Clique e Assine a partir de R$ 7,90/mês

Estes profissionais negros da moda e da beleza são pura inspiração

Eles indicam colegas de profissão que merecem estar no seu radar

Por Isabella Marinelli, Maria Clara Serpa, Esmeralda Santos (colaboradora) Atualizado em 23 nov 2020, 10h47 - Publicado em 23 nov 2020, 10h00

Não raro, quando se fala em mercado criativo, existem equipes em que há nenhum ou apenas um profissional negro. Mas eles não querem mais essa realidade. Aqui, uma seleção de pessoas inspiradoras para habitar o seu feed, compor seu próximo projeto e inspirar uma nova rotina de cuidados:

MODA
Rita Carreira indica Carol Santos

Rita Carreira, modelo Arquivo/CLAUDIA

A radionovela de brincadeira, feita em casa, em Diadema (SP), quando as irmãs eram pequenas, foi uma das primeiras parcerias de sucesso da modelo Rita Carreira (@ritacarreiraa) com a produtora de moda Carol Santos (@carolsantosprodutora). Tempos depois, em 2010, Carol, 35 anos, soube de detalhes do Fashion Weekend Plus Size pelo programa da Hebe Camargo e tentou a sorte. Foi chamada para cuidar dos looks e levou a irmã como assistente. Chegando lá, uma das responsáveis elogiou Rita dizendo que ela levava jeito para desfilar. Foi a estreia de Rita nas passarelas. “Mas os trabalhos passaram a ser muito intervalados. Percebi que não era por falta de talento, mas por ser uma mulher negra”, conta a modelo, de 27 anos. A angústia virou um desabafo no Facebook. “Escrevi que estava pensando em desistir e recebi mensagens de meninas perguntando o que seria delas. Foi quando entendi que tinha a obrigação de continuar para abrir esse espaço”, relata. Hoje, a agenda de Rita é administrada por uma das maiores agências do país. “Tive que ser a minha referência, pois não havia outras. Ainda assim, sinto que, como mulher negra, preciso provar o tempo todo que mereço estar lá”, reflete. O mercado plus size, segundo Carol, ainda tem muito o que avançar no recorte de raça. “Já ouvi que mulher negra não vende porque não fica elegante, por exemplo”, revela. Falta representatividade nas equipes, desde as que tomam decisões nas empresas até as criativas. Raramente profissionais negros estão em posição de decisão ou de destaque no set. “Por isso, criei o Coletivo de Pretas. Queria mostrar que podemos dirigir, fotografar e criar”, argumenta. “Se você olhar o feed de marcas plus size de sul a norte do país, ele é branco. E não se pode achar que só um negro vai representar todos. Somos únicos e diferentes entre nós. Hoje eu compro briga com as marcas. Não é fácil, mas, se a gente não fizer, quem vai?”, indaga a produtora.

Carol Santos. produtora de moda e diretora criativa Karla Brights/CLAUDIA

EMPREENDEDORISMO
Sheila Makeda indica Sueli Conceição

Acervo/CLAUDIA

Sheila Makeda, 42 anos, herdou a veia empreendedora da mãe, que vendia bolos para completar a renda de empregada doméstica. “Em 1992, eu, ela e minha irmã fomos contratadas por uma empresa de cosméticos. Dois anos depois, minha mãe resolveu abrir um salão”, conta. Foi lá que a jovem paulistana desenvolveu técnicas próprias para cuidar de cabelos crespos, que, naquele tempo, eram ainda mais negligenciados pela indústria. “As clientes diziam que queriam ter o cabelo como o meu, mas que era difícil cuidar. Não havia informação sobre o assunto. Então surgiu a ideia de criar a Makeda Cosméticos (@makedacosmeticosbr).” O nome é inspirado na rainha de Sabá, da Etiópia, uma homenagem às origens africanas. “Fundamos a marca em 2012 e, no mesmo ano, participamos da Feira Preta. Os produtos esgotaram-se. Ali percebi o potencial.” Hoje, a empresa já se desdobrou no projeto Makeda Terapeuta, que ensina a mulheres negras e periféricas os tratamentos capilares desenvolvidos por Sheila. Na Iyá Omi Cosmética Natural (@iyaomicosmeticanatural), que significa Mãe-d’Água, em iorubá, a ancestralidade também é um pilar – todos os produtos são à base de plantas sagradas do candomblé. A fundadora, Sueli Conceição, 45 anos, teve o primeiro contato com a fitoterapia por meio da avó, mas a decisão de trabalhar apenas com isso veio após um susto. Na época, ela conciliava a produção com a tentativa de passar em um concurso para lecionar na universidade. “Os editais exigiam o que uma mulher preta, periférica e mãe não consegue oferecer. Um dia, indo ao terreiro, bati o carro. Isso abriu meus olhos, compreendi que estava num processo autodestrutivo e resolvi focar na marca”, conta a baiana. Em 2016, a loja ganhou espaço físico em Salvador e e-commerce. “Meu objetivo é levar a importância do autocuidado. Os pretos têm que estar sempre prontos para o embate e, com isso, se deixam um pouco de lado. Quero mostrar que precisamos cuidar de nós para poder lutar.”

