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Crônicas de Mãe Por Ana Carolina Coelho. Feminista, mãe, escritora, poeta, dançarina, plantadora de árvores, pesquisadora e professora universitária

Mães ficam cansadas, com medo e exaustas

Ao abraçar o “decreto férias”, Ana Carolina percebeu em meio ao caos de trabalho, família e necessidades individuais que não estava só

Por Ana Carolina Coelho - 4 out 2020, 15h02

Eu estou exausta. O mundo está ferido, minha casa está uma bagunça e tudo hoje me parece assustador. O dia amanheceu e as crianças acordaram, mas tem “dias que parecem noites” dentro de nós. Eu giro dentro de mim e não me encontro em lugar algum e preciso levantar e sorrir e fazer café. O café talvez me salve, só por hoje. A cabeça dói. Há fuligem de queimadas e cheiro de morto no ar e eu não quero uma casa imaculada, só uma em que, pelo menos, não haja bonecas no escorredor de louças. Alguns minutos de silêncio seriam fantásticos. Essa não me parece uma crônica animadora, mas é o que eu preciso escrever hoje.

Hoje eu acordei cansada. Há links de reunião me esperando, e coisas muito importantes sendo ditas dentro deles; trabalhos para serem corrigidos; pessoas queridas e desconhecidas me pedindo ajuda; e-mails para serem respondidos; mais uma reunião marcada; textos para serem escritos; ideias para serem elaboradas; livros me olhando pacientes esperando a hora de serem lidos; artigos baixados para avaliação; pareceres a serem feitos; mais uma reunião agendada; uma mesa a ser coordenada; uma palestra para ser esquematizada; uma entrevista marcada; lives de pessoas amigas para serem vistas, prestigiadas e divulgadas; revisão de artigos para serem publicados; mais uma reunião agendada. Tudo muito importante, estimulante, desafiante.

Eu ainda não tomei café e ainda não tive um minuto de silêncio. Há aulas, deveres, tarefas, revisões, almoço, lanche, jantar, programas de TV, diversão, roupa para lavar, recolher, guardar, louça, lista de compra, telefonemas, remédios dos bichos, ração, água fresca e aquelas partituras que eu estou há mais de um mês para imprimir e estudar.

Tomo o café com barulho mesmo e olho as notícias. O mundo está falido: a economia, a sociedade, a ética, as emoções, tudo agora tem um preço. Penso, ironicamente, em tirar uma foto da xicara de café e postar #cafemoidonahora #pequenasalegriasdavida e choro. Uma sociedade da alegria constante adoraria receber essa oferenda sacrificial da foto perfeita com a legenda perfeita de uma vida sem defeitos. A professora que encontra tempo para se deliciar com as alegrias da vida. Não há alegria hoje. Eu não estou aqui. As lágrimas molham meu café de sal e eu – que ando saudosa do mar – bebo o oceano que brota de mim.

Mães sentem medo. E se sentem muito mais vulneráveis do que eram antes da maternidade. Antes éramos bravas, ferozes e ousadas. Hoje, cabos de panela para fora do fogão me causam pânico. Pensamentos como “e se alguém esbarrar?”, “e se pegar no olho?”, “desça daí agora!”, “isso pode dar alergia” e coisas simples me aterrorizam.

Hoje eu me olhei no espelho e enxerguei um reflexo imperativo marcial: não fique doente! NUNCA MAIS! Você agora é a sua casa. Só que eu estou exausta. Sinto-me girando dentro de mim e tento me enxergar e eu estou longe e não há luz. Mães não deveriam ficar doentes. Mas ficamos. E ficamos com medo, cansadas e exaustas porque tudo recai em nossos colos. E tudo eu tenho que pedir, falar, formular, desenhar, criar tutoriais, explicar e argumentar. Eu estou perdida e exausta. Eu leio um artigo que diz que “mães precisam de tempo para si, para fazerem as unhas, cabelos e ficarem bonitas”. Eu olho minhas unhas e cabelos e sei que seria legal ter tempo para finalmente fazer algo pelo MEU corpo sem ter que depois pagar cada segundo com milhares de tarefas que não foram feitas nesse meio tempo. Acreditem, nesse mundo em que tudo é pagamento, ou alguém foi pago para fazer por nós, ou teremos que fazer o que ficou para trás nesse “tempo só para gente”. E eu não tenho como pagar mais nada porque nem sei onde eu estou na maior parte do tempo esses dias. Eu penso no almoço, respondo meus e-mails, corrijo algumas tarefas e fecho os olhos. Eu estou cansada, com medo e exausta. E o dia continua brilhando e dizendo uma casa não funciona sozinha.

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Minha filha mais nova esses dias atrás sentou no sofá e disse: deita aqui no meu colo, mamãe! E foi o melhor momento de toda a minha semana. Eu não me lembro qual foi a última vez que recebi um colo assim, tão espontâneo, com direito até a um cafuné. O desenho era algo que eu não suporto mais ouvir e eu preciso de silêncio, mas em minha memória não há o registro do som apenas das suas pequenas mãos mexendo no meu cabelo. Algo inocente e que não me cobrava nada em troca. Algo que eu não pedi e que eu não precisei explicar. Amor.

O terror, a alegria, o medo, a impotência são pedaços quase tangíveis da maternidade. A poderosa entidade “Mãe” pode ser as asas de um grande voo e uma cápsula que lentamente sufoca a nossa essência, simultaneamente. Hoje, aqui dentro, não há espaço entre voar e perder o fôlego. Se as famílias precisam das mães, igualmente precisamos delas para existir.

Eu demonstro meu amor todos os dias levantando e sendo mãe. E arrumando a casa, brigando, brincando, educando, alimentando, banhando, inventando, provendo as necessidades físicas e emocionais da casa. Eu sou a casa. E eu hoje acordei cansada. Eu não quero ser minha casa e outras pessoas moram aqui. Preciso fazer diferente, mesmo que o diferente não funcione todos os dias. Eu preciso lembrar que eu moro aqui dentro de mim e da casa também. E isso talvez não seja desamor pela família que eu tanto amo. Talvez seja amor por mim. Eu não quero fazer unha ou cabelo e voltar a não existir. Eu estou exausta e com medo e não são “coisas” que vão me achar e me “descansar”. Eu quero é me não precisar me fragmentar em milhares de cacos todos os dias. Eu não quero mais ser a casa sozinha. Mora mais gente aqui. Gente pequena e grande que me ama. Mas a questão não é desamor deles. Hoje eu entendi o que preciso fazer: eu me decretei férias. A casa sobreviverá sem mim. As crianças sobreviverão, tenho certeza.

Eu acordei muito cansada e com muito medo. Há cada vez mais trabalho e menos tempo e espaço para existir nesses tempos de isolamento social. Desliguei o wi-fi, a internet e as reuniões que pude adiar. Eu sei que dependo disso para viver, mas nem tudo é só minha responsabilidade. E para viver eu dependo de mim e mães que esquecem de si acabam nunca mais se encontrando. Algumas tarefas eu posso adiar ou replanejar e faze-las mais leve. Não sei. Posso tentar, pelo menos. E eu sei que tenho pessoas queridas que me apoiam e me amam. Mas, assim mesmo, hoje eu acordei “Atlas” e o peso das dores do mundo está insuportável. O choro continua aqui e eu o deixo cair livre e sorrio. Tudo está tão terrível e desalentador. Mães têm medo de futuros incertos e tempos sombrios. Queremos que a vida seja sempre alegria e esperança. Nossas crianças depositam em nós a confiança de que vamos resolver todos os problemas.

Eu, hoje, mal consigo existir. Assim que coloquei o “decreto férias” em ação, fiz uma única proclamação: “Hoje a mamãe saiu. ” As crianças riram. Assim que fiz isso fiquei um pouco maior e me vi, lá longe ainda, mas me vi afinal: Eu estava sozinha, malcuidada e precisando de auto carinho mesmo. E agora eu não estou sozinha, porque me achei no meio de tanta confusão e afazeres. A risada delas ajudou bastante. Estamos em casa, isoladas, e farei apenas o mínimo possível. Eu vou dançar sozinha ou com elas, como quiserem, e me deixar ser as músicas eu tanto ouço quando existe silêncio. E vou deitar ao lado das flores que planto e ver o Sol. Descansar e sonhar. A praia está longe mas, nesse momento, o mar vive em mim. Acordei despedaçada e vazia e dormirei sendo poesia. Mães moram nas pequenas resistências do cotidiano. Boa noite!

Em tempos de isolamento, não se cobre tanto a ser produtiva:

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