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Você é de direita ou de esquerda?

Antes de tomar partido (e arrumar briga nas redes sociais), pare para avaliar os posicionamentos e entenda que, em política, há muito mais que dois lados

Por Liliane Prata - 6 jan 2017, 09h35

Os termos direita e esquerda começaram a ser usados para definir o espectro político durante a Revolução Francesa, no século 18: na Assembleia Nacional, a nobreza, defensora do rei, sentava-se do lado direito da sala, enquanto os simpatizantes de uma reforma mais radical posicionavam-se à esquerda. Mais de 200 anos depois, ainda há no mundo duas correntes hegemônicas com ideologias contrastantes – e várias ramificações delas.

A disputa entre os partidários de uma ou outra não envolve mais a guilhotina, mas anda especialmente acalorada – graças, em parte, à amplificação das redes sociais. Para a Presidência dos Estados Unidos, com discursos hostis às minorias políticas (incluindo as mulheres), foi eleito Donald Trump, candidato do conservador Partido Republicano.

Por aqui, na sequência das denúncias de corrupção, das manifestações populares e do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, as eleições municipais também trouxeram um novo cenário político com a predominância da direita. Com isso, a rivalidade parece cada vez mais aflorada em discursos, propostas e, claro, no Facebook.

Antes de sair criando desavenças com amigos, familiares e até desconhecidos, reflita: você sabe, de verdade, quais as principais diferenças entre os dois grupos? Convidamos quatro intelectuais para clarear essa discussão.

“Os partidos de esquerda defendem uma agenda de justiça social”

Flávia Biroli

Justiça social

Flávia Biroli, cientista política

“Historicamente, existe uma forte relação entre a esquerda e a temática da igualdade e da justiça social. Para a direita, a liberdade individual é um valor mais importante. Assim, a discussão é: existe uma responsabilidade coletiva pelo que ocorre na sociedade ou essa responsabilidade é de cada um? E que valores estão por trás dessa resposta?

A corrupção, por sua vez, está diretamente relacionada ao controle não democrático do Estado. E ela vem organizando o mundo político brasileiro desde sempre. O que esse processo atual mostrou é que ela não é monopólio da direita – historicamente mais ligada a ela por aqui –, mas está presente também em práticas políticas de que partidos de esquerda lançam mão. O surpreendente é que justamente esses grupos que ganham com a corrupção há décadas tenham conseguido defini-la como atributo de um único partido político (o PT) – o que é falso.

Outro ponto importante nas discussões atuais: é possível, sim, ser de esquerda e ter críticas ao PT, que é o maior partido de esquerda já criado na América Latina. A esquerda brasileira, nos últimos anos, se organizou em torno dele; agora, com o enfraquecimento do PT, é preciso se reorganizar. Há hoje um conjunto de grupos e partidos pequenos que vêm se fortalecendo, como o PSOL, com uma agenda de esquerda pujante, forte.

A lógica de mercado não nos agrada, pois as pessoas valem mais do que a satisfação do capital. É preciso ter uma agenda de justiça social em que se combata a prevalência do mercado sobre a vida das pessoas (a chamada mercantilização da vida). É necessário pensar uma democracia capaz de incorporar o valor da igualdade.”

“Reduzir a diferença entre o maior e o menor salário é a luta da esquerda”

Demétrio Magnoli

Vasto centro

Demétrio Magnoli, sociólogo

“Quando falamos de direita e esquerda, estamos excluindo a maioria dos políticos eleitos no Brasil. A maior parte das figuras eleitas e da base do atual governo federal pertence a um vasto centro. Se pensarmos na esquerda, há uma corrente principal, representada pelo PT e pelo PSOL, que tem características típicas da esquerda latino-americana, muito diferente da europeia (pela qual eu tenho simpatia).

Na Europa, a principal corrente da esquerda, a social democracia, aprendeu com o fracasso da Revolução Russa o valor da liberdade política e da economia de mercado. Assim, acha que devem ser feitas reformas sociais, mas conservando a economia de mercado.

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Na América Latina, essa lição do stalinismo chegou amenizada, pois foi interrompida pela Revolução Cubana, que criou uma espécie de mito fundador da esquerda local: ela é contrária à economia de mercado e tende a se aproximar do nacionalismo. Se na Argentina grande parte dos esquerdistas são peronistas, no Brasil cultuam Getúlio Vargas. Acreditam em um modelo que tende ao autoritarismo: não querem implodir o capitalismo; o que buscam é um capitalismo de Estado, com forte intervenção na economia.

Também vale a pena fazer uma observação sobre o termo ‘reacionário’. Muitas vezes as pessoas usam-no como sinônimo de partidário da direita. Mas o reacionário é quem reage à situação atual e quer voltar no tempo. Portanto, ele pode ser de direita ou de esquerda. A direita reacionária quer retroagir em relação às liberdades individuais, como esse grupo que defende o que seriam supostamente ‘direitos da família’; já a esquerda reacionária quer retroagir a um modelo político autoritário, aquele derrotado  com a queda do muro de Berlim.”

“Reduzir a diferença entre o maior e o menor salário é a luta da esquerda”

Vladimir Safatle

Falta de solidariedade

Vladimir Safatle, filósofo

“Em uma grande empresa brasileira, a diferença entre o menor e o maior salário pode chegar a 120 vezes. Em países como Dinamarca e Suécia, o menor é no máximo quatro vezes mais baixo que o maior. Fazer com que essas duas pontas da renda se aproximem ao máximo é a principal luta da esquerda. Ela defende que todos tenham mais ou menos o mesmo padrão de saúde, educação e assistência para que possam desenvolver suas habilidades. Diferentemente do que muitos pensam, a esquerda acredita na ideia de mérito, sim.

No entanto, nas condições atuais no Brasil, a meritocracia não pode ser aplicada, pois as pessoas partem de posições bem diferentes. Por isso, a ideia de que toda sociedade deve se organizar com base no princípio do livre mercado é um inimigo comum para a esquerda, que defende a correção dessas injustiças.

Nesse sentido, fazer uma revolução tributária é uma medida urgente. No Brasil, se você é pobre, sente muito mais o peso dos impostos que o rico. Na Inglaterra, os mais ricos são taxados em até 50% de seus ganhos. Aqui, no máximo em 27,5%. Mais: quem tem carro paga IPVA; quem tem jato particular não paga nada. Outro exemplo: nos Estados Unidos, o imposto sobre a herança pode chegar a 40% do bem herdado. No Brasil, só 4%. Assim, quem tem bens acaba sendo beneficiado.

O discurso de direita é hoje baseado no medo e na falta de solidariedade. Ninguém acredita que nossa forma de vida seja a melhor que existe; então, propaga-se o temor de que outra seja pior. Ora, admitirmos a manutenção dessa desigualdade absurda em vez de tentar outros modos de viver é o mesmo que dizer que quem passa dificuldades não tem importância. E a solidariedade não é uma opção, é um dever moral.

“A esquerda perdeu a conexão com os problemas práticos”

Lilian Furquim

Menos paternalismo

Lilian Furquim, economista e cientista política

“Direita e esquerda são posicionamentos que ainda fazem certo sentido, mas é importante pensar fora da caixa dessa dicotomia e ficar longe dos extremos, tanto de um lado como de outro. A esquerda radical quer a imposição de ideias, o não debate. E a grande defesa da direita radical é o autoritarismo do mercado sobre a sociedade. Acredito que, mais do que defender ideias, precisamos nos concentrar em resolver problemas.

No Brasil e na América Latina, temos uma esquerda com uma visão muito clara do papel do Estado: forte e paternalista, é ele que vai definir a distribuição dos recursos. Já o Estado da direita é aquele que intervém o mínimo possível na vida das pessoas. Penso que quem deve estar no comando não é nem o Estado nem o mercado, mas a sociedade. Na prática, isso significa que ela escolhe determinadas soluções independentemente de serem consideradas de direita ou de esquerda. Por exemplo, não se trata de marcar um X e definir que privatizar é bom ou ruim.

Na área onde for benéfico socialmente privatizar uma empresa estatal, pode-se fazê-lo, mesmo que a agenda inclua o fundamental combate às injustiças. Mais: ainda que essas políticas de combate à desigualdade necessitem ser feitas, elas devem caber no orçamento. Afinal, não existe almoço grátis.

A esquerda perdeu a conexão com os problemas práticos, que precisam ser resolvidos. Tanto a reforma previdenciária quanto a política são urgentes. Também temos um problema sério de gestão e de qualidade dos serviços públicos. Nosso Estado é presente demais na nossa vida, mas ao mesmo tempo não resolve problemas sérios de saúde, segurança e educação. É necessário pensar que soluções podemos oferecer para o país e apresentar uma esquerda mais progressista, que concilie liberdade e justiça.”

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