Sueli Conceição, fundadora da Iyá Omi Cosmética Natural Karla Brights/CLAUDIA

FOTOGRAFIA
Karla Brights indica Mylena Saza

Karla Brights, fotógrafa Acervo pessoal/CLAUDIA

O momento “eureka!” da cearense Karla Brights (@karlabrights)aconteceu quando ela ganhou um prêmio da faculdade de publicidade na categoria Fotografia Artística. “Percebi que poderia me expressar assim”, lembra. Em 2017, chegou a São Paulo pronta para outra etapa na carreira. “Até então, a síndrome de impostora me paralisava. Mas na cidade nova não tinha mais certo ou errado; abandonei a ideia de que dependia de um bom equipamento ou de que alguém era melhor do que eu”, conta. De lá para cá, fotografou ensaios de moda e de beleza para títulos importantes e, neste mês, assina a capa de CLAUDIA. “É a minha primeira capa impressa – e ainda acompanhada por mulheres que me fizeram enxergar que somos a utopia das nossas ancestrais”, reflete. Karla, 33 anos, também deseja cravar sua assinatura na história. “Ser mulher afro-indígena é um desafio em todos os espaços. Quero que nossos nomes sejam costurados com fios de ouro e prata no chão da terra para que a gente possa lembrar até do que nos fizeram esquecer”, diz. O caminho, certamente, se abre para quem vem depois, caso da maranhense Mylena Saza (@mylenasaza), 22 anos, que também elegeu São Paulo em busca de novas oportunidades. “Fiz quatro períodos de biomedicina e abandonei. Desde cedo tinha um olhar pelas coisas cotidianas, mas não queria me limitar. Então cheguei à moda em 2018”, relembra ela. “Tudo o que faço é experimental, sempre tento criar. Procuro colocar um tanto de mim nos trabalhos”, finaliza.

Continua após a publicidade
Mylena Saza, fotógrafa Karla Brights/CLAUDIA

BELEZA

Maiane Boitrago indica Artur Figueiredo

Maia Boitrago, cabeleireira e trancista Acervo pessoal/CLAUDIA

Aos poucos, Maiane Boitrago (@maiaboitrago), 31 anos, abandonou o relaxamento e reencontrou seu cabelo natural. Nesse período, costumava usar tranças que ela mesma fazia. A transição capilar e a apropriação dessa estética fundamentaram a técnica de Maiane, que acabou se tornando uma alternativa financeira. “Eu era recepcionista em um salão e fui demitida. Comecei então a trançar o cabelo de outras pessoas para compor a renda”, lembra ela, hoje uma das figuras mais prestigiadas do ramo, trabalhando com celebridades como Taís Araújo, Iza e Lellê. “É mais do que estética; para nós, mulheres negras, é sinônimo de força, luta e resistência. Chega a ser religioso de tão sagrado”, conta. A representatividade nos espaços de beleza também tem grande valor para Artur Figueiredo (@figartur), 30 anos. Ex-estudante de engenharia de produção, ele largou o curso para se dedicar à maquiagem. Já são sete anos de carreira, agora assinando os próprios trabalhos. “A transição de assistente para profissional principal foi marcante. É importante estar nesses espaços. Crescemos para trazer pessoas com menos oportunidades aos mesmos lugares”, argumenta. O desafio é o preconceito do mercado, que tende a rotular os profissionais. “Estudei e trabalhei com todo tipo de pele, representando todas as cores. Não sou maquiador de pele negra, apenas maquiador”, afirma.

Artur Figueiredo, beauty artist Karla Brights/CLAUDIA

MAQUIAGEM

Dani da Mata indica Maili Santos

Dani da Mata, maquiadora e fundadora da escola Damata Makeup Acervo/CLAUDIA

A experiência como auxiliar de produção em uma fábrica de cosméticos despertou o amor pela maquiagem na paulista Daniele da Mata, 30 anos. Anos depois, abandonou a função para se tornar maquiadora profissional. Para ela, não se tratava apenas de colorir o rosto das clientes; era também um momento para compartilhar truques e técnicas. Foi natural, portanto, a decisão de abrir um espaço voltado para isso. Assim nasceu a DaMata Makeup (@damatamakeup), primeira escola de maquiagem especializada em pele negra. “Em todas as aulas, conto sobre meu processo de aceitação. Assim, as alunas se sentem confortáveis para dividir as próprias experiências. A estética é um instrumento de empoderamento que só funciona quando conhecemos histórias como as nossas”, argumenta. Também foi pelo caminho da autoestima que Maili Santos chegou aos pincéis. Com pouco mais de 1 ano, a baiana perdeu os movimentos dos membros inferiores. A família tentou inúmeros tratamentos e, só adulta, Maili descobriu que não voltaria a andar. “Uma das maneiras de camuflar a dor era me maquiando. Sempre fui vaidosa”, conta. Em 2010, outro diagnóstico difícil chegou, o da depressão. Como tratamento complementar, os médicos prescreveram um hobby à escolha dela. Foi quando Maili achou os tutoriais de beleza no YouTube. O passatempo virou profissão. “Não me aceitavam nos cursos por ser pessoa com deficiência. Diziam que eu não conseguiria maquiar alguém sentada”. Ela não desistiu e fez um curso online. Aos 35, cuida do Studio Móvel Maili Santos (@studiomovelmailisantos), criado há cinco anos. Além do make, oferece consultorias e cursos online. O termo “móvel” faz referência à cadeira de rodas. “As empresas ainda não me veem como alguém a ser contratada. Por ter a pele mais clara, tenho privilégios em relação às retintas, mas a visão capacitista atrapalha. Espero que o mercado da beleza se torne mais inclusivo e as marcas deem oportunidade para além das hashtags.”

Maili Santos, maquiadora Karla Brights/CLAUDIA
  • Continua após a publicidade
    Publicidade