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Por que tantas mulheres florescem depois do divórcio

Por trás dos vídeos de mulheres que florescem após o divórcio, há uma jornada de dor, sobrecarga e a redescoberta da autonomia

Por Mariana Rosetti e Paola Churchill
16 mar 2026, 10h00 •
Cena ilustrada de um casal sentado frente a frente à mesa em um ambiente doméstico. A mulher encara o homem em silêncio, criando uma atmosfera de tensão e distância emocional durante a refeição.
A trend surgiu como meio de ientificação entre mulheres que se libertaram de relações exaustivas (Gerada por IA/CLAUDIA)
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  • “Eu tive que aprender a viver sozinha aos 48 anos de idade”. A frase da servidora pública carioca Aline Bachour, 50 anos, poderia ser legenda de um dos centenas de vídeos que viralizaram no TikTok com a hashtag “divorce effect”, ou efeito divórcio, em tradução livre. A trend, criada por mulheres em relações heterossexuais, expõe o contraste físico e psicológico entre a vida de casadas e a separação.

    O que chama a atenção nas imagens é a mudança radical — para melhor — das mulheres divorciadas. Nos comentários, outras mulheres reconhecem a própria história. “99% das vezes que você vir uma mulher tendo um glow up pós-término, pode ter certeza que o relacionamento estava adoecendo ela”, resume uma usuária. Outra completa: “Depois que o espírito obsessor vai embora, a pessoa recupera a saúde e a vontade de viver”.

    O que os vídeos de 30 segundos não mostram

    Aline reconhece a transformação em si mesma: em dois anos, fez cinco viagens internacionais e conquistou uma autonomia que nunca teve. Mas sabe que entre o “antes” e o “depois” desses vídeos existe um abismo que 30 segundos de rede social não comportam.

    Durante 25 anos de casamento, ela nunca precisou ligar para o seguro do carro, pagar uma conta ou resolver questões burocráticas. A história de Aline começou em 1999, quando tinha 22 anos e cursava Administração na Universidade Federal Fluminense. Sonhava com uma carreira executiva em multinacionais, mas esses planos foram gradualmente abandonados ao conhecer o ex-marido. “Quando veio a ideia de casamento, aquele meu sonho de vida profissional foi murchando. Eu decidi ser a retaguarda da vida dele para ele crescer.”

    E deu certo — ele chegou à diretoria de grandes construtoras. Aline, que havia passado em concurso público, acomodou-se conscientemente. “O salário dele já era suficiente. O meu era só para constar.”

    Em 2015, a família imigrou para o Canadá. Isolada, Aline desenvolveu ansiedade, síndrome do pânico e depressão agravadas pelo lockdown severo da pandemia. Entre 2021 e 2024, o casamento entrou em crise. “Eu comecei a me questionar: será que eu podia ter dedicado minha vida aos meus sonhos? Eu tinha capacidade, passei em faculdade federal. Mas aí você pensa: não dá mais tempo.”

    Quando o ex-marido pediu o divórcio em fevereiro de 2024, Aline entrou em colapso. “Foi a dor mais profunda que tive na minha vida.” Tentou suicídio em abril. Seis dias após a separação, ele conheceu outra mulher, 13 anos mais nova. Casaram-se oito meses depois.

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    Na partilha de bens, ficou com metade de dois imóveis financiados, mas não consegue pagar as parcelas em andamento. “Eu construí isso com ele por 25 anos. Mas na hora de colher, a colheita não entrou na partilha.”

    Retrato artístico de uma mulher ruiva dirigindo um carro antigo. Com expressão leve e sorriso aberto, ela olha para a estrada enquanto o vento parece acompanhar a sensação de liberdade do momento.
    Em um ano, mulheres passam 47 dias em tarefas domésticas e de cuidados não remunerados. Homens passam 23 dias por ano nesse tipo de trabalho (Gerada por IA/CLAUDIA)

    O amor romântico

    Aline não acordou um dia e decidiu ser retaguarda. Essa escolha foi cultivada ao longo de toda uma vida. A historiadora Mary del Priore explica que o casamento como “destino natural” feminino não nasce pronto, nem é universal. “Foi lentamente elaborado pela Igreja, pela medicina e, mais tarde, pela cultura impressa e a mídia”, afirma.

    Desde a colonização, o catolicismo impôs o matrimônio como ideal moral, sacramento e garantia de honra. No século XIX, a urbanização e o aburguesamento transformaram o que era moral em higiene. “A medicina passou a definir a mulher como essencialmente reprodutiva e a maternidade como missão. Fora do casamento, a sexualidade feminina era vista como desvio ou patologia”, diz a pesquisadora del Priore.

