Onda verde: por que só se fala em maconha no mercado de beleza?

O canabidiol é um dos superingredientes em foco na indústria de cosméticos fora do Brasil. Não há previsão de chegada por aqui, mas temos bons substitutos

Não é papo de hippie. Aliás, já pode se despir de qualquer ideia preconcebida sobre o canabidiol. Derivado da maconha, cientificamente chamada de Cannabis sativa, ele evoluiu de modinha da indústria para o status de superingrediente. “Não é a mesma coisa que o tetra-hidrocanabinol (THC), substância responsável pelos efeitos psicoativos da planta”, explica a cosmetóloga Vânia Leite, presidente da Associação Brasileira de Cosmetologia, de São Paulo. Portanto, os efeitos alucinógenos de apelo recreativo não fazem parte da gama. Em vez disso, chega uma bomba de nutrientes benéficos para pele.

O canabidiol está presente no óleo de CBD, que é obtido por meio da extração. “Ele não tem THC e é diferente do hemp oil, óleo vegetal também proveniente da maconha e rico em minerais, já utilizado pela indústria por seu potencial hidratante”, afirma a farmacêutica Fernanda Chauvin, de São Paulo. A substância voltou ao debate no Brasil com a recente liberação da Anvisa para utilização sob prescrição médica. A decisão leva em conta os efeitos terapêuticos em casos que vão de epilepsia à microcefalia causada pelo vírus zika. Nos Estados Unidos, o movimento é anterior. O uso medicinal da maconha já é regulamentado em 34 estados. Em 11 deles, o recreativo também.

O pioneirismo americano permitiu que outros mercados se aproveitassem do ingrediente. Um relatório do Brightfield Group, especializado em levantamentos sobre o negócio da Cannabis, prevê que ele já estará movimentando 22 bilhões de dólares em 2022. Uma fatia desse valor pertence à área da beleza. Outro relatório mostra que 15% dos produtos de skincare serão impactados pela crescente tendência da Cannabis até 2029.

O CBD atraiu a indústria cosmética por bons motivos. Rico em vitaminas A, D e E, além de ácidos graxos, é um poderoso coquetel antioxidante. Os últimos congressos mais importantes de dermatologia, como da Academia Americana de Dermatologia, propuseram a relação da performance do CBD com o retardamento do processo de envelhecimento. Outro trunfo desse ingrediente vegetal é o potencial anti-inflamatório, característica que pode ser benéfica para cuidar de problemas de pele comuns, como acne, rosácea e dermatite. Ainda faltam mais estudos para embasar definitivamente tantas expectativas, mas as pesquisas são promissoras.

EM ALTA LÁ FORA
Marcas internacionais já usam os ativos da maconha há alguns anos. É o caso da inglesa The Body Shop. Desde a década de 1990, ela tem a linha Hemp, de produtos feitos com semente de cânhamo, como creme para mãos, manteiga corporal e óleo de banho, que promovem hidratação potente. Mais recentemente, as gigantes CVS Health e Walgreens entraram na onda, mas usando o canabidiol. Há um movimento ainda maior de marcas menores e nichadas, como a Herbivore Botanicals (@herbivorebotanicals), que mira nos millennials com imagens furta-cor e produtos fáceis de usar. A linha com CBD conta com óleo facial, que promete nutrir e diminuir a irritação da pele, mesma proposta do sérum da americana Josie Maran (@josiemarancosmetics), o Skin Dope, que deixa claro no rótulo a ausência de efeitos psicoativos durante o uso. A From.ever.since (@from.ever.since) é ainda mais ambiciosa e propõe que o canabidiol será o novo retinol, só que ainda mais eficiente do que esse clássico do skincare.

 (Getty Images/CLAUDIA)

MADE IN BRAZIL
Enquanto o canabidiol para uso cosmético não chega por aqui, dá para aproveitar a riqueza de nossa flora, origem de compostos vegetais ricos e com efetividade também comprovada. Um exemplo é o óleo de copaíba, árvore natural da América do Sul. “Sabemos que ele é um ótimo formador de filme, aquela fina película que protege contra a perda de água. Também contribui para a recuperação da pele”, afirma Vânia Leite. Em termos de química, a afinidade faz sentido. Ele é rico em BCP, tipo de canabinoide que afeta os mesmos receptores que o CBD. “Como também apresenta ação anti- -inflamatória, pode ser uma alternativa”, explica Fernanda Chauvin. É encontrado nas linhas da doTerra (89 reais), especializada em óleos essenciais, e da WNF (37 reais). Outra opção é o composto anti-inflamatório Green Leaf Comple, da Ellementti Cosméticos, presente em sérum e secativo.

VEM POR AÍ
O próximo passo já está no horizonte. Devem chegar em breve os terpenos, que é a parte aromática da Cannabis, como se fossem óleos essenciais. Alguns até são agradáveis, como o limoneno, que tem característica de aroma cítrico. Outros nem tanto. A compensação pelo cheiro pouco atraente estaria nos benefícios. “Pesquisas sugerem que eles poderiam funcionar em sinergia com os canabinoides para potencializar os efeitos medicinais”, conta Fernanda. E na penteadeira? Bom, todas as plantas contêm os tais terpenos, que já são matéria-prima para perfumistas. A tendência, então, é que os provenientes da Cannabis entrem cada vez mais nos ateliês. Já é o que experimentam as marcas americanas Fog & Tree (@fogandtreefragrance), Heretic Parfum (@hereticparfum) e Herb Essntls (@herbessntls), que misturam perfumaria
com aromaterapia.

BÊ-Á-BÁ DA CANNABIS

FULL SPECTRUM
São produtos com CBD que contêm todos os elementos da planta Cannabis, incluindo uma concentração de THC maior do que 3%.

BROAD SPECTRUM
Com exceção do THC, este produto CBD contém todos os outros elementos da planta Cannabis (os terpenos
e os canabinoides).

HEMP SEEDS
São as sementes de maconha, usadas tanto para fins cosméticos quanto para a alimentação. Elas não contêm THC.

ORGÂNICO
As sementes absorvem tudo o que vem do solo, inclusive pesticidas e metais pesados. Por isso, é importante que a erva tenha certificação de cultivo orgânico para a segurança do produto final.