Fim da escala 6×1: “Mulheres têm jornada dupla, tripla, quádrupla”, diz Erika Hilton sobre PEC
Em análise no Senado, a proposta que reduz a jornada semanal reacendeu o debate sobre produtividade, saúde mental e equilíbrio entre trabalho e vida
Maria Rita* trabalha na recepção de um hospital de segunda a sábado, das 9h às 18h. Aos domingos, é ela quem faz as compras do mercado, planeja a lancheira da semana da filha, cozinha e limpa a casa. “Só consigo descansar quando peço delivery e não preciso fazer a janta”, declara.
Essa é a realidade das mães que trabalham na escala 6×1, jornada comum em setores como comércio, supermercados, farmácias, restaurantes, hotéis, hospitais e serviços. Acontece que a possibilidade de mudar esse sistema nunca esteve tão perto. Depois de mobilizar milhões de trabalhadores nas redes sociais, dominar o debate público e dividir opiniões entre especialistas, empresários e parlamentares, a proposta que reduz o limite de horas trabalhadas avançou no Congresso Nacional.
Como começou o movimento pelo fim da escala 6×1?
A pauta ganhou força em 2023, quando Rick Azevedo, então balconista de farmácia, publicou um vídeo no TikTok comentando como ele estava cansado da rotina e da falta de tempo que impactavam sua saúde física e mental. O conteúdo viralizou e deu origem ao Movimento VAT (Vida Além do Trabalho), que passou a defender jornadas menores e com mais qualidade de vida.
A adesão foi tão grande que uma petição pública reuniu milhares de assinaturas e o tema passou a ser debatido no Congresso Nacional por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC).
O que propõe a PEC de Erika Hilton?
Em 2025, a deputada federal Erika Hilton protocolou a PEC 8/2025, que propunha alterar o artigo 7º da Constituição para instituir a jornada de quatro dias por semana, com limite de 36 horas semanais e sem redução salarial.
Em fevereiro de 2026, a proposta foi anexada à PEC 221/2019, apresentada anos antes pelo deputado Reginaldo Lopes. A partir daí, a discussão passou a ocorrer em torno desse texto principal.
No parecer apresentado pelo relator, Leo Prates, o texto passou a prever:
1. Jornada máxima de 40 horas semanais
2. Manutenção dos salários
3. Garantia de dois dias de descanso remunerados por semana
4. Período de transição de 14 meses para adaptação das empresas
Uma nova vida para elas
“Sabemos que as mulheres têm jornada dupla, tripla, quádrupla… Elas fazem muitas tarefas além do trabalho e também são, na maioria dos lares, as responsáveis pela consulta dos filhos, reunião escolar e uma série de outras atribuições”, declara Erika Hilton à CLAUDIA.
“Quando pensamos na redução da jornada, nós estamos falando em garantir mais tempo para que elas possam conviver com suas famílias e cuidar não só das suas próprias coisas, mas também de si mesmas.”
Segundo dados da pesquisa Mulheres nas empresas: o que querem da carreira e da vida pessoal, feita pela Todas Group e pela Nexus, o autocuidado e a saúde mental são os aspectos mais sacrificados na hora de buscar crescimento profissional: 7 em cada 10 já abriu mão do bem-estar físico ou de hobbies em prol do trabalho e metade negligenciou a saúde mental pelo mesmo motivo.
“Dois dias de descanso ainda não serão suficientes, mas pelo menos elas vão conseguir organizar melhor suas demandas. Vamos trabalhar e torcer muito para que elas também possam resgatar um pouco do olhar para si mesmas”, completa a deputada.
A PEC, por si só, não é suficiente
De acordo com o estudo Cultura nas Capitais, divulgado em 2025 pelo JLeiva Cultura & Esporte, com patrocínio do Itaú e do Instituto Cultural Vale e em parceria com a Fundação Itaú, homens e mulheres com filhos de até 12 anos geralmente fazem menos atividades culturais do que quem não tem filhos, mas a queda é maior para as mulheres.
Segundo a parlamentar, para ampliar o acesso não basta proporcionar apenas mais tempo, é preciso que o Estado funcione de maneira coordenada, olhando para as lacunas que precisam ser preenchidas.
“Toda legislação, se vem de maneira esvaziada, é insuficiente – isso no debate de qualquer pauta. A redução da jornada tem a ver com qualidade de vida, o acesso à proteção, à saúde, à creche e a uma série de outros direitos”, explica. “Essas demandas também precisam ser debatidas para criar um ciclo virtuoso para que, de fato, o descanso e a qualidade de vida sejam assegurados no fim do dia.”