    Esse “destino natural” é, portanto, menos uma essência do que um arranjo histórico: “O casamento virou projeto central quando a Igreja lhe deu moral, a Medicina lhe deu natureza, o Direito lhe deu forma e a cultura de massa lhe deu sonho”.

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    No entanto, nada disso “é ensinado para os homens”, explica Irimara Gomes, psicóloga clínica e psicanalista, mestra em Gênero e Sexualidade. Segundo ela, meninas crescem ouvindo que precisam ter uma relação amorosa mágica, uma conexão química intensa, e “já entram num relacionamento com a ideia de que ele é maior do que a vida dela”, afirma a psicóloga.

    Enquanto isso, homens são incentivados a cuidarem da carreira, do dinheiro, mas não para serem funcionais. “Se você vai morar sozinha, você tem que saber lavar uma louça, saber fazer um arroz, saber limpar uma casa, é o mínimo. Lavar uma roupa, conseguir permanecer um ser humano que consegue cuidar de si. E os homens, em sua maioria, não são”, diz.

    O peso invisível do cuidado

    A fala de Irimara não é somente uma percepção clínica. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), “no Brasil, o fato de ser mulher acrescenta, em média, 10 horas semanais no trabalho doméstico e de cuidado não remunerado em relação aos homens. Em 2022, as mulheres despenderam semanalmente 21h36min, e os homens 11h48min neste trabalho”.

    É também o que mostra o relatório Esgotadas, do Think Olga, de 2023. “O trabalho de cuidado envolve muitas horas e tempo dedicado ao cuidado com a casa e com as pessoas: dar banho e fazer comida, fazer faxina, comprar os alimentos que serão consumidos, cuidar das roupas (lavar, estender e guardar), prevenir doenças com boa alimentação e higiene em casa, cuidar de quem está doente, fazer café da manhã, almoço, lanches e jantar para os filhos, educar, e segue por horas a fio.”

    A pesquisa concluiu que, em um ano, as mulheres gastam 1.118 horas (47 dias) nessas tarefas, enquanto os homens dedicam apenas 572 horas (23 dias). Além disso, o trabalho de cuidado sobrecarrega principalmente as mulheres de 36 a 55 anos (57% cuidam de alguém) e pretas e pardas (50% cuidam de alguém).

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    “Mulheres negras são colocadas socialmente em um papel de servidão antes mesmo de nascerem. Antes de você entender quem você é, alguém já está te colocando nesse lugar de servir. E quando essa mulher vai ter um relacionamento, ela já vai estar muito mais enraizada nessa ideia do que uma mulher branca”, explica Irimara.

    Ilustração em estilo pictórico mostra uma mulher de cabelos curtos e ondulados sentada à mesa durante o café da manhã. A luz do sol atravessa a janela e ilumina seu rosto enquanto ela sorri com os olhos fechados, em um momento de tranquilidade e prazer solitário.
    No Brasil, o fato de ser mulher acrescenta, em média, 10 horas semanais no trabalho doméstico e de cuidado não remunerado em relação aos homens (Gerada por IA/CLAUDIA)

    “Eu não mereço viver isso”

    Sobrecarga  foi exatamente o que Monique*, social media de 29 anos, viveu por quase uma década. Ela decidiu pelo divórcio enquanto limpava o fogão empoeirado e engordurado do apartamento que dividia com o marido. Ao olhar pela casa, não se conformava com a sujeira. Aquilo não era ela. Nunca foi.

    Nas últimas semanas, ela havia começado a separar as tarefas: lavava apenas sua roupa, as de casa e do cachorro. Cozinhava para si. Parou de limpar a casa inteira pelos dois. Ele, que ganhava mais de 15 mil reais, almoçava em restaurante todos os dias e voltava cada vez mais tarde para casa. Ela, que ganhava 2 mil reais como secretária, andava de ônibus ou a pé, comia em casa, cuidava do cachorro e ainda pagava contas.

    O término não veio de fatos isolados, mas da sobrecarga emocional do cuidado: ela quem organizou a mudança quando foram morar juntos, a reforma do apartamento que compraram e o casamento. “Eu tentei de todas as maneiras fazer que o meu relacionamento desse certo”, conta.

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    Só depois de sair de casa, que se deu conta que sofria violência psicológica e patrimonial. “Eu vi uma postagem [sobre as características de quem sofre essas violências], e comecei a dizer ‘eu me encaixo’, ‘eu me encaixo’ e ‘eu me encaixo’, um bingo da desgraça, sabe? Eu não sabia que eu tava vivendo um relacionamento assim”. 

    Isso porque a liberdade cerceada nunca veio de forma explícita. Por exemplo, ele dizia que ela ficava “linda sem maquiagem, com cabelo comprido”. E que não gostava de cheiro de esmalte. Ou que preferia vê-la com roupas confortáveis em casa. Quando deu por si, não pintava a unha há sete anos, não se arrumava mais e só usava roupas largas.

    Foi também por isso que, ao selecionar vídeos para a trend “efeito divórcio” o mais difícil não foi, justamente, se deparar com as imagens de quando ainda estava casada. “Foi muito difícil procurar fotos e vídeos onde eu não estivesse tão acabada. Aquelas eram as fotos e as imagens que eu estava ok para mostrar, porque as outras fotos que eu tinha você olha e diz: essa pessoa está muito mal. Essa pessoa não se cuida, não se arruma, está usando roupas três vezes o tamanho dela”, relembra.

    Hoje, Monique diz que a vida mudou completamente. “A vida é de uma leveza e de uma tranquilidade que às vezes eu ainda não me acostumo. Eu fico tipo: ‘Ué, tá tão estranho’”. Ela ri ao lembrar uma brincadeira que viu na internet: “Agora não tem um chato acabando com o meu dia às 8 horas da manhã”.

    Reconhecimento coletivo

    Um estudo publicado em 2024 na revista Social Psychological and Personality Science, conduzido por pesquisadores da Universidade de Toronto, ouviu 5.941 homens e mulheres. A conclusão: mulheres solteiras são significativamente mais felizes do que homens solteiros.

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    Elas se mostraram mais satisfeitas com a solteirice, mais satisfeitas com a vida em geral e mais satisfeitas sexualmente. Além disso, demonstraram menos vontade de ter um parceiro romântico. E mais contentes com o status de solteira que os homens.

    Os pesquisadores sugerem que isso acontece porque mulheres constroem redes de apoio mais amplas e fortes além dos relacionamentos amorosos, enquanto homens dependem mais das parceiras para suporte emocional.

    A pesquisa, contudo, parece contradizer tudo o que a sociedade sempre disse sobre mulheres e relacionamentos. A mulher solteira é vista de forma pejorativa — a “solteirona”, a “encalhada”, aquela que ficou para trás. Já o homem solteiro é celebrado como alguém que está no auge da vida, livre, aproveitando. A narrativa cultural sempre construiu a solteirice feminina como fracasso e a masculina como conquista.

    Até nas representações do casamento, esse imaginário se repete: mulheres “amarrando” homens no altar ou noivas tirando pó de votos guardados há anos. Tudo isso reforça a ideia de que o casamento seria uma restrição para os homens e um desejo desesperado das mulheres. 

    Mas os dados mostram justamente o oposto: são os homens solteiros que estão menos satisfeitos com a vida, enquanto as solteiras florescem. O casamento, ao que parece, é  um negócio melhor para eles do que para elas.

    “O florescimento pós-divórcio nasce da consciência de futuro”, analisa del Priore. “As mulheres vivem mais, permanecem ativas e já não aceitam que a maturidade seja sinônimo de apagamento. O divórcio deixa de ser o fim da narrativa feminina e passa, para muitas, a ser um ponto de mudanças.”

    Para Irimara, a saída está em reconhecer as pessoas onde elas estão, não no que elas podem se tornar. “A gente precisa entender: tá, quem eu sou? Eu sou uma pessoa que tem um trabalho, que faz faculdade, que faz o meu currículo. Eu vou me relacionar com uma pessoa que não tem sonhos, que não gosta de se movimentar? Não, porque essa pessoa não vai mudar.”

    Do contrário, mulheres acabam “suportando relações por 10, 20, 30, 40 anos. A gente vê as nossas mães, as nossas avós em relacionamentos com homens que não são nem a metade do que elas são, mas permanecendo ali porque é a santidade do casamento”.

    Quando a mulher se coloca nas redes descobre que milhões de outras estão sentindo a mesma coisa, quebra-se o isolamento. “Na hora em que a gente está passando por alguma coisa, pensa que é só da nossa cabeça. A gente acha que está doida”, explica. O TikTok, nesse sentido, vira espelho e testemunha de que não, não estamos — e nunca estivemos — loucas.

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