RIP

Torço para que os caçadores de vidas que ficam no céu, pescando seres, ignorem a mim e aos que eu amo numa amnésia longa

Morreu? Como assim? Nunca mais vamos nos ver. De pé para o fato, seguimos enterrando nossos amigos e contemporâneos. Vida breve arrancada do oi na esquina; do passa lá em casa; do me liga. E mais perto do the end, abismados com o óbvio, engasgamos a cada sopetão fúnebre.

Essa semana tive um treco. Atropelado, o amigo seguia firme no CTI. Mas veio a dona morte e lhe deu aquele aceno. Vem. Chegou sua hora. E eu – tonta com a violência do nunca mais – procuro no meu HD mental um monte de lembranças dele. O clube no Leme. O cinema com as crianças. O tênis com ex-marido. O cabelo caindo nos olhos. O sorriso estampado no rosto. A separação da minha amiga.

A vida nos afastou e só nos reuniu aqui, diante do caixão. Nas redes, tantos relatos amorosos. O cara era uma unanimidade no coração partido do jornalismo carioca. E esse meu sentimento não é inédito. Em 1423 alguém sentiu o mesmo. 1762, 1998, 840 a.C e agora mesmo um outro ser está no mesmo local que eu. Neste pedestal da surpresa da partida dele, dela, que estava agorinha aqui. E neste fila indiana desorganizada, torço para os caçadores de vidas que ficam no céu, pescando seres, ignorem a mim e aos que eu amo, numa amnésia longa. Durma morte. Durma.

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