O impacto para as empresas e trabalhadores
Os principais argumentos das empresas e entidades do setor produtivo contra a mudança estrutural são o aumento dos custos de contratação, a necessidade de mais funcionários para manter o funcionamento, a dificuldade de adaptação dos pequenos negócios e a carência de medidas econômicas de compensação.
Para Erika, é necessário mostrar o tamanho desses impactos. “Na maior parte dos casos, o custo com a mão de obra trabalhada é muito pequeno. A maior parte dos gastos das empresas tem a ver com o adoecimento dos trabalhadores, acidentes e ausências.”
De fato, o Ministério da Previdência Social registrou 472 mil afastamentos por saúde mental em 2024. Na comparação com 2023, o aumento foi de quase 67%. Os principais motivos foram ansiedade e depressão. Mulheres são as mais afetadas, representando mais de 63% dos casos, com idade média de 41 anos.
Se o absenteísmo é caro, estudos de saúde ocupacional indicam que o presenteísmo, pode gerar custos superiores. Ele acontece quando o trabalhador comparece ao trabalho, mas produz menos por problemas de saúde ou falta de engajamento. “Quando a gente reduz a jornada de trabalho, ele é mitigado”, afirma Erika.
Outro medo é o repasse do prejuízo das empresas para os consumidores finais. “Na maior parte dos setores que nós fizemos conta, isso não acontece porque a engrenagem estrutural vai funcionando para que todas as coisas que são onerosas sejam diminuídas.”
O papel da fiscalização
A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) tem se posicionado criticamente. A entidade aponta a queda na massa salarial, demissões e aumento da informalidade.
Por outro lado, a deputada esclarece que as entidades irão monitorar as empresas para garantir a segurança do trabalhador. “Vamos contar com os auditores fiscais do trabalho. Esse será um núcleo bastante importante para checar as condições dos funcionários e se as regras estão sendo respeitadas.”
E se a PEC for aprovada?
Erika conta que, após a PEC ser aprovada, começa a contar o tempo de transição para a implementação do novo modelo. Além disso, algumas situações precisarão ser organizadas através de convenções coletivas, em especial aquelas que têm sindicatos fortalecidos para a regulagem das necessidades dos setores.
“Minha esperança é que, em 10 anos, a gente consiga criar um novo imagético sobre o que é trabalho. Somos o último país do mundo a abolir a escravidão e mantemos ainda muita herança desse processo colonial”, constata.
“Nós vamos fazer com que se eduque, inclusive as próximas gerações, a entender que o trabalhador é ser humano e é uma parte fundamental da economia. Mas a economia não é só número, é pessoa que tem sonho, tem dor, tem medo, tem família e uma série de sentimentos dentro de si. Quando tratamos as pessoas como máquinas, nos aproximamos da visão escravocrata.”
Países que adotaram medidas semelhantes
A Bélgica foi o primeiro país europeu a aprovar uma legislação que reduz a jornada semanal para quatro dias, em 2022. No entanto, o modelo não diminui a carga horária: os funcionários podem solicitar trabalhar as mesmas 40 horas semanais distribuídas em quatro dias, com jornadas mais longas.
Na Islândia, considerada a principal referência mundial sobre o tema, testes realizados entre 2015 e 2019 reduziram a jornada de milhares de trabalhadores de 40 para 35 ou 36 horas semanais, sem corte de salários. Os resultados mostraram manutenção e, em alguns casos, aumento da produtividade – além de melhorias significativas no bem-estar dos funcionários.
O Reino Unido também se destacou após realizar um dos maiores testes do mundo em 2022. Mais de 60 empresas participaram do projeto-piloto, e a maioria decidiu manter a jornada reduzida depois do fim da experiência. Os participantes relataram menos burnout, melhora na saúde mental e maior equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, enquanto as empresas observaram estabilidade ou crescimento na produtividade.
A Dinamarca, por sua vez, cumpre 37 horas semanais, definidas por acordos coletivos. Já a França tem o limite 35 horas semanais desde 2000, uma das menores jornadas legais do mundo.
No Brasil, um projeto realizado pela 4 Day Week Global, uma organização sem fins lucrativos, testou a semana de quatro dias com 22 empresas e cerca de 280 colaboradores. Após três meses de pesquisa feita pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), em parceria com o Boston College, os resultados mais significativos foram: 61,5% das companhias notaram avanço na execução de projetos, 58,5% obteve mais criatividade na realização das atividades e cerca de 58% dos funcionários afirmam que passaram a balancear melhor a vida pessoal e a profissional.
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