamento. Alguns desses depoimentos são uma lufada de esperança inclusive para nós, adultos, aprendermos a lidar com as agruras da pandemia com um pouco mais de leveza.

Felizmente, aquele velho clichê é verdadeiro: o ser humano é capaz de se adaptar e sobreviver ao impensável. Não é fácil – tenho certeza de que, a essa altura, contabilizamos mais momentos de frustração do que de alegria. Mas o fato é que ela, a alegria, existe. E ninguém melhor do que as crianças para nos mostrar o caminho.

Por isso é tão crucial que a gente dê prioridade ao bem-estar emocional das nossas crianças e jovens. Eles precisam poder correr, brincar e andar de bicicleta para que suas forças possam renascer e eles possam continuar crescendo e se desenvolvendo. E se, nós, adultos, estivermos saudáveis mentalmente teremos mais condições de ajudá-los a se manterem firmes ao longo da pandemia.

Para aprofundar ainda mais o nosso debate sobre os desafios desse período, abaixo, você verá depoimentos em que pais e profissionais contam como está sendo enfrentar esse momento em suas respectivas casas e trabalhos. Em seguida, trago uma entrevista com a psicóloga clínica Natércia Tiba, que fez algumas análises sobre o contexto atual e deu conselhos sobre como lidar com o desgaste mental causado pela pandemia. Espero que essas falas ajudem a perceber que estamos todos navegando no mesmo oceano e que, apesar de os desafios serem grandes, tudo tem uma solução. O importante é continuar se mantendo firme e forte.

O que dizem pais e educadores?

“Sou mãe de um filho único e fico muito angustiada em vê-lo trancado dentro de casa o dia inteiro pedindo para encontrar os amigos. Antes eu até promovia vários encontros para ele ter uma vida social, mas agora o momento é muito crítico. É angustiante criar um equilíbrio entre o que o meu filho pode e não pode. Também sempre me sinto culpada e penso se estou dando apoio suficiente para ele nesse momento ou se estou mais preocupada em me reinventar no meu trabalho. Em relação ao relacionamento com meu parceiro, assim como todos os casais, nós tínhamos uma rotina estabelecida que acabou mudando. Fizemos um acordo que decidiu que meu marido continuaria saindo, porque a gente preferiu correr o risco do contágio, mas assim a gente poderia manter um distanciamento, porque eu sempre trabalhei de casa, mas as coisas ficaram mais difíceis com outras pessoas no meu home office. São muitas coisas que nos angustiam e ainda tem a questão da tristeza, porque nesse momento tenho dois familiares jovens hospitalizados com uma pneumonia que não cede por causa da covid-19, então, temos dias difíceis. Sobre meu trabalho, ele foi bastante prejudicado durante a pandemia, porque eu trabalhava com visitas guiadas para crianças em museus e galerias e agora as galerias fecharam. Perdi essa parte e estou tentando me reinventar. É uma angústia louca. Diariamente eu me olho no espelho e já começo a esquecer a mulher que fui, porque a gente não se arruma tanto por estar em casa e, mesmo assim, sentimos que temos que nos manter bonitas e magras.” Geórgia Lobacheff, fundadora da empresa Curió Arte & Criança

“No começo fiquei com dúvida em como seria voltar a dar aulas presenciais e até especulei se poderia ter algum problema [relacionado ao contágio da covid-19], mas recebemos vários treinamentos e orientações da escola e procuro sempre montar minhas aulas de modo a seguir os protocolos. Então percebi que, na escola, as crianças estão sendo bem mais orientadas e controladas do que em outros lugares. Espero muito que em todas as escolas os professores possam sentir essa tranquilidade. No início da pandemia eu ficava preocupada se os alunos estavam gostando da aula e prestando atenção e agora, com as novas restrições, estamos fazendo aulas remotas de novo. Como toda hora as orientações do governo mudam, a gente precisa repensar muito as aulas, mesmo que em cima da hora, e tentar sermos muito criativos. Já vi muitos casos em que as crianças têm dificuldade de acompanhar o ensino on-line, então os professores e toda a escola precisam trabalhar muito para conseguir fazer aulas em que as crianças estejam interagindo. Além disso, os alunos precisam ter uma boa conexão de internet e um lugar onde possam estudar e focar, mas mesmo tendo tudo isso a escola tem que proporcionar uma aula muito dinâmica, o que não é fácil.” Tina Caroline Turkie, professora na Stance Dual School, em São Paulo (SP)

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Conversa com especialista

Para entender quais são as principais angústias que acometem grande parte dos adultos nesse momento de pandemia, a equipe do Joca conversou com a psicóloga clínica e psicoterapeuta de casal e família Natércia Tiba Machado.

Quais são os principais sentimentos com os quais as pessoas estão tendo que lidar neste momento?
Como eu atendo muitas famílias, eu sinto, nos atendimentos, que os pais estão experimentando um misto de ansiedade, por tudo o que está acontecendo, com momentos depressivos por causa dessa privação de contato e de convívio. Achamos, no começo da pandemia, que o virtual ia ajudar muito, mas percebemos que, apesar de ajudar, ele não supre.

Além disso, há uma angústia muito grande em relação aos filhos, em que os pais se perguntam se eles estão cumprindo o que deveriam em termos de escola e aprendizado e se estão sendo estimulados como deveriam. Também há uma ansiedade em como delimitar o convívio em casa, sobre como trabalhar em casa e, ao mesmo tempo, garantir que o filho esteja no contexto escolar. Então, conflitos familiares foram gerados porque de repente a família teve que dividir o mesmo espaço.

Algumas famílias conseguem resolver isso de uma maneira muito positiva, mostrando que estão todos no mesmo barco e é necessário resolver isso em equipe, mas tem outras que estão tão atrapalhadas com o trabalho que não conseguem fazer isso. Mas eu acredito que se você tiver alguém de fora para te orientar, isso pode te fazer enxergar coisas que melhorem esse convívio.

Para pessoas que já têm quadros de ansiedade e depressão, por exemplo, esses quadros estão tomando dimensões maiores, além de insônia e apatia. Ou seja, elas podem estar apresentando sintomas que antes não apareciam.

Até que ponto é saudável consumir informações sobre a pandemia? Existe um modo de consumir informações corretamente?
Nesses casos entra a questão do autoconhecimento. Nesse processo de autoconhecimento, muitas pessoas estão percebendo o quanto elas absorvem outras emoções em relação ao que está acontecendo lá fora. Se você sabe que ver muitas notícias te afeta muito e você se sente neurótica com os cuidados relacionados à pandemia, pode ser saudável ter menos contato com notícias relacionadas à pandemia.

Mas se você é uma pessoa desligada que precisa dessas notícias para alertá-la do que está acontecendo, é importante consumir notícias. É a partir desse autoconhecimento que passamos a dosar como devemos consumir informações: se precisamos ler e deixar de ver televisão, por exemplo, que costuma ser mais sensacionalista, ou se estamos consumindo diretamente.

Pessoas ansiosas costumam ter a sensação que precisam continuar consumindo notícias toda hora para saber o que está acontecendo e se proteger, mas isso pode acabar gerando uma ansiedade em excesso.

Por que parece que algumas pessoas não têm medo? Elas escondem o medo, como um mecanismo de defesa?
Eu acho que tem, sim, esse mecanismo, mas não é só isso. Tem certos apelos que nos despertam a preocupação, como a nossa própria saúde e dos nossos familiares, a sociedade e os sistemas de saúde, e sabemos as consequências da doença nesses casos.

Mas quem nega a situação tem também uma falta de empatia. Acho que a gente fala, além do negacionismo, de uma geração de adolescentes e adultos que não é capaz de se privar de nada e não pensa nas consequências que isso tem em tantos âmbitos. Temos uma doença social muito grande, que é o individualismo e a falta de empatia total, o que é muito mais amplo e mais grave do que o negacionismo.

Agora que o convívio está acontecendo no núcleo familiar, é importante perceber como as pessoas que moram conosco estão se sentindo. A quais sinais os pais precisam ficar atentos para garantir que filhos estejam bem?

Os pais só vão notar os sinais se estiverem convivendo com os filhos. No caso dos adolescentes, por exemplo, que ficam mais tempo no quarto, isso é muito difícil. Mas mesmo nesses casos, é preciso ficar atento se o filho tem contato com os amigos pelo telefone, se ele joga, se dá risada. Filhos adolescentes isolados dos pais é algo comum, mas é importante que eles tenham contato com amigos. Mudanças de apetite e de comportamento, apatia muito grande e choro também são alertas.

O que está sendo mais comum são os sintomas de ansiedade, como falta de ar entre as crianças, medo em excesso à noite, insônia e mudanças no funcionamento do corpo, como ir muito ao banheiro. Tudo o que é em excesso, que sai do padrão, é um alerta. Todo mundo está com o humor alterado, mas o que sai muito disso é um motivo para ficar atento.

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