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“Não vou mudar quem somos”: Bruna Tavares fala sobre levar a BT para fora do Brasil

A executiva conta seus desafios, conquistas e fala sobre a busca por levar a B-Beauty para o mundo

Por Beatriz Lourenço Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 28 ago 2026, 14h06 | Atualizado em 28 ago 2026, 14h54
Mulher de pele morena, cabelo escuro preso, maquiagem marcante, aplicando batom com um pincel enquanto se olha em um espelho de mão dourado e ornamentado. Ela veste um vestido azul escuro com detalhes dourados e mangas bufantes, em um cenário de fundo azul com flores coloridas e pontos de luz
Em entrevista, Bruna Tavares reflete sobre 10 anos de sua marca, desafios, inovações em diversidade e a busca por levar a B-Beauty brasileira para o mundo (Divulgação/Divulgação)
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“Não vou mudar quem somos”: Bruna Tavares fala sobre levar a BT para fora do Brasil Priorizar nos meus resultados Google

Há dez anos, Bruna Tavares transformou a própria curiosidade em negócio: desenvolveu uma das marcas que mais ajudaram a ampliar a conversa sobre maquiagem, diversidade e inovação no país. 

Ao longo dessa trajetória, a profissional acompanhou de perto as mudanças do mercado e também ajudou a questionar padrões, desenvolvendo produtos com foco em diversidade e criando soluções para necessidades que ainda não eram atendidas pela indústria.

Agora, vive uma nova fase: depois da fusão com um grupo internacional, a BT se prepara para ampliar sua presença fora do Brasil com o Grupo Kiss New York – sem abrir mão da identidade construída por aqui, é claro. Para ela, o maior desafio de comandar uma empresa em expansão é lidar com a busca constante por inovação e o desejo de levar o que chama de B-Beauty (beleza brasileira) para outros mercados. 

Conversamos com a executiva sobre seu olhar apurado para novidades e o futuro da marca. Confira:

CLAUDIA: Olhando para sua trajetória, quais foram os maiores aprendizados como profissional, mulher e empresária?

BRUNA TAVARES: Comecei como uma menina que tinha um sonho. Tenho 17 anos de carreira desde a minha formação como jornalista e a criação do blog, em 2009. Passei cinco anos licenciando produtos e fazendo colaborações, e fui entendendo que era algo que eu gostava de fazer.

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Meu primeiro batom foi feito em 2011 e eu fui deixar a redação só em 2013. Tinha uma carreira paralela, mas já atuava mais como blogueira do que como jornalista e, naquela época, não enxergava na carreira de influenciadora uma possibilidade de estabilidade. Isso mudou muito. Hoje, quando falamos em economia criativa, existe uma carreira, um plano e todo um ecossistema em torno disso. 

Imagem da empresária Bruna Tavares.
Bruna Tavares lidera a BT Beauty em sua fase global, explorando perfumaria, cabelo e papelaria. (Bruna Tavares/Divulgação)
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CLAUDIA: Quando você se deu conta de que queria uma marca própria?

BRUNA TAVARES: Quando comecei a fazer licenciamentos, me apaixonei pelo desenvolvimento de produtos. Para mim, publicidade era difícil porque eu queria participar do processo, escrever meu texto, dar o meu briefing. Poucas empresas davam essa liberdade.

No desenvolvimento do produto, encontrei algo que não dependia tanto da plataforma. Quando entrei com a marca, em 2016, encontrei muitos gaps. Não havia batons com determinadas tonalidades, bases para todos os tons de pele, tantas texturas e tecnologias que hoje são comuns. Acabei inaugurando muitas dessas conversas. Hoje temos um mercado muito aquecido, com muitas marcas e o mundo inteiro de olho no Brasil. Fui uma das primeiras marcas locais a entrar nesse movimento e, depois, fiz uma fusão com um grupo internacional. Quando poderíamos imaginar isso lá atrás?

CLAUDIA: O que mais mudou em você nesse processo?

BRUNA TAVARES: Passei de blogueira e jornalista a empresária, empreendedora e, depois, executiva. Hoje estou em reuniões com investidores americanos e coreanos, atuando como CEO e diretora executiva e criativa. Precisei desenvolver muitas habilidades de negócios e aprender, no dia a dia, coisas que ninguém me avisou.

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Ninguém me avisou o quanto crescer é difícil. A gente ouve que precisa crescer, ser dinâmico, expandir. Mas, quando o faturamento aumenta, normalmente o pró-labore não cresce na mesma proporção: aumentam os investimentos, os problemas e a complexidade. Uma pequena coisa, como uma matéria-prima que atrasa, pode gerar um problema enorme porque existe toda uma cadeia por trás. Hoje sou uma grande gerenciadora de crises. A gente vai se tornando muito resiliente e muito rápida para encontrar soluções. Acho que esse foi um dos meus maiores aprendizados.

Também cresci junto com a indústria. Hoje tenho um laboratório de inovação e consigo conversar muito bem com meu time de farmacêuticas e engenheiras químicas. Até sonho, um dia, em fazer uma faculdade de química ou farmácia. 

