BBB 26: o caso Jordana escancara uma violência que vai além da casa
Especialista fala sobre os perigos do papel de "coitado" atribuído a Pedro e os efeitos da exposição do caso
“Achei que ela tinha dado moral também.”, “Queria fazer o que eu estava com vontade”. Essas foram apenas algumas das falas que o Brasil ouviu no BBB 26 no último domingo (18). Apesar de não serem incomuns aos ouvidos de muitas mulheres, que se veem obrigadas a lidar com um cotidiano de importunação sexual, ninguém esperava que cenas como essas pudessem ser vistas em um local repleto de câmeras, ao vivo, para todo o país.
Entenda o caso
Na noite de domingo (18), antes do início da programação normal do Big Brother Brasil, o apresentador Tadeu Schmidt entrou ao vivo para anunciar a desistência do participante Pedro, prometendo trazer mais detalhes sobre o que aconteceu.
O que não se esperava é que a motivação para a saída do jogo fosse uma espécie de fuga após encurralar e tentar beijar a participante Jordana na despensa da casa.
A cultura do estupro transformando o agressor em “coitado”
E quando se esperava que a pior parte da situação seria o assédio, o programa exibiu o depoimento de Pedro alegando que estava “se segurando” e que acabou cobiçando a moça e por isso “caiu nisso”. Nas falas é possível perceber a naturalidade com que ele lida com o ocorrido.
E talvez essa naturalidade não tenha sido exclusiva dele, já que outros participantes usaram expressões como “tenho pena dele”. Muitos se referiram a Pedro apenas como um “menino novo”, chegando ao ponto de um deles questionar: “até que ponto ele foi babaca e até que ponto precisa de ajuda?”
E é exatamente aí que mora o problema. A antropóloga e líder de Políticas Públicas pelo Fim da Violência Contra Mulheres no Instituto Natura, Beatriz Accioly, aponta que um dos fatores centrais para a recorrência da violência contra as mulheres é justamente o grau de normalização social.
“Muitas práticas violentas são cotidianamente reclassificadas como comportamentos aceitáveis ou até desejáveis.”
Talvez por isso aconteça uma inversão de valores, em que a vítima sente medo de ter a própria história manchada por uma situação como essa, como Jordana manifestou em uma de suas falas. Não só porque, diante do público, a mulher pode ser reduzida apenas ao lugar de vítima, mas porque a violência sofrida costuma ser relativizada.
“Surgem perguntas e insinuações do tipo: ‘ela deu algum sinal?’, ‘abriu alguma brecha?’. Esse tipo de discurso desloca a responsabilidade do agressor para a vítima e reforça a ideia de que caberia à mulher antecipar, impedir ou administrar a violência, como se fosse sua função se defender o tempo todo”, explica a especialista.
Sem câmera, sem prova
Por outro lado, Beatriz também evidencia que o fato de as cenas terem sido gravadas traz luz a outra questão: a maior parte dos casos de assédio e importunação não tem prova material, não tem câmera, não tem plateia, não tem replay.
“O que acontece com Jordana, em alguma medida, ilumina a solidão estrutural vivida por milhões de mulheres cujas experiências são colocadas em dúvida porque não foram registradas.”
A associação com problemas psiquiátricos
Em diversos pontos das redes sociais, também foi possível encontrar pessoas sugerindo que problemas psicológicos e psiquiátricos teriam motivado a atitude de Pedro.
A profissional do Instituto Natura ressalta os perigos dessa associação: “Adoecimento mental não é sinônimo de falta de caráter, nem de propensão à violência ou ao crime. Quando se associa automaticamente assédio ou agressão a ‘problemas psicológicos’, não apenas se desresponsabiliza o autor do ato, como também se reforçam estigmas sobre a saúde mental.”
A necessidade de medidas cabíveis
Para finalizar, Beatriz aponta as principais questões a serem enfrentadas em situações como essa.
A primeira é a responsabilização do agressor. “É uma condição mínima para que esse tipo de conduta deixe de ser tratado como acidente, mal-entendido ou descontrole emocional, e passe a ser enfrentado como aquilo que é: uma violência produzida e sustentada socialmente.”
Em seguida, ela reforça que a resposta precisa ser, antes de tudo, de acolhimento. “Acolher significa tratar a mulher com cuidado, respeito e seriedade, sem cobrança de reação imediata ou de uma ‘forma correta’ de se comportar”, declara.
E, por fim, um dos pontos mais fundamentais: nomear a violência. Dizer o que aconteceu, chamar pelo nome, importunação sexual, como define a lei, e também reconhecida por muitas pessoas como assédio.
“Nomear não é exagerar, nem criminalizar de forma leviana; é reconhecer a gravidade do ocorrido e romper com a lógica da minimização”, conclui.
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