Oferta Relâmpago: Claudia por apenas 9,90

Uma visita a Frans Krajcberg

Como vive o escultor polonês que se reinventou no Brasil ao descobrir que a arte pode lutar pela vida

Por Redação M de Mulher 23 nov 2011, 21h00 | Atualizado em 17 jan 2020, 10h00
Edição MdeMulher
Edição MdeMulher (/)
Continua após publicidade

O polonês radicado no Brasil descobriu aqui a grande inspiração para sua obra
Foto: Reprodução revista VIDA SIMPLES

Um vestígio de mata Atlântica, em Nova Viçosa, extremo sul da Bahia. O jardim do escultor Frans Krajcberg, onde toda manhã, logo cedo, ele sai para caminhar, há mais de 35 anos. Num instante, depara com uma planta velha e carcomida. Observa seus desenhos irregulares, sua fragilidade. E encontra beleza.

Acompanhado sempre de sua máquina fotográfica ele clica e não deixa escapar seus objetos de êxtase. Tem mais de 20 máquinas e cerca de 200 mil fotos de miudezas da mata. “Um dia jamais é igual ao outro”, diz Krajcberg durante a caminhada. O artista polonês radicado no Brasil inspira a natureza para depois expirá-la em suas obras, fazendo delas um protesto contra a devastação do planeta.

Natureza inquieta
Continua após a publicidade

Ele tem fôlego de sobra. Está de pé às 5 da manhã e logo após a caminhada começa suas obras. Seguimos até um galpão abarrotado de matéria-prima: cipós, raízes, cascas e troncos de árvores. Foram recolhidos de queimadas e desmatamentos de florestas pelo Brasil. Com 12 ajudantes ele seleciona os restos de madeira que serão lixados e preparados para formar enormes árvores ressuscitadas, suas esculturas.

O velho Duka, seu ajudante há 25 anos, conta que não existem regras nem linhas retas no trabalho de Krajcberg. Ele prefere formas orgânicas. “Minha vida é mostrar minha indignação contra a violência e o barbarismo que o homem pratica”, diz o artista. As esculturas levam as cores dos vestígios das queimadas: vermelho e preto, fogo e morte. Não recebem nomes. Ele as chama de “meus gritos”.

Com passos fortes, gestos ágeis e extrema lucidez aparentaria ser bem mais novo que seus 85 anos, não fosse a pele judiada pelo sol. Dedé, filha de Duka e sua cozinheira, o chama para o almoço, momento em que ele desacelera o trabalho.

Continua após a publicidade

O artista, nascido na Polônia em 1921, viveu os horrores da Segunda Guerra e lutou no exército contra a Alemanha nazista. Sua família foi vítima como outros milhões de judeus, nos campos de concentração. Estudou engenharia na Polônia e artes na Alemanha e mudou-se para Paris. Lá, seu amigo e também artista Marc Chagall o incentivou a viajar para o Brasil.

Kracejberg desembarcou no Rio de Janeiro com 27 anos. Não conhecia ninguém, não sabia falar a língua e estava sem dinheiro. Trabalhou como operário no Museu de Arte Moderna, na primeira Bienal de São Paulo e como auxiliar do pintor Alfredo Volpi. Até decidir se isolar nas matas paraenses.”Cresci neste mundo chamado natureza, mas foi no Brasil que ela me provocou um grande impacto. Eu a compreendi e tomei consciência de que sou parte dela”, diz.
 

Uma visita a Frans Krajcberg
Continua após a publicidade

A casa da árvore em Nova Viçosa, onde mora o artista, a 12 metros do chão
Foto: Fernando Viva / VEJA

 

Mundo próprio
Continua após a publicidade

Seguimos para sua casa. Passamos por galinhas e cachorros, únicos companheiros de período integral, já que os ajudantes deixam a casa no meio da tarde. O artista mora em uma casa na árvore suspensa a 12 metros do chão, construída sobre um tronco de pequi de quase 3 metros de diâmetro. Uma escada em caracol leva até a varanda. O sala-quarto-banheiro de madeira e vidro quase não tem mobília, apenas algumas cadeiras esculpidas pelo ermitão.

O pequeno quarto é decorado com pedras, conchas e pequenezas que ele encontra. A parede tem textura delicada: está coberta com folhas secas. Lá de cima, uma vista de tirar o fôlego: vislumbra-se uma parte de sua reserva natural de 1,2 quilômetro quadrado, onde já plantou mais de 10 mil mudas plantas nativas da mata Atlântica e um resquício do mar.

A praia deserta fica a um instante da casa. Chegando, uma surpresa: o mar banhou-a com lixo vindo de outros lugares. Sacos, garrafas de plástico e cacarecos. “Tudo é feito para ganhos imediatos. Ninguém percebe que a natureza reage. É preciso gastar tempo e dinheiro para educar e conscientizar as pessoas sobre a preservação da Terra”, diz.

Continua após a publicidade

O artista, que já denunciou a exploração de minérios em Minas Gerais, as queimadas no Paraná, o desmatamento da Amazônia, fica aflito com tanta passividade. “Onde estão os artistas e intelectuais para protestar contra as barbáries do século 20?” Não, ele não acredita na arte pela arte, mas na arte engajada, na arte pela vida.

Foi a convite do amigo e arquiteto Zanini Caldas que Krajcberg desembarcou em Nova Viçosa, em 1972: queriam desenvolver na cidade uma espécie de comunidade intelectual, mas o projeto naufragou. Apenas Krajcberg fincou sua raiz, arrebatado pela beleza do lugar. Dali seguirá sua voz, que parte da destruição e da morte para fazer a defesa e o elogio da vida.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

OFERTA RELÂMPAGO

Digital Completo

Moda, beleza, autoconhecimento, mais de 11 mil receitas testadas e aprovadas, previsões diárias, semanais e mensais de astrologia!
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
ECONOMIZE ATÉ 52% OFF

Revista em Casa + Digital Completo

Receba Claudia impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*
De: R$ 26,90/mês
A partir de R$ 12,99/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).