A marca Bruna Tavares foi responsável pela maquiagem da Casa Clã 2026
A marca Bruna Tavares foi responsável pela maquiagem da Casa Clã 2026 (Flavio Santana/Fabio Rizzato/CLAUDIA)
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CLAUDIA: Você foi pioneira em vários movimentos, desde a ampliação das cartelas de cores até novas embalagens e tecnologias. Como funciona seu processo para identificar uma inovação?

BRUNA TAVARES: A diversidade de cores é uma conversa importante para mim porque vem da minha formação como jornalista. A gente aprende que o jornalismo tem um cunho social, que é preciso ouvir diferentes lados. Sempre tive essa preocupação. Desde o começo do blog eu procurava trabalhar com colaboradoras de diferentes tons de pele porque não queria que a narrativa ficasse restrita a mim. 

Antes mesmo de existir a BT Skin, eu já sabia que havia uma lacuna enorme. Conversando com mulheres negras, ouvi coisas que eram um choque de realidade. Uma amiga chegou a contar que precisava misturar sombra preta à base para conseguir chegar ao tom da própria pele. Foi quando pensei: “Não é possível que isso ainda aconteça”.

A primeira base que fiz teve 16 tonalidades. Quando começamos a desenvolver a BT Skin, em 2018, foram dois anos de desenvolvimento: um para a fórmula e outro para a cartela de cores. Estudamos produtos internacionais e trabalhamos com consultores para entender as subtonalidades brasileiras, que são muito complexas. Temos influência do clima, da exposição ao sol e da miscigenação. A partir desse estudo, chegamos a uma cartela que hoje contempla diferentes profundidades e subtons.

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CLAUDIA: E esse olhar também aparece nas embalagens?

BRUNA TAVARES: Embalagem é um dos meus maiores desafios, porque quando comecei era tudo muito limitado. Havia tampa branca, tampa preta e embalagem de acrílico. Não existiam tantas possibilidades de acabamento, como fosco, metalizado ou diferentes tipos de gravação.

Eu enxergava alguns desses gaps porque vinha do blog e conversava diretamente com as pessoas e comecei a fazer as perguntas certas. No caso do batom líquido, por exemplo, fui entender por que alguns produtos internacionais não craquelavam enquanto os nossos tinham esse problema. Descobri que havia uma matéria-prima importada, um silicone que dava flexibilidade, mas que era caro e dependia da variação do dólar.

Então comecei a pensar: como podemos negociar? Como podemos pesquisar? Como podemos fazer isso aqui? Muitas evoluções da empresa vieram simplesmente porque eu levantei a mão e fiz uma pergunta.

Duas mulheres sorridentes, uma negra e outra branca, vestindo blusas amarelas, seguram produtos de maquiagem Bruna Tavares. A mulher negra à esquerda segura um gloss labial dourado, enquanto a mulher branca à direita segura um pó facial em embalagem redonda e amarela. Ambas têm maquiagem leve e cabelos escuros soltos, com fundo branco
Bruna Tavares, à frente de sua marca há 10 anos, transformou a curiosidade em um negócio inovador, ampliando o debate sobre maquiagem e diversidade no Brasil (Divulgação/Divulgação)

CLAUDIA: E como você mantém esse olhar de inovação à medida que a empresa cresce?

BRUNA TAVARES: Hoje, além da pesquisa que faço sozinha, tenho acesso a feiras de inovação, fabricantes e um laboratório próprio. Toda viagem que faço acaba virando pesquisa. Recentemente, fui a Los Angeles, visitei fábricas e conheci tecnologias.

Também tenho o BT Innovation Lab, com farmacêuticas e engenheiras químicas que ficam muito próximas de matérias-primas e ativos. Elas estão sempre buscando novidades. O diamante, por exemplo, veio do meu time de P&D. Era uma tecnologia de um núcleo de diamante micronizado encapsulado em uma microesfera de silicone para criar um efeito diferente de reflexão da luz no produto.

Então existe um time de ciência por trás de tudo. Eu continuo frequentando feiras, conversando com fabricantes e pesquisando, mas hoje aconteceu também o movimento contrário: a indústria passou a vir até mim e até o meu time para apresentar novidades.

CLAUDIA: Por que é tão importante para você trazer essas tecnologias para o Brasil?

BRUNA TAVARES: Eu poderia produzir simplesmente tudo fora. A China, por exemplo, tem uma tecnologia incrível. Mas isso não faz parte do que acredito como legado para a indústria nacional. Claro que vou produzir coisas fora – a BT já produz em diferentes lugares do mundo. Mas sempre tenho esse olhar: “Eu consigo produzir isso fora, mas será que consigo implementar essa tecnologia no Brasil daqui a um ano ou dois?” É uma forma de deixar um legado.

Eu penso muito nisso: o que estou deixando? Em que estou sendo útil? A gente quer ter alguma utilidade no final do dia. É claro que ser pioneira também traz benefícios para a marca, fortalece meu trabalho como desenvolvedora e aumenta o respeito da indústria. Mas eu não sou contra outras marcas fazerem algo parecido. Se uma inovação que eu trouxe é adaptada por outra marca e funciona para ela, ótimo.

Mulher de pele clara, cabelo escuro preso, usando um vestido azul marinho com detalhes dourados e azuis claros, ombros à mostra, em um cenário de jardim florido com fundo azul escuro e pontos de luz que simulam estrelas
Agora, após uma fusão e em processo de internacionalização, a empresária compartilha como mantém seu olhar apurado para novidades e sua missão de levar a “B-Beauty” brasileira para o mundo, sem perder a essência (Divulgação/Divulgação)

CLAUDIA: A BT Skin chegou ao mercado com uma cartela muito ampla de cores. A preocupação era ser a maior?

BRUNA TAVARES: Minha ambição era fazer um bom projeto. A cartela começou menor e foi crescendo por causa das consultorias. Quando chegamos às 30 tonalidades, eu já imaginava que outras marcas estavam de olho e que alguém poderia correr para fazer uma cartela maior. Eu não queria usar isso como estratégia de marketing. Para mim, o importante era estar adequada. 

Quando lançamos, nos tornamos a maior tabela de cores do Brasil durante um período. E isso foi importante porque, naquela época, eu precisava convencer as lojas a dar espaço para 30 tonalidades. Depois, outras marcas começaram a ampliar suas cartelas e o mercado passou a entender melhor essa necessidade. Recentemente, tivemos uma situação simbólica: ao montar um display, a empresa pediu as 30 tonalidades. Não precisamos mais convencer ninguém. Eles exigiram as 30. Isso mostra que está mudando. 

CLAUDIA: Além da diversidade de tons, existe uma preocupação com diferentes tipos de pele, inclusive as maduras. Você percebe uma mudança na relação dessas mulheres com a maquiagem e o autocuidado?

BRUNA TAVARES: Muito. A conversa sobre maquiagem se ampliou para todo mundo. As pessoas estão usando mais maquiagem, mais skincare, e isso mudou muito. Dentro da BT, penso bastante em autoestima. Quando falo dos pilares da marca, estão ali diversidade, inovação e autoestima. Não penso apenas no momento em que a pessoa usa o produto, mas no antes, durante e depois.

Sempre trabalhamos com algo que hoje ganhou um nome: skinification. Eu já pensava nisso muito antes de o termo se popularizar. Maquiagem não pode criar uma relação tóxica em que você só se sente bem quando está usando aquele produto. Você precisa tirar tudo e continuar bem. Por isso, desde o começo, estudei muito essa relação entre maquiagem, pele e autoestima. Sempre pensei em como criar um produto que a pessoa pudesse usar diariamente. É por isso que tenho tanto orgulho da BT Skin e de ter a skinification como um dos pilares da marca.

Mulher de pele morena, cabelo escuro preso, maquiagem marcante e batom nude, usando um vestido azul e dourado com ombros à mostra, segurando um batom líquido nude e olhando para cima, em um cenário azul escuro com flores e pontos de luz
A trajetória de Bruna Tavares como empresária (Divulgação/Divulgação)

CLAUDIA: A BT passou por uma fusão e agora vive um processo de internacionalização. O que vem pela frente?

BRUNA TAVARES: Estamos em um momento que gosto de definir como “reformar a casa”. A marca cresceu muito e crescer é uma doideira. Você cresce um pouco de um lado, alguma coisa cria uma ruptura do outro. Tive a oportunidade de negociar com um grupo internacional e o que foi muito importante para mim é que eles aceitaram não apenas as minhas exigências, mas também o meu lugar como CEO e diretora criativa e executiva, além de respeitarem o meu time.

Eu queria um grupo que não quisesse apenas a minha marca ou o meu nome. Queria alguém que entendesse a minha posição e a posição da equipe. Também sempre tive o sonho de fazer uma internacionalização e trazer investimento de fora para dentro.

CLAUDIA: E como fazer isso sem perder a identidade brasileira?

BRUNA TAVARES: Cada país tem suas próprias vigilâncias sanitárias e tendências. Aqui no Brasil, a BT é brasileira porque ela é brasileira. Isso está tão intrínseco que nem pensamos muito sobre o assunto. Lá fora, existe uma expectativa sobre o que é uma marca brasileira. Então também preciso estudar: o que o consumidor internacional espera? Vou suprir essa expectativa?

O que eu não vou fazer é mudar a minha marca para me adaptar ao mercado internacional. De forma nenhuma. Posso criar alguma coisa exclusiva para fora, mas não vou mudar quem somos. Estamos em um momento de muito estudo, trabalho e laboratório. Hoje, o lugar em que mais fico dentro da empresa é justamente o laboratório. Até puxei essa gestão para mim porque sinto que é ali que está o desenvolvimento. Esse legado que é meu e é da indústria brasileira, quero levar a B-beauty para fora.

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