Inspira, respira, não pira

Tem sido um vestibular das emoções, uma abundância de esperança para dias melhores

Não sei se é o calor carioca. Não sei se é a menopausa. Ando irritada com a humanidade. O sol nasce, a chuva despenca, as noites empretecem e o dia renasce. Um mecanismo eterno de potência e de relaxamento. Um binômio estranho, essa metamorfose ambulante da qual somos feitos. Uns, mais seguros e focados, parecem alheios aos movimentos externos da vida. Outros, nascidos aflitos com a régua do tempo, se enrolam em seus cotidianos banais na esperança de fazerem a diferença.

Já quis ser muito importante. Já quis ser rica. Olhava uns apartamentos no Leme e fazia planos de morar em imóvel próprio em plena orla da Avenida Atlântica. Quis silhueta 40. Manter joias de família. Aprender melhor o italiano. Ser master em esgrima. Tudo um delírio curricular que nem de longe se firmou. E hoje, caminhando para os 60 (caraca, faltam 5 anos), ganhei uma meditação online, via zap, com o mestre hindu Deepak Chopra.

Pareço uma retardada, no metrô, no sofá, na banca da praça. Sobrou um tempo, estou plugada na meditação dos 21 dias de abundância. No link diz que o objetivo é material (eu nem acredito), mas sabe que está me fazendo um tremendo bem? Sigo o passo a passo, em inglês, com tradução simultânea em espanhol, do guru indiano. Ele tem fala mansa e suas metáforas para atingir a paz interior são tão delirantes que consigo até me descolar de mim.

“Pise na areia brilhante e quente em uma praia turquesa com pássaros que entoam cânticos simétricos de júbilo” (sacou?) e eu, em plena São Clemente ou Visconde de Pirajá, entro em alfa enquanto ônibus assassinos e buzinas histéricas violam meus olhos e ouvidos  e volto pra mim.

Já listei meus inimigos, escrevi uma carta pra mim, duelei verbalmente com minha mãe, elenquei os que me ajudaram e outros nem tanto. Tem sido um vestibular das emoções, uma abundância de esperança para dias melhores. Namastê